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sexta-feira, 3 de agosto de 2012

O pó, esse mistério.



Hoje quero reflectir sobre o pó. Esse estranho e misterioso fenómeno ao qual tem sido dada interminável peleja pelo ser humano, armado de panos, aerossóis e ubíquos aspiradores, quais tanques de guerra nessa irritante tarefa de eliminar não uma raça, mas todo e qualquer rasto do dito fenómeno acumulativo em móveis, electrodomésticos e lâmpadas. Confesso aqui neste humilde e desajeitado repositório, uma das minhas secretas obsessões: o pó. Não que coleccione em frasquinhos amostras de diferentes casas, países ou outros artefactos onde este se acumula, mas porque sou daquelas pessoas às quais o pó, em excesso, lhe causa muita aflição visual, não na forma alérgica mas na puramente estética. 

No entanto tenho de prestar homenagem à minha mãe e à minha irmã por me terem mostrado como se limpa o pó como deve de ser, diga-se em abono da verdade sem grandes resultados práticos e duradouros da minha parte. Mas também ao povo suíço por me terem dado o privilégio de conhecer locais públicos sem pó. Nunca me lembro de ter passado por um aeroporto, e refiro-me ao de Genebra, onde se pode lamber o chão da casa de banho sem temor de apanhar uma qualquer onicomicose na unha, esporotricose, cromomicose ou outra micose profunda na língua e onde o pó é quase (porque ninguém é perfeito, nem mesmo os suíços) inexistente.

O pó é um fenómeno de tal modo difícil de compreender e ainda de mais explicar, que no universo da banda-desenhada (quadrinhos para os meus leitores brasileiros) e da animação, não me lembro de nenhum, nem mesmo do magistral Miasaki, onde o pó figurasse. Não me refiro pois às nuvens de pó causadas por veículos em andamento ou mesmo às cómicas explosões das quais o vilão é alvo, e de onde sai coberto de fuligem e com alguns dentes a menos mas prontamente recuperado e mais importante, vivo para poder a continuar os seus actos de vilanagem, como só nesse mundo é possível. Refiro-me sim às individuais partículas de pó que se acumulam nos móveis e outras superfícies mais ou menos planas. Esse pó, tormento das donas de casa, da decadência doméstica, e do desprezo que se aglomera em camadas diárias na solidão dos quartos, salas bibliotecas e museus. 

E no entanto viemos do pó. Não me refiro ao pó bíblico, imperfeito, terrestre, sujo e lamacento de onde o homem inventou a olaria e os mitos genésicos, mas sim ao pó primordial, cósmico e magistral, causa primeira do universo e infinitamente mais sublime que se recicla ilimitadamente quando galáxias, estrelas e outros corpos celestes colidem uns com os outros originando novas galáxias, estrelas, planetas e de vez em quando seres vivos e ainda mais raramente, seres inteligentes. Nós humanos somos o resultado desse pó reciclado e reciclável; já fomos galáxia, estrela e meteorito. Hoje somos humanos, no futuro longínquo seremos qualquer outra coisa até que a insuportável dispersão do momento inicial do universo pare e este colapse. 

Felizmente para a ciência o começo primeiro do pó não foi descoberto por astrofísicos portugueses (até porque raros). Isto porque se os nefandos estudiosos lusitanos tivessem usado do mesmo tipo de onomatopeia que os verdadeiros descobridores do fenómeno usaram na sua anglo-saxónica língua muito dada a onomatopaicas descrições, o fenómeno seria não mais que um escatológico som, resultado da vibração das nalgas de um qualquer deus: o Grande-Pum. Ainda bem que não fomos nós que descobrimos o tal de Big-Bang. Até porque não conseguiríamos viver com a vergonha e muito menos com a responsabilidade (coisa que não gostamos de arcar, de qualquer maneira). Nas línguas anglo-saxónicas a onomatopeia “bang” serve também de substantivo e descreve uma explosão: I've heard a loud bang. Em português a onomatopeia correspondente é “pum”. A pistola fez pum! E pum é também o nome dado à já descrita necessidade fisiológica de libertar gases intestinais. Decididamente teríamos de inventar outro nome mais digno, mesmo que menos criativo, por outro lado reduziria a grandiosidade e por vezes distanciada intelectualidade de tal fenómeno a um popularucho (e bem português) traque. 

Mas voltando ao pó, como vêm poder-se-á concluir que este negligenciado fenómeno natural é de suprema importância universal. Ele é transversal a todas as sociedades, culturas e religiões (com direito a fenómeno sobrenatural e tudo) e é inerente do próprio universo. Como tal daqui lhe presto esta singela e respeitosa homenagem. E como tenho imenso respeito por ti, pó, senhor do Universo, grande reciclador e reciclado, vencedor de todas as batalhas que à tua nobre pessoa estes abjectos humanos fazem, passarei a limpar-te menos vezes de cima da cómoda ou do móvel da televisão.

©Alexandre Rodrigues 2012

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Uma família de Pescadores - Soltar Amarras.


 Era uma família de pescadores, das últimas que ainda existiam na cidade de Setúbal nos anos oitenta do século vinte. Filhos e netos de pescadores e vendedores de peixe na praça, portanto gente da cidade com currículo e linhagem nas artes das redes e da venda de ictios e crustáceos. Uma família peculiar aquela, aos olhos dos forasteiros ou daqueles que, como eu nativo da mesma urbe de Elmano Sadino, vinham de  famílias de outras origens, também humildes mas diferentes.  


 A avó tinha uma “pedra” na praça e por defeito de profissão falava uns decibéis acima do desejado (Ah miga qué’zo quem diz lá!). Trazia pesados brincos de ouro pendendo nos furos já rasgados pelo peso da idade, em constante movimento cinético-vibratório, locomovidos pela acção do movimento maxilo-facial (erra o q’mai m' faltava agorra, nã querres nã comprres!). A senhora apesar das suas origens modestas tinha uma altivez orgulhosa de caracóis naturais e pele sobejamente enrugada, como uma fadista desgarrada a ajeitar o xaile (ê cá é que sei) e que nada deve à vida. O avô era um homem magríssimo, curvado que não comia (nã m’apetece nada), apenas bebia (um copite de vinhe tinte prra mim miga) e ninguém sabia bem porquê. Era pessoa de poucas falas mas quando se pronunciava apenas dizia redundâncias às quais ninguém retorquía mais pelo respeito à idade que pela limitada sabedoria. Mas gostava do mar, das artes da faina, e tinha uns olhos distantes e molhados quando estava em terra, como que enfeitiçados pelo vício da pesca, pela vida dura, pelas tempestades e pelas sereias, e por isso tinha uma cara triste e longa. As filhas, duas, distavam entre elas uma boa década em idade. A mais velha de andar rígido de artrite reumatóide, já tinha  atingido os quarenta e sem saber aproximava-se da viuvez precoce por causa de uns rins falidos e da hemodiálise que ainda não tinha chegado ao hospital (ai agorra o qué’que fasse sem o mê Márrio?) mas sempre com pujança nos pulmões para chamar os filhos que brincavam a mais de cem metros de casa (Aaaah Migueeeeeeel… andajápacasajantarrecutêpaijáchigouequerrcmerr!!!). A mais nova teria uns trinta anos, caixa num supermercado, um irritante sinal hirsuto por cima do canto da boca. Era casada com um soldador desempregado que gostava mais de adegas e sindicalismo de café que de trabalho e tinha as pernas inchadas e roxas por culpa de uma cirrose teimosa, mas mesmo assim ameaçava bater nos filhos se eles não portassem bem (amande-te uma papa desse f’cinhe se nã te pões dirrête vê lá!). E ainda havia um cunhado de voz esganiçada que tinha uma traineira verde chamada "Mula da Cooperativa" que já tinha levado por uma vez o andor na festa da Senhora do Rosário de Tróia, e fora expulso do cinema por se rir demasiado alto durante um filme cómico. Era a cara chapada do futuro falecido, apenas mais velho e seco pelo sal.


Iam todos aos fins-de-semana de Verão para Tróia num barco que não parava de crescer em tamanho à medida que a família se ia alargando. Nesse tempo acampavam entre a Caldeira e o cais dos Fuzileiros quando ainda era permitido fazê-lo mais por laxismo das autoridades que por falta de farisaica legislação. Chegavam com a maré-alta, arreavam a fateixa na areia e depois da barraca armada, no sentido literal e figurado, era vê-los já na maré baixa; as mulheres e as crianças a apanhar o mercurial berbigão no poluído Sado, os rapazes de camaroeiro nas mãos com água pelos joelhos, enquanto que os mais velhos desamarravam o bote a remos e de cana-de-pesca em riste tentavam a sorte com as tainhas, à época já a saber mais a gasóleo e a tinta dos estaleiros navais que a peixe fresco e "vivinho".


Depois haviam os netos, que já não queriam saber da pesca como modo de vida. Também não é de estranhar, de tanta prédica ouvirem sobre as dificuldades de ser pescador e de como o trabalho era mal-ganho e arriscado. E no entanto, todos pareciam ter a intensa certeza que estavam destinados ao mesmo futuro de pobreza dos seus pais e avós; uns na construção civil, outros como mecânicos e outros ainda atrás das grades sem muito que lhes valesse. Apenas iam disfarçando a amarga realidade com sonhos povoados de casas grandes, carros de luxo e muito futebol. 

 
©Alexandre Rodrigues 2012

sexta-feira, 20 de julho de 2012

A Alameda da Memória


Todos os dias desço a Alameda da Memoria. Antes de chegar ao fundo, viro à esquerda. À minha frente o Palácio Dourado onde Ela mora. Dourado metaforicamente falando, claro. O palácio é branco ou rosa sujo, às vezes é castanho claro, da cor dos seus cabelos, ou azul da cor do mar. Abro as largas portas de madeira com a chave do ressentimento, dou-lhe tantas voltas na fechadura como os anos que passaram e fecho a porta atrás de mim com um som de suspiro. Entro para uma vastíssima sala escura, apenas iluminada por uma janela circular por onde incidem raios de luz que iluminam um alto pedestal. No alto desse pedestal estão as minhas lembranças desse tempo, e está Ela também. Ou estava, nos tempos em que a Alameda se chamava Rua do Presente. Um tempo há muito passado (parece que foi ontem, disse-me ela quando me escreveu) quando a rua ainda era pequena e por asfaltar. Agora só estão as memórias e lembranças, algumas cobertas de pó, a maioria coberta de lágrimas. Só eu sei o quanto tentei fechar à chave, ostracizar, partir, demolir esse palácio, e sei também que não consigo deixar passar um dia que seja sem lá voltar.

Quando saio, volto a subir essa Alameda até ao cruzamento com a Estrada da Vida. A Estrada da Vida passa por todos os lugares por onde andei e por onde irei. Por vezes é estreita, lenta e esburacada; noutras é uma imensa Auto-Estrada larga mas monótona. Raras vezes é uma estrada normal, com uma paisagem bonita e curvas e contra-curvas, a montanha de um lado e o mar do outro. Essas só mesmo fora desse mundo que é o meu pensamento.

 

©Alexandre Rodrigues 2012

sexta-feira, 13 de julho de 2012

In Memoriam. Traduçao livre do funeral de Paddy Dignam do livro "Ulysses" de James Joyce




In Memoriam

Martin Cunningham primeiro bateu com a sua cabeça de chapéu de seda na carruagem rangente e, entrando habilmente, sentou-se. Mr Power entrou a seguir, curvando a sua altura com cuidado.
- Venha daí Simon.
-Você primeiro, disse Mr. Bloom.
Mr. Dedalus cobriu-se rapidamente e entrou, dizendo:
-Sim, sim.
-Estamos todos? Martin Cunningham perguntou. Venha daí Bloom.

Mr. Bloom entrou e sentou-se no único lugar livre. Puxou a porta atrás de si e bateu com ela até se fechar apertadamente. Passou o braço pela pega de cabedal e olhou seriamente através da janela da carruagem aberta para as cortinas baixas da avenida. Uma delas foi puxada para o lado: uma senhora idosa espreitando. De nariz escarrapachado na vidraça. Agradecendo às estrelas por ter sido preterida. Extraordinário o interesse das pessoas num cadáver. Contente por ver que nos dávamos a tanto trabalho. Foram feitos para este serviço. Segredos nas esquinas. Passando rapidamente pelas poças em chinelos com medo que ele acordasse. Depois aprontando-se. Colocando-se em posição. Molly e Mrs. Fleming a fazerem a cama. Puxa um pouco para o teu lado. A nossa mortalha. Nunca se sabe quem tocará no seu morto. Lavar e champô. Acredito que também lhes cortam as unhas e cortam o cabelo. Guardam uma mecha dentro de um envelope. Cresce na mesma depois. Um trabalho ingrato. 

Todos esperavam. Nada foi dito. Estavam a guardar as grinaldas, possivelmente. Estou sentado em cima de algo duro. Ah, pois, o sabão no meu bolso das calças. É melhor movê-lo daí. Espera pela oportunidade.
Todos esperavam. Depois ouviram-se à frente as rodas a girar: depois mais perto, os cascos dos cavalos. Um solavanco. A carruagem começou-se a mover, rangendo e balançando. Outros cascos e rodas rangentes avançaram atrás. As cortinas da avenida iam passando e o número nove com a sua aldraba suja, porta entreaberta. A paço. Eles esperaram ainda, movimentando os joelhos, até que viraram e iam passando ao longo da linha do eléctrico. Estrada de Tritonville. Mais rápido. As rodas chocalharam rolando por cima da calçada empedrada, e os vidros malucos sacudiram chocalhando nas suas molduras.

-Por onde é que ele nos leva? Perguntou Mr. Power através das duas janelas.
- Pela Irishtown, disse Martin Cunningham. Ringsend. Brunswick Street.
Mr Dedalus acenou afirmativamente, olhando para fora.
-É uma boa velha tradição, disse ele. Fico contente por ver que ainda não morreu.

Todos observaram por algum tempo através do buraco de suas janelas e os transeuntes levantavam os chapéus. Respeito. A carruagem desviou-se das linhas do eléctrico para se colocar na parte mais suave da estrada depois da Watery Lane. O sr. Bloom ao olhar reparou num jovem ágil, vestido de luto, chapéu largo.

-Vai ali um amigo seu, Dedalus, ele disse.
-Quem é?
-O seu filho e herdeiro.
-Onde está ele? Disse o Sr. Dedalus, estendendo-se a toda a largura. 

A carruagem, passando pelos esgotos a céu aberto e pelos montes que a estrada rasgou antes das casas de aluguer, cambaleou ao contornar a esquina e desviando-se de volta à linha do eléctrico, rolou ruidosamente as rodas tagarelantes. O Sr. Dedalus caiu para trás, dizendo:
- Esse mal-educado do Mulligan estava com ele? O seu fidus Achates?
- Não, disse Mr. Bloom. Ele ia sozinho.
- Ia para baixo com a sua tia Sally, suponho, disse o sr. Dedalus, a facção Goulding, Collis and Ward, o bêbado do caixa e Crissie, o monte de esterco do papá, a sábia criança que conhece o seu próprio pai.
O Sr. Bloom sorriu tristemente na estrada de Ringsend. Irmãos Wallace, a fábrica das garrafas. Ponte titubeante.

Richie Goulding e o saco de leis. Goulding, Collis e Ward, é como ele chama à firma de advogados. As suas piadas estão cada vez mais secas. Era um bom jogador de cartas. Valseando na Stamer Street com Ignacius Gallaher numa manhã de Domingo, os dois chapéus da senhoria agarrados à sua cabeça. Em alvoroço durante toda a noite. Já se começa a ressentir: aquela dor de cabeça dele, temo. A esposa a passar-lhe as costas a ferro. Acha que se cura com comprimidos. Tudo migalhas, é o que eles são. Cerca de seiscentos por cento de lucro. 

- Está com a escumalha, rosnou o Sr. Dedalus. Aquele Mulligan é um maldito rufião de olhar enganoso, sem dúvida alguma. O nome dele cheira mal à distância por toda a Dublin. Mas com a ajuda de Deus e Sua abençoada Mãe eu um dia entrego-me a escrever uma carta à mãe dele, ou tia ou lá o que ela é que lhe abrirá os olhos até ficarem esbugalhados. Acreditem-me vocês, eu desgraço-o. 

Ele gritou por cima do barulho das rodas.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

O Principio do Prazer - A Magritte























O Princípio do Prazer

O Princípio do Prazer começa num olhar,
No nu de uma mulher num armário revelado.
Um seio exposto, um triângulo púbico a vagar
A tormenta dos oceanos, um jóquei embriagado.

O Princípio do Prazer está no chapéu que cai, na invenção colectiva.
Nas luzes nocturnas, o mistério dos cumes é uma evidência eterna
Da condição humana revelada numa maçã, de onde nasce um ídolo.
São as férias num guarda-chuva, a saudade da Terra fraterna.

O Princípio do Prazer está numa surpresa junto ao mar, na chave dos campos.
São ideias acrobáticas, em perfeita harmonia num modelo vermelho.
Está na liberdade do pensamento, nos amantes e na memória de uma viagem.
É a interpretação dos sonhos num pedaço de queijo no final dos tempos.

O Princípio do Prazer não é para ser reproduzido.



©Alexandre Rodrigues 2012

sexta-feira, 29 de junho de 2012

A Cheia




Alberto Romão abriu a porta do seu apartamento sabendo que atrás de si deixava para trás uma curta carreira como professor. O seu contrato tinha acabado nesse dia de finais de Maio junto com o final do ano lectivo, e as hipóteses de voltar a ser contratado no ano seguinte seriam escassas por força das remodelações motivadas por políticas que Alberto continuava sem entender. Fechou a porta atrás de si e suspirou. Um prolongado e desanimado suspiro num dia de chuva torrencial que o deixara encharcado até aos ossos durante o longo, e nesse dia penoso, caminho para casa. Despiu tristemente o casaco e pendurou-o no cabide do corredor do pequeno apartamento onde vivia sozinho há mais de sete anos. Dirigiu-se ao quarto e olhou pela janela, reparou que a chuva, batida por um fustigante vento sul, continuava a cair oblíqua e cortante devido a um centro de baixas pressões que fustigava o país desde há uns dias e o seu coração desde há muitos anos. Fechou momentaneamente as cortinas para se despir. Sentia um desconforto frio e enregelante que só desapareceria depois de resolver os seu problemas interiores, de vestir uma roupa seca de algodão e um quente roupão seguido de um fervido chá com um pouco de leite. Reabriu as cortinas na falsa esperança da chuva ter passado. Alberto tinha lido a previsão do tempo no jornal; chuva para os próximos dias em todo o continente com curvas isobáricas concentradas no seu coração. Sabia que o estado de tempo e de espírito iriam durar muito mais que meros dias. Seria um Verão de abundante chuva, e um frio desagradável escorria finíssimo pelo seu coração como um longo e interminável florete trespassando-o lenta e ininterruptamente. Dirigiu-se à ampla cozinha-sala e foi espreitar o rio que passava mesmo em frente ao prédio pelas panorâmicas janelas que deixavam entrar a cinzenta luz do dia e o reflexo castanho do caudaloso rio. Este corria turbulento como Alberto nunca tinha visto. Levava dentro e em cima de si todos os detritos que apanhava no caminho, todo um passado turbulento vindo não se sabe de onde e sem qualquer ideia do que iria acontecer no futuro. Aquele rio fascinava-o. Apreciava as barcaças que por ele por vezes passavam, restauradas por marinheiros amadores que nelas passeavam aos finais de semana com a família, os amigos ou simplesmente o cão. Algumas serviam de restaurante para eventos e festas particulares, ruidosas na noite, tilintando pratos e copos de reformados durante o dia. Por vezes descia do segundo andar para ir passear pelo passeio ao longo da margem nos dias mais solarengos, de resto cada vez mais raros. Não sabia o que fazer com os dias que se adivinhavam, nem com a chuva. Sentia a vontade própria a sucumbir.
Alberto preparou o jantar, empurrou a mesa de modo a fitar o rio de frente e assim ficou longas horas até a luz cinzenta do céu se extinguir e apenas o reflexo da água, iluminado pelas luzes do passeio marginal, ser visível. Foi dormir com a forte sensação de algo inacabado e incompleto em si. Necessitava reflectir sobre o significado de tudo aquilo.

Ao acordar de manhã, depois de uma noite mal dormida, porque inquieta e inquietante, entremeada de sonhos e suores, de ansiedades futuras e tristes passados, Alberto voltou à sala. Reparou que o rio tinha subido bastante durante a noite. O passeio onde por vezes ia caminhar estava completamente submerso de tal modo que apenas o balaústre do corrimão de ferro que dividia o passeio e o rio continuava visível. Alguns detritos acumulavam-se nos pilares, objectos tragados pela fúria do rio e presos naquele momento como se fossem velhas memórias trazidas do passado e que, momentaneamente eram presas no presente até se desfazerem ou soltarem-se. Tragou a última fatia de pão que tinha preparado para o pequeno-almoço e sorveu o resto de café que ainda sobrevivia morno dentro da chávena.

Quando voltou a fitar o rio pela janela este tinha voltado a subir repentinamente, e já tinha alargado a margem, agora o relvado do rés-do-chão que estava a uns bons dois metros e meio de altura do balaústre estava inundado, o rio tornara-se medonho mas fascinante. Do outro lado a base das semi-arcadas do viaduto ferroviário também agora serviam de margem e o chão de terra avermelhada estava semi-coberto daquela água castanha sedimentar. Agora o rio lembrava-o os velhos amores de adolescente que o surpreendiam durante a noite tornando-a insone e fantasiosa, medonhos e ao mesmo tempo fascinantes. Subiam de repente, inundando o pensamento, involuntários, deixando-o à mercê dos estágios hormonais próprios da idade. Lembrou-se de Ana, por quem se tinha apaixonado quase ao ponto da loucura durante quatro anos, e de quem nunca se tinha verdadeiramente esquecido nem nunca aproximado. E de todas as outras Anas que vieram antes e depois, as quais tinham deixado efémeras recordações, patéticas, mas ainda assim efémeras. Alberto sentia-se exactamente assim; patético e apagado. A estranha paralisia que se apossava dele quando queria dar o primeiro passo, ou a atabalhoada forma de se abrir aos outros, sem ainda assim se abrir. A frustração que sentia depois de tudo acabado antes mesmo de ter começado.

Os detritos agora acumulavam-se ainda mais nas margens, como a espuma do mar que se acumula na praia e tinge as brancas areias de um sujo castanho metálico. O rio voltou a subir, com uma fúria violenta, apopléctica, frustrado com o passado e ainda mais com o presente, pressionado, vermelho, blasfemante, irado, que grita sem pensar antes de gritar, que ofende e faz levantar as lágrimas a quem o enfrenta. Alberto deixou-se cair no sofá. Branco, sem sangue, frio, a contrastar com o vermelho quente do rio. Os empregos passados, as frustrações por não lhe reconhecerem o mérito, por o pisarem para passarem à frente, à sua frente. Os sonhos que ficaram por realizar, as coisas que quis fazer e não o deixaram, sentir-se inferior porque o faziam sentir-se inferior, sabendo que não o era. As fugas constantes da realidade, o alheamento completo foram as suas frequentes soluções paliativas. O remédio, esse, tomou-o amargo, tornou-se amargo, sarcástico, cruel, insensível e invisível.

O dia tinha passado sem que Alberto se desse conta. Não se lembrava de ter almoçado ou jantado. A prova de que o fez estava nos pratos sujos por levantar da mesa. Estavam cheios de água do rio, suja, castanha, como uma sopa arrefecida. Eram um prelúdio do que iria acontecer e Alberto agora sabia-o bem. Sabia agora porque tudo se tinha feito claro como um raio de sol por entre as nuvens de chumbo. Alberto não iria parar. For dormir. Deitou-se e esperou que o dia raiasse, chuvoso, cinzento naquela cidade de edifícios cor de ferrugem e terra castanha, de gente triste como ele, gente que levava os ressentimentos dentro da mala à tiracolo, nunca aberta mas guardando todos os pensamentos que nunca chegaram a ser voz, que nunca foram disparados pela boca, talvez por pudor, talvez por vergonha. Talvez.

Alberto levantou-se no escuro do quarto. Ao pousar os pés no chão sentiu um calafrio molhado. O rio já tinha inundado completamente o primeiro andar do prédio e um finíssimo filme de água cobria agora o soalho do seu apartamento. Mesmo assim, dirigiu-se à porta do quarto, percorreu o estreito corredor e saiu em direcção às escadas. Tinha de ir verificar o correio. Alberto não sabia porquê mas tinha desde os começos da sua vida de adulto ficado com a falsa esperança que uma carta, a carta, um dia percorresse todo o processo logístico postal e lhe fosse parar à caixa de correio. Essa espera substituiu a outra espera que lhe marcou o olhar para sempre. Os olhos de Alberto pareciam sempre estar à espera, à procura, percorriam o horizonte à sua volta infatigavelmente na esperança de uma resposta, de uma conclusão para tudo o que ficou por dizer e que não foi dito, selado, lacrado, enterrado e esquecido. Assim que desceu os primeiros degraus da escada mergulhou no silêncio, no silêncio estranho da água, esse mágico silêncio fluido que envolve todo o corpo e deixa ouvir a voz interior que há em cada pessoa, em cada Alberto. A escada de betão estava vazia. Vazia como sempre estivera, desprovida de tinta, verniz ou qualquer outro processo físico-químico que lhe disfarçasse a fealdade. Alberto desceu até ao rés-do-chão, sem luz, sem vida, apenas água e dirigiu-se à caixa do correio. Abriu-a e estava naturalmente vazia. Olhou pela porta que dava acesso ao passeio fluvial, mas este estava envolto num nevoeiro vermelho acastanhado, como numa tempestade do deserto, mas de água. Apenas uns esparsos raios de luz cinzenta penetravam desde a superfície.

Quando regressou à superfície notou que esta já tinha subido pelo menos um metro. Ao abrir a porta de casa, muitos dos objectos do quotidiano de Alberto boiavam como se se estivessem a preparar para a grande viagem. Ali estavam eles a despedirem-se do seu dono e mestre; as caçarolas, os tachos, o relógio de madeira, os postais de Natal, o quadro abstracto e até alguns livros juntos com a garrafa de vinho meio vazia. Alberto afastou-os e dirigiu-se ao quarto. Abriu o armário da roupa meio inundado, e retirou o seu melhor fato. Vestiu-o cuidadosamente como pode e dirigiu-se para a sala. A janela grande estava fechada. A secção que se abria estava a um metro do chão e a superfície da água tocava-lhe na base. Preparou-se para se lembrar da sua infância, meio triste, sem muito dinheiro para prendas de Natal, sem a família toda junta e por vezes passado em casas de familiares. Lembrou-se dos domingos passados em casa da irmã de seu pai, onde por vezes todos os irmãos paternos e os respectivos cônjuges se reuniam para discutir trivialidades, sem enfrentarem o passado juntos a sério e onde a matriarca já senil e incontinente, sentada num sofá apenas se queria ir embora para a sua terra natal.

Nesse mesmo momento, Alberto abriu a janela grande da sala e foi imediatamente engolido pelo rio que mais uma vez subiu vigoroso, ocupando todos os cantos possíveis da sala, e o tragou sem que ninguém até hoje, saiba bem para onde.





©Alexandre Rodrigues 2012

domingo, 20 de maio de 2012

Este final de democracia.




1 – Grécia. A Republica Helénica esta’ neste momento entre a espada e a parede. Ou continua as medidas de austeridade e empobrece ou sai do Euro e empobrece ainda mais. Enganem-se aqueles que pensam que a volta do Dracma e’ beneficiário para o pais de Sócrates (o filosófo). Sair do Euro significaria a total perda de credibilidade (já de si muito pequena) financeira, a incapacidade de pagar este ou pedir novos empréstimos nos mercados e um rombo nas poupanças dos cidadãos que veriam as suas (suspeito que magras) poupanças serem brutalmente desvalorizadas por uma moeda de pouco valor. Tal como Portugal, ou ainda pior, os gregos andaram a brincar aos países ricos e a jogar o seu futuro em apostas muito perigosas. O sistema de colecta de impostos é terrivelmente ineficiente, nunca foi modernizado e por isso não existe cruzamento de dados, permitindo que largos (todos) sectores da população fujam aos impostos. Michael Portillo, ex-ministro da defesa britânico, num documentário sobre a crise do Euro pergunta aos gregos onde foi parar o dinheiro investido pela UE. Escusado será dizer para onde foi. Muitos cidadãos gregos iludidos pelas baixas taxas de juro proporcionadas pela moeda forte compraram carros de luxo alemães como o electricista entrevistado que tinha um Porsche Cayenne à venda, e afirmou que na sua família de cinco pessoas todas tinham um carro (!). Agora anda de Smart… Outros ainda mais ricos, usaram os buracos legais para evasão de impostos e “investir” em luxuosos iates e casas. Quando o documentarista pergunta a Jason Manolopolous autor do livro “A Odiosa Divida Grega” se isto é algo cultural, ou os gregos não confiam nas instituições o segundo responde-lhe o seguinte: vamos ver isto de um modo contrário, se as instituições são fracas e não são capazes de impor um regime justo de cobrança de impostos, aqueles negócios que cobram o IVA a 23% aos seus clientes tem como competidores muitos mais negócios que não o fazem (por falta de fiscalização efectiva). Então o que temos não é uma instituição corrupta mas sim corruptora. 


2-Alemanha. Tida por muitos como (mais uma vez) o mau da fita desta interminável novela, a Republica Federal já teve a sua quota-parte de crise na década de noventa e princípios de 2000. Os que criticam os germânicos esquecem-se que em 1990 aquando do início do processo de reunificação alemã, a Republica Federal teve de injectar não milhões, mas triliões de Euros (à época, Marcos) na colapsada economia, infra-estrutura e administração politica da sua irmã de leste. Este longo e doloroso processo obrigou a Alemanha a grandes sacrifícios, a ter uma das taxas de desemprego mais altas da Europa, despovoamento inicial do leste, transferência, privatização e modernização da sua estrutura industrial já’ para não falar nos incentivos fiscais (subsídios) para atrair investimento para as cinco novas regiões administrativas entretanto formadas entre muitos outros problemas com que teve de lidar. No fundo um “bailout” para incorporar um estado falido, centralizado e centralizador noutro bem mais prospero e descentralizado. Isto obrigou os alemães ocidentais a perder poder de compra, a não ter aumentos salariais se tivermos em conta a inflação anual e o imposto que cada trabalhador pagava para a reunificação, o ordenado foi efectivamente reduzido, uma economia estagnada (que já’ crescia pouco antes da reunificação) e consequente desemprego e pressão na Segurança Social. E não apenas isso: no final da década de noventa os alemães conseguiram prever que com a emergência de economias como a chinesa, teriam de ser mais flexíveis, congelar salários e reestruturar a sua economia. Não é pois de estranhar que depois de mais de uma década de sacrifícios em prol da solidariedade, do nivelamento social fraterno e da competitividade económica, os alemães tenham uma ou duas palavras a dizer sobre austeridade e sacrifícios e não queiram pagar mais um, dois ou quatro "bailouts" de países que desviaram fundos comunitários para encher os bolsos e o ego de vacuidades mentais politicas e seus ultra-subservientes lacaios nesses mesmos ultrapassados estados. Eu pensaria igual.


3- Quem beneficiará com a queda do Euro? Poder-se-á pensar que os países de moeda e economia forte beneficiarão deste fim, bem pelo contrário. Tudo porque neste momento, ninguém na Europa ou Estados Unidos se pode gabar de altas taxas de crescimento económico nem de ter défices em ordem ou a economia segura. Para países fora do Euro (como poderá’ acontecer com a Grécia) e com moeda desvalorizada, o preço das importações de países de moeda forte (Euro, Dólar, Libra, etc.) ficaria muito caro mas facilitaria a exportação. Já para os países da Europa fora da Euro zona e Estados Unidos a actual instabilidade do Euro não lhes beneficia as economias, pois estes países na sua maioria têm a Euro zona como principal mercado. Se não exportarem, como vão manter empregos, empresas, impostos etc? No entanto para países com moeda mais fraca ou artificialmente controlada (Yuan chinês) isto significará maior facilidade transaccional. E talvez seja isso que os chineses andem à procura para entrar na Europa. Afinal, eles tem estado a comprar e a investir fortemente em países do sul da Europa (os tais em maus lençóis) como parte de uma estratégia de entrada no continente e como forma de receber de volta os empréstimos que fizeram aos europeus. Este é o grande paradoxo actual; a China é oproblema, mas também é ou poderá vir a ser parte da solução. 

Não estou aqui a apontar bodes expiatórios, até porque seria a solução mais fácil (e regra geral a menos inteligente), e essas não existem. Estou aqui a tentar abrir olhos das pessoas. Não podemos nem devemos culpar ninguém a não ser nos próprios pelo facto de estarmos a ficar para trás. Os países em geral são como as empresas: se uma empresa lança um produto mais competitivo no mercado, as outras não podem ficar a assobiar para o lado como se nada estivesse a acontecer. Se continuarem a fazer as coisas como sempre fizeram, vão acabar por fechar, ou a pedir empréstimos para financiar as suas ineficiências até não poderem mais e ou fecham de vez ou são compradas por outras e perdem a sua autonomia. E os países também são como as pessoas: se forem vaidosas e de cabeça cheia de vácuo, quando aparece um vendedor de banha da cobra a prometer-lhes um terreno na Lua ou a compra de um qualquer monumento nacional, vão cair na armadilha. Ficam sem dinheiro e sem terreno, mas claro, culparão o embusteiro em vez de se culpar a si mesmos por serem tão incautos. Claro que depois não tem autoridade para exigir seja o que for, não tem credibilidade. Os países também podem ser como alguns dos meus alunos que tentam saltar os passos dos tutoriais que eu lhes forneço nas aulas e depois me apresentam o resultado final mas sem conseguirem demonstrar como lá chegaram. Mais depressa se apanha um mentiroso que um coxo, sempre me disse o meu pai. E assim se perdem a credibilidade e os direitos.


BBC: Michael Portillo The Euro Crisis: http://www.youtube.com/watch?v=cEbioTWE6Gg

E para um ponto de vista oposto

BBC: Robert Peston The Great Euro Crash: http://www.youtube.com/watch?v=BkfWrbomh84

sábado, 24 de março de 2012

Soluções para Portugal 2. Ou como um holandês e uma multinacional de computadores ajudam-nos a perceber (de modo sistematizado) porque somos como somos.


Quando Geert Hofstede chegou à IBM no final dos anos sessenta, depois de ter recebido um doutoramento cum laude da Universidade de Groeningen começou por criar inquéritos sobre satisfação laboral e entrevistou pessoas em mais de setenta países onde a IBM estava presente. Hofstede queria perceber com se comportavam as pessoas e como colaboravam entre si. Mais tarde os milhares de dados que recolheu e posteriores pesquisas em psicologia, antropologia, sociologia e ciências politicas desaguaram na obra de referencia “As Consequências da Cultura” (http://www.amazon.co.uk/Cultures-Consequences-Comparing-Institutions-Organizations/dp/0803973241/ref=sr_1_2?ie=UTF8&qid=1332624430&sr=8-2). Esta obra sistematiza e compara as diferentes culturas de trabalho de diferentes países. Mesmo os maiores críticos de Hofstede ainda estão por publicar uma obra de referência que se sobreponha a este verdadeiro compêndio cultural. A obra teve tal impacto que mais tarde Hofstede teve de incluir mais países na sua lista, e acabou por publicar “Culturas e Organizações: O software da Mente”( http://www.amazon.co.uk/Cultures-Organizations-Intercultural-Cooperation-Importance/dp/0071664181/ref=pd_sim_b_1)
Hofstede nunca procurou criticar esta ou aquela cultura, apenas perceber as causas e o porquê de certos povos comportarem-se de determinada maneira, e o porquê de certos choques culturais que muitas empresas (como a IBM) enfrentam quando se internacionalizam. Assim sendo concebeu as quatro dimensões culturais presentes em todos os países e culturas: Distância do Poder, Individualismo versus Colectivismo, Masculinidade versus Feminilidade e Aversão à Incerteza. Mais tarde um outro investigador Michael Bond inclui “Curto versus longo-prazo”, depois de ter estudado trabalhadores e empregadores chineses. Em 2010 uma nova dimensão foi incluída mas ainda não aparece em nenhum estudo “Indulgência versus Restrição”. A organização GLOBE tem feito um estudo continuo sobre as culturas e países e desenvolveu mais dimensões como por exemplo, orientação humana: altruísmo, generosidade, etc. No entanto para este post ficar-nos-emos pelas cinco dimensões propostas por Hofstede.
Distância ao poder tem a ver como as sociedades aceitam a distribuição do poder. Em sociedades com grande Distância ao Poder o poder é distribuído de forma desigual e as pessoas aceitam essa desigualdade. Poderemos dizer por exemplo que quanto maior a distância ao poder maiores as desigualdades salariais. Em países ou culturas com pouca distância de poder as pessoas exigem saber porque o poder foi distribuído de certa maneira e empenham-se em nivelá-lo. Um exemplo de pouca distância ao Poder é a Dinamarca.  
Individualismo versus colectivismo é o grau ao qual os membros de uma sociedade são integrados em grupos dos quais dependem. Em países individualistas é esperado de cada pessoa que saiba tomar conta de si própria sem depender de grupos alargados para o ajudarem e do qual esperam lealdade. Aqui colectivismo é cultural e não por imposição politica. Países com altos graus de colectivismo são as nações do extremo-oriente: China, Coreias, Japão.
A masculinidade versus feminilidade representa a preferência de uma sociedade por heroísmo, conquista, recompensa material ao inverso de cooperação, modéstia ou qualidade de vida. Masculinidade está inversamente relacionado com o número de mulheres a ocuparem cargos de relevo na sociedade, um exemplo de um país onde a masculinidade é prevalecente chama-se Áustria.
Aversão à incerteza estará relacionada com normas sociais de procedimento como por exemplo a obrigatoriedade do uso de cartões de identidade em certos países. Assim retira-se uma certa pressão da sociedade sobre eventos futuros e controlam-se melhor os cidadãos. Países deste género são intransigente e com códigos de fé ou opinião muito fortes. Por norma são intolerantes a ideias ou comportamentos fora da norma. Portugal e a Grécia figuram no top deste tipo de países
Finalmente curto versus longo prazo estará relacionado com sociedades que buscam a verdade absoluta, por norma tradicionalistas e de pouca propensão à poupança versus aquelas que adaptam as tradições aos tempos, onde a verdade depende das situações ou dos contextos e os elementos destas sociedades têm tendência a poupar e a investir no futuro.  São sociedades perseverantes. Mais uma vez países como a China figuram no topo da lista de países que pensam a longo-prazo.
A lista de dimensões de Hofstede é por certo generalista e muitos dirão limitativa, mas extremamente útil aquando queremos compreender a razões por detrás das escolhas politicas, da história, e mesmo da visão que cada país tem de si e do mundo. É uma ferramenta muito útil quando se viaja em negócios ou em lazer a um país estrangeiro. 


Quando analisamos Portugal verificamos que o país obtém um valor médio no que respeita à distância ao poder, certo que existem muitas desigualdades mas a sociedade não aceita muito bem essas desigualdades e é muitas vezes critica das mesmas. Pena ser tão passiva em relação a isso.  Quanto à segunda dimensão somos um país bastante colectivista, temos a necessidade de pertencer a um grupo, colectividade, religião, etc. Nada de negativo nisto, mas o reverso da medalha é a nossa falta de capacidade de auto-responsabilização, o fugir aos deveres, o pensar por si mesmo. Um dos factores positivos que Portugal aparenta ter é uma alto índice de feminilidade, onde a cooperação e a qualidade de vida são valores que a sociedade portuguesa em geral preza, e a participação das mulheres na sociedade (já de si ancestralmente matriarcal) é elevada.  Já a modéstia… O valor onde Portugal apenas é batido pela Grécia é o da Aversão à incerteza. A intolerância por pessoas ou ideias diferentes não espantará muitos, ainda somos um país periférico onde tudo o que foge à norma é apontado a dedo, não raras vezes escarnecido e na maioria das vezes ostracizado. Em Portugal, tanto quanto sei, dá-se muita importância ao que os vizinhos pensam de nós. O uso de cartão de identidade é obrigatório, assim como o uso de outros cartões. Em Portugal as carteiras andam cheias de cartões alimentadores da máquina burocrática mas vazias de dinheiro alimentador das bocas e do bem-estar. Finalmente na orientação a longo-prazo Portugal marca pouquíssimos pontos. Perdemos a capacidade de poupar, buscamos as verdades absolutas, nem que seja à força de teorias da conspiração, onde muitas vezes ambas não existem, e estamos agarrados às tradições, às velhas ideias, nem sabemos bem porquê, talvez porque assim (pensamos que) controlamos o futuro, quando afinal estamos à mercê do mesmo e das voltas que a roda da vida dá. Outro dos factores dos países com visão a curto-prazo é o pouco valor que dão à educação e ao investimento na mesma (afinal, têm dificuldades em poupar). Os resultados estão à vista…
Penso que são estas duas últimas dimensões que precisam de ser repensadas no nosso país por cada indivíduo, isto se se conseguirem afastar um pouco do colectivismo. São elas que dão razão aos leitores de Ramalho Ortigão e Eça de Queirós que facilmente se apercebem o quão Portugal pouco mudou em mais de cem anos, mesmo que os sociólogos digam o contrário. São elas que empenam as engrenagens e nos fazem dar tiros nos pés. São essas mesmas dimensões (e aqui também o talvez excessivo colectivismo) que nos obriga a levar com esta “democracia” de caciques e seguidistas, onde independência pensamento e de voto é coisa realmente desconhecida, ou atabalhoadamente colocada de parte. São elas que nos retiram o orgulho de sermos portugueses, que nos fazem parecer patéticos e pouco convictos aos olhos do mundo. As dimensões de Hofstede não são imutáveis como certas “verdades”que por aí pululam. Elas mudam, mas só com o tempo e a vontade dos povos. E isso leva muito tempo. É um investimento a longo prazo que cada individuo tem de fazer e nada nos garante que, no futuro resulte. Mas temos de perder o medo.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Soluções para Portugal. A Teoria da Motivação.

Soluções para Portugal. A Teoria da Motivação.
Muito se tem falado e criticado acerca da corrente situação económica em Portugal, das suas origens, dos perpetradores de negociatas ruinosas, do problema cultural e de mentalidade português, de tudo e mais alguma coisa. E não raras vezes vozes se têm levantado a exigir soluções, a demandar o fim de tanta critica – vamos mas é trabalhar, comprar produtos portugueses e outras soluções coladas a cuspo que no meio desta global crise pouco ou nenhum efeito suscitam. Diz o velho ditado; em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão. A Europa é em geral uma casa sem pão. Invariavelmente, nestas alturas de crise, aparecem sempre uns "espertalhões" a atirar “postas de pescada”, sejam alemães, portugueses, ingleses ou italianos. E regra geral culpam sempre os vizinhos pelo facto de não haver pão. E o vizinho pode ser o imigrante da porta ao lado, o governo, outro país, outro continente. Bodes expiatórios, no fundo. Quando afinal todos somos culpados da situação em que nos encontramos. Os alemães porque fazem negociatas escuras para vender submarinos e comboios, por um lado; os portugueses porque são vaidosos e gostam de ter o último brinquedo de luxo que aparece no mercado, submarinos, comboios, pontes, carros, por outro. Por cada vigarista há sempre um tolo. E assim é por este mundo fora. E entre tolos e vigaristas, os que são minimamente honestos e um pouco menos vaidosos, têm de fazer pela sua vida e se possível evitar uns e outros. No entanto todo este “zunzum” causa invariavelmente uma grande desmotivação, especialmente naqueles que sendo arrojados, de pensamento independente e “out-of-the-box”, se sentem ridicularizados, ostracizados, humilhados e injustiçados.

É nesta perspectiva contributiva (e não na do António José Seguro) de novas ideias que eu venho aqui tentar, num pequeno gesto, oferecer aquilo que poderá ser uma pedra fundamental na mudança de mentalidades. “Venho pois aqui falar de uma coisa que me anda a atormentar”. Motivação.

Motivação pode ser interpretada como um vasto conceito que incluirá preferências por um determinado resultado, uma vantagem, esforço (mole ou entusiástico) e persistência em face de certas barreiras, assim defendem os investigadores Andrzej Huczynski da Universidade de Glasgow e David Buchanan da Universidade de Cranfield. O psicólogo norte-americno Abraham Maslow, pai das teorias da motivação defendeu no seu conteúdo que todo o ser humano tem dentro de si nove necessidades e motivações inatas quer precisa de preencher para chegar a um alvo final, a auto-realização. Estas nove necessidades são:

1.     Necessidades fisiológicas; sol, comida, água, sexo, descanso e oxigénio, ou por outras palavras as necessidades básicas de sobrevivência individual e colectiva.
2.     Necessidade de Segurança; conforto, tranquilidade, libertar-se do medo e das ameaças do meio envolvente, abrigo, ordem, previsibilidade e um mudo organizado.
3.       Necessidade de afiliação ou relacionamento; ligação, pertença, afectos, amor e relacionamentos.
4.       Necessidade de estima; confiança, realização, independência, reputação, prestígio, reconhecimento, atenção e apreciação. Ou por outras palavras a necessidade de uma firme auto-avaliação baseada nas capacidades e no respeito pelos outros.
5.       A necessidade de saber e compreender; adquirir e sistematizar o conhecimento, a necessidade de ser curioso, aprendizagem, filosofar, experimentar, e explorar.
6.       Necessidade Estética; a necessidade de ordem e beleza.
7.       Necessidade de transcendência; necessidades espiritual, identificação “cósmica”ou “ser um com o universo”.
8.       A necessidade de ter liberdade de inquirir e de expressão; um pré-requisito essencial para a satisfação das outras necessidades.
9.       Necessidade de auto-realização; para o desenvolvimento do nosso potencial.

Como poderão perceber, existem necessidades básicas que se não forem preenchidas levam ao fim do indivíduo ou do grupo (e aqui grupo vamos chamar de nação, o povo de um país). No entanto existem outras necessidades que, embora não causem a morte, levam a grande desmotivação; por exemplo, a liberdade de inquirir e a liberdade de expressão são frequentemente constrangidas por procedimentos (burocracia?), regras (leis) e normas sociais (cultura). Tudo isto nos parece muito lógico e até afirmarão os meus leitores que até aqui nada de novo e que tudo isto nem necessitava de uma teoria por ser tão óbvio. Mas peço-vos um pouco mais de paciência, e tentem perceber, para já, as conclusões de Maslow. A hierarquia das necessidades tem portanto as seguintes cinco propriedades:

1.       Uma necessidade não é um motivador efectivo até as outras necessidades mais abaixo na hierarquia serem mais ou menos satisfeitas, ou seja é pouco provável que nos preocupemos com tubarões (ameaça à segurança) se nos tivermos a afogar (privação fisiológica).
2.       Uma necessidade satisfeita não é por si só um motivador. Se uma pessoa estiver bem alimentada e protegida terá dificuldade em aceitar ofertas de comida e de abrigo.
3.       A falta de uma necessidade satisfeita pode afectar a saúde mental. Por exemplo, a frustração, a ansiedade e a depressão que aparecem quando há falta de auto-estima, perda do respeito, e finalmente a inabilidade de desenvolver as suas capacidades intrínsecas.
4.       Temos o desejo inato como seres humanos de subir nesta hierarquia, uma vez estando as necessidades mais abaixo satisfeitas.
5.       A experiência de auto-realização estimula o desejo por mais e melhor. Quando se chega a este patamar, o auto-realizado tem o que se chama “experiências de auge”. Quando se chega a este patamar o individuo ou grupo precisa de mais experiências semelhantes até porque esta não pode ser satisfeita como as outras.

Tendo mostrado aqui o enquadramento teórico, pediria a todos os que me lêem que façam primeiro uma pequena auto-analise e reflictam em que patamar se encontram. Quanto ás conclusões individuais não poderei dar palpites, cada um saberá auto-avaliar-se, mas com certeza se eu inquirisse um a um, teria as mais variadas respostas. Façam agora o mesmo exercício mas numa escala maior e tentem perceber onde se encontra o nosso país. Talvez não andarei muito longe se afirmar que muitos concluíram que estaremos no nível quatro das necessidades. E acrescentarei que andaremos nesse nível há muito tempo, à tempo demais. Sem este nível satisfeito não conseguiremos alcançar o(s) patamar(es) seguinte(s). Por isso as ciências em Portugal andam coxas e mutiladas, as crianças desistem da escola tão cedo, as pessoas são avessas a novas e diferentes experiências, a explorar o desconhecido, a aventurar-se. Por isso se destruíram e continuam a destruir belezas naturais no nosso país, se tomaram iniciativas sem objectividade, se desdenham as artes. Por isso Portugal ainda vive, de certo modo arraigado a superstições, credos e tradições que não elevam de todo o espírito, apenas  cumprem uma função e nem se sabe nem se pergunta bem porquê. É claro que assim é impossível alcançar a liberdade de inquirir, de ter e de aceitar um espírito crítico, aqueles que colocam em causa o “estabelecimento” e os velhos dogmas e as caducas certezas.
Portugal tem em suma de se sentir reconhecido e apreciado, de ser um país reputado e não uma nação sem lei. Ou por outras palavras a necessidade de uma firme auto-avaliação baseada nas capacidades de cada um e do país como um todo, no respeito pelos outros, mesmo que pensem de modo diametralmente diferente do nosso. Precisamos de nos tornar uma nação que acredite no mérito, no esforço do verdadeiro trabalho, precisamos de objectividade, coerência, muita persistência e ânimo. 

Mas acima de tudo temos de fazer bem, para o merecer.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Aprender a Reflectir. O Ensino.

No princípio deste ano lectivo, o segundo que lecciono, resolvi inscrever-me no curso de Pós-Graduação em Ensino e Aprendizagem em Educação Superior. É um requerimento obrigatório no Reino Unido para todos os professores universitários que leccionam ou queiram começar a carreira. A medida tem sido um pouco controversa, os detractores alegam que retira liberdade e autonomia aos professores universitários, até agora independentes do poder politico no que respeita aos currículos, ao contrario dos professores dos ensinos básico e secundário, e também porque o ensino universitário é virado para a investigação e não para a pedagogia. No entanto os defensores alegam que este curso permite ao professor abrir novos horizontes sobre o que é ensinar e aprender, duas coisas que facilmente dissociadas mas que estão muito próximas, senão mesmo inseparáveis uma da outra.
Pessoalmente inscrevi-me por duas razões; a de ter uma ferramenta no currículo que me permite dar aulas em qualquer universidade do Reino Unido e também pelo facto de estar a gostar muito de leccionar e ter, de certo modo, encontrado no ensino a minha (talvez verdadeira) vocação. Como qualquer professor recém-chegado ao ensino em qualquer parte do mundo, sou assaltado por receios, dúvidas e os alguns anseios. Apesar de estar habituado a falar em público devido à natureza do meu anterior emprego, fosse em universidades ou em reuniões de negócios com gestores da industria automóvel e/ou o seus fornecedores ou ainda com entidades do sector publico britânico; o facto de ter de enfrentar uma classe de alunos, que vem dos mais diversos “backgrounds” sociais, culturais e de ensino é sempre um desafio difícil de enfrentar e pode ser mais aterrador que o mundo dos negócios.
Neste primeiro módulo (ou cadeira) do curso somos levados a reflectir sobre os nossos receios e ansiedades enquanto docentes, partilhá-los com os colegas de curso e discutir em conjunto possíveis abordagens para o problema. Tudo muito senso-comum, tudo num ambiente muito descontraído e informal, pelo menos nesta fase inicial. Depois, somos convidados a criar um diário das nossas reflexões enquanto professores e partilhar tanto com a classe, mas especialmente com o nosso mentor (um professor mais experiente e que tenha feito o curso) que será como uma espécie de guia nestes três semestres que dura o curso. Nesta fase a reflexão que fazemos é depois analisada e discutida com base em teorias pedagógicas e psicológicas e que irão ao encontro da nossa reflexão (aqui a coisa já’ começa a ser mais séria).
Aprender a reflectir e a partilhar os medos que nos assaltam a todos é um exercício tão ou mais difícil que o de dar aulas, tampouco porque nos obriga a (re) pensar não só as nossas atitudes, mas também nos receptores a quem transmitimos o conhecimento e que não raramente se sentem tão assustados quanto nós. E o que dizer então da partilha? Partilhar receios e ansiedades obriga-nos a expormo-nos aos outros, como se numa catarse. É como se nos despissem em público e nos obrigassem a discursar. E os outros são os nossos colegas de profissão e em alguns casos colegas no mesmo departamento. Num país onde a individualidade de cada um é religiosamente respeitada, isto causa imensos transtornos. Será mesmo assim? Colegas meus que já fizeram o curso testemunham-me que afinal todos temos os mesmos receios, as mesmas ansiedades, sentimos os mesmos problemas. A diferença estará na nossa abordagem dos problemas. No entanto, parecem ter aceitado esta abordagem, como se um peso tivesse saído de dentro  deles.
Afinal o ensino é isto mesmo, é a partilha de conhecimento, de experiências, de afectos, é regar a planta e deixá-la crescer e não apenas ditar ou transferir conhecimento de um sujeito activo a outro passivo. No fundo, é uma viagem por onde levamos alguém e o ensinamos a pensar por si para que esse alguém siga o seu próprio caminho.