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segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Esta Tourada Nacional

Estar à distância dos acontecimentos é por vezes um privilégio que nos permite alguma lucidez quando nos armamos da melhor informação possível e disponível para podermos entender algumas situações. Confesso que até hoje estava um pouco alheado da polémica das touradas em Portugal. Mas ao ver as imagens de um toureiro a cavalo a investir contra manifestantes anti-tourada deixou-me um pouco perplexo, mas devo dizer não surpreendido.


Não sendo eu um aficionado deste desporto (vamos chamar-lhe assim por ora) porque o acho brutal, antiquado e desadequado aos tempos em que vivemos, compreendo que haja quem o defenda, até porque quem o defende terá interesses económicos a defender, se mais nenhum argumento for aceitável (a tradição por exemplo). Outro argumento que já ouvi várias vezes é o de que se se acabarem as touradas, o touro bravo extingue-se porque não serve para mais nada hoje em dia senão para ser centro de um espectáculo antigo típico da Península Ibérica cujas origens se perdem nas brumas do tempo, e pouco mais. 

E também não sendo eu um militante dos direitos dos animais, mas defensor dos mesmos e que se tratem com dignidade e respeito, mesmo na morte, compreendo que os militantes anti-tourada se sintam indignados e chocados por ainda existir num suposto país desenvolvido (ou sempre nas suas margens inferiores pendendo ora para cá ora para lá). E como é esperado e saudável de um país que já vai tendo uma boa percentagem da população (não arrisco números) mais ou menos formada civicamente, relativamente viajada e quando quer bem informada, (estou a falar da minha geração a tal que era rasca, à rasca e agora perdida para o desemprego e para a emigração) vão nascendo e crescendo por aqui e por ali movimentos de indignação contra aquilo que se acha injusto, indigno e por vezes patético e bacoco numa tentativa, espero que bem intencionada, de nos tirar da lama em que nos encontramos.

No entanto, o meu país ainda à procura de si mesmo (incrível, ao fim de quase novecentos anos de existência), ainda não percebeu bem o que é democracia e acima de tudo o respeito pela opinião dos outros, mesmo quando esta é diametralmente oposta à nossa. E não posso deixar de censurar ambos os lados desta contenda pelas atitudes que têm tido em relação ao pólo oposto. E quando assim é passa-se da contenda para a comédia e em menos de nada para a tragédia. E perde-se a razão. Perdem a razão os “contra” porque atacam bens pessoais de quem vai assistir ao espectáculo. Perdem a razão “os prós” porque atacam de modo grosseiro e cobarde quem se manifesta (e sublinho) aparentemente de forma pacífica. Perdem a razão os do “contra” porque caiem no erro de baixarem o nível quando vão para as páginas das redes sociais dos “prós” ameaçarem de forma bastante feia e assustadora. Perdem a razão os “prós” quando usam da mesma táctica baixa, foleira e indigna de um país que se diz e quer civilizado.  

Algo que profundamente me indignou, mais do que o triste espectáculo foi a completa inacção das autoridades presentes, neste caso julgo que a GNR. Além da péssima imagem que esta suposta força da ordem dá de si mesma, dá uma péssima imagem do país cá fora (pois, porque estas coisas são vistas cá fora); um país de bandalheira, mole, acéfalo, sem crédito, sem lei. Actua quando não deve e alheia-se quando deve intervir. Será do presente clima de austeridade e descrédito das instituições de justiça? Será com medo de represálias dos “senhores cavaleiros”, quase sempre colados à política local e com “conhecimentos” nas hierarquias superiores das forças de segurança? Será pelas actuais (ou permanentes) condições de trabalho e remuneratórias hilariantes? Ou será isso tudo? 

Outra coisa que me indigna nas (des)organizações portuguesas é a facilidade com que se afirmam maiorias sem apresentar quaisquer números estatísticos, e menos ainda credíveis a defender que existe essa mesma maioria por detrás da organização e daquilo que ela defende. Basta ir às páginas de internet de ambos os movimentos (de escassa informação relevante, diga-se em abono da verdade) e verificar. E indigna-me mais porque as pessoas deviam ser mais exigentes com os números e no entanto passa-lhes ao lado, não querem saber ou não se importam e como resultado resmungam contra tudo e todos e não se manifestam quando o deveriam fazer e pelas razões certas. É por isso que Portugal tem um importante número (não arrisco valores) de intelectuais de paragem de autocarro. Será que alguém já se preocupou em saber ou divulgar quantos aficionados existem? Terão mesmo algum impacto social ou económico? E se realmente forem a maioria e tiverem a sociedade a apoiá-los? Como ficam os que são contra? Desistem ou tentam informar e educar a sociedade de modo a ser mais sensível aos direitos dos animais? Ou vão continuar a gritar slogans de intervenção saídos dos anos setenta e completamente desfasados da realidade e necessidades informativas actuais? 

Se realmente querem fazer ver os vossos pontos de vista, sentem-se à mesa (e não num estúdio de televisão) com um mediador neutro(e não um qualquer apresentador de TV ou jornalista semi-encartado) e discutam o problema a sério. Convidem os meios de comunicação a estar presentes (e não a serem o veículo). Se não se chega a um acordo civilizado (e suspeito que não) referende-se, leve-se ao parlamento, usem-se os meios institucionais e legais se existirem. E legisle-se de uma vez por todas. 

Mas infelizmente como tudo em Portugal, vai ficar metade por fazer, o que se fizer vai sair coxo e desorganizado, vão gritar uns com os outros para a televisão durante uma hora e meia contando com os intervalos a bem do sucesso comercial do canal que os acolhe e para gáudio das audiências boçais que perdem tempo a assistir. E para piorar a situação, agora os pagadores de impostos (aqueles que deveriam ter voz nos destinos do país) nem vão poder exigir que o debate televisivo seja feito no canal público de televisão (que por razões que a razão desconhece também tem/tinha intervalos comerciais). 


Estar à distância dos acontecimentos é mesmo um privilégio que nos permite alguma lucidez. 



©Alexandre Rodrigues 2012

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Carta de um Fernando a uma Eunice


Querida Eunice,

Aquilo que irás ler é uma carta cheia de clichés e frases feitas, algo que usamos frequentemente na nossa relação, no entanto não encontro outro modo de descrever o que sinto, e quando a leres já terei partido. 

Hoje é o meu quadragésimo aniversário e acordei descobrindo que esta não é a vida que quero para mim. Chama-lhe crise de identidade, crise de meia-idade, até podes chamar-lhe cobardia e desistência que eu não me importo. Sei sim que fechado no nosso mundo de rotinas sete dias por semana, filhos, empregos medíocres, famílias poucochinhas e sei lá que mais, sinto-me a morrer. A morrer física e mentalmente, devagar mas implacavelmente. Não fui feito para isto. Perguntar-te-às, então porque só agora me dizes? Porque só agora tomei coragem, porque só agora não aguento mais, porque só agora. Para ti talvez seja suficiente, a segurança de um lar e de uma família, casa, comida na mesa e a educação dos filhos. Afinal não é o que a maioria das pessoas ambiciona? Eu, infelizmente ou felizmente, já não sei, não sou como a maioria das pessoas. Eu tenho de continuar a abrir horizontes, quero ver o mundo, mau e bom, as pessoas, conversar com elas, saber o que fazem e porque fazem. Quero descobrir outros corpos, outras vidas, dar grandes cabeçadas, arriscar, aventurar-me, perder-me para me poder achar. 

Descobri, tarde de mais dirás tu, que não tenho feitio, cabeça, pachorra, habilidade ou vontade de estar amarrado a rotinas de casa-trabalho, trabalho-casa, visitar-a-familia-poucochinha, mudar-a-fralda-à-miuda, dar-de-comer-ao-rapaz-que-tem-de-ir-para-a-escola, fazer-amor-aos-fins-de-semana-quando-há-tempo-para-isso-e-não-estamos-ambos-a-cair-de-cansados-por-causa-da-rotinazinha-diária, as comidinhas, os bolinhos, as bebidinhas, os almoços-e-jantares onde as pessoas só vomitam trivialidades. Isso para mim é tudo uma prisão. E nem é dourada, é cinzenta-chumbo, é tão certa como o dia ter vinte e quatro horas. Porque é que o dia tem vinte e quatro horas, porque é que as horas estão divididas em sessenta minutos, e os minutos em sessenta segundos? Não quero ter horários, nem dias de vinte e quatro horas. Quero dias de dezasseis, outros de trinta. Só assim saberei apreciar a vida e o que ela tem de bom e mau para dar. Quero poder amar durante dias de quarenta e oito horas, viajar em dias de dez, e chegar a um destino ao pôr-do-sol sobre um mar laranja em dias de duas horas. E acordar numa montanha tão alta, ao fim de minutos de sonhos, que consiga ver o mundo inteiro tal como ele é, não como querem que eu o veja.
Desculpa se achares que perdeste todos estes anos de vida comigo. Eu da minha parte aprendi muito, e agradeço-te o tempo que passaste comigo, o amor que certamente me deste, os lindos filhos que tivemos (eu avisei-te quanto aos clichés). Mas eu não sabia. Ou melhor, sabia mas neguei-o a mim próprio. Quis pensar que assim, de vidinha estável é que era bem, um emprego serviçal mas regular, apanhar o comboio todos os dias para ir trabalhar, voltar a casa e beijar a esposa e os filhos rechonchudos, visitar os pais avós primos tios ao fim-de-semana, era o que todos à minha volta esperavam; era o que tu esperavas, a família, os amigos, o senhor Antunes da repartição de onde me despedi hoje mesmo, a D. Antónia da mercearia onde todos os sábados íamos comprar fruta (lá está, a rotina), e até o padre que nos casou. Eu sei que te vai doer, me vai doer, vai doer aos miúdos. Mas era isto ou a loucura, o inferno. Não essa, mas outra tristeza. Porquê só agora? Não sei, porque só agora senti coragem, só agora o copo entornou, só agora a vida que levo deixou de fazer sentido. Era isso ou a loucura, ou o suicídio, ou, ou…

Portanto… não há maneira de dizer isto de outra maneira, que não soe lamechas ou pirosa, quero que saibas que apesar de tudo podes contar comigo, os miúdos podem contar comigo, não sei se financeiramente, nem sei se em pessoa, afinal os meus dias irão ter horas diferentes dos vossos, o meu tempo e o meu espaço serão diferentes dos vossos. Uma coisa é certa, partirei como os nossos antepassados pré-históricos partiram; sem a certeza de voltar do outro lado da montanha. Houve quem afirmasse que do lado de lá a erva é sempre mais verde, e as estrelas brilham melhor nos arquipélagos do sul.
Não quero que me odeies. Se me odiares, paciência. Não poderei fazer nada quanto a isso, mas preferia que ficássemos assim. Assim? Assim. Como estaríamos agora se eu no dia do meu quadragésimo aniversário, decidisse ficar em casa, esperar que tu viesses com a rotineira prendinha, acompanhada dos miúdos, fossemos talvez almoçar ou jantar fora como fazemos todos os anos, e eu infeliz, e tu infeliz, cansados, saudosos do tempo em que nos amámos de verdade, eu em busca da aventura do teu corpo, tu em busca de segurança no meu peito, e os miúdos pensando que éramos felizes. 

Um abraço grande,

Fernando.


 © Alexandre Rodrigues 2012

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Missa em Si menor.




Kyrie Eleyson, Christe Eleyson. Senhor tem misericórdia de mim, pobre pecador que aqui vou relatar a minha fraqueza carnal, durante a missa à tua pessoa, quando do coral de negro vestido, aquela formosa mulher sobressaiu e eu vil mortal, da penumbra da minha cadeira a contemplei durante todo o serviço. Kyrie Eleyson, tu que és denunciador, carcereiro juiz e carrasco da tua própria lei, tem misericórdia de mim, pelo menos enquanto as sopranos principais se esgrimem em boquinhas irritantes ignorando-se uma à outra, ou pelo menos assim parece, no Christe Eleyson

Gloria in Excelsis deo. Dei com ela por acaso enquanto cantava, a voz diluída nas vozes das outras sopranos e entrelaçada nas outras vozes do coro. Tinha uma espécie de nobreza de carácter mas sem a altivez típica. Glória a deus nas alturas por tão formosa mulher - os meus olhos agora fixos nela - estava entre uma senhora mais velha, de cabelos brancos, e uma menina talvez adolescente, e era de uma beleza serena  et in terra pax , que ressuscitava quando cantava numa sensualidade de sombra de olhos e carmim de lábios restringida por tão santo local e ocasião.

Laudamos te, por um lado porque agora deste descanso a tão formosa criatura, no meio de tão corpulentas sopranos. A face em descanso sem a expressividade necessária para te louvar. Não te laudamos por outro, porque não gosto da segundo soprano principal. Porque é que essa carinha irritante de lábios fininhos e loiro pintado foi escolhida em vez da minha musa, enquanto a soprano principal, mais nova de aparência, sentada, hirta (estúpida), com cara de frete, fazem sempre cara de frete quando não é a vez delas cantar, de lábios engelhados a pensar; eu canto melhor que tu sua parva de cabelo loiro pintado e lábios fininhos com uma papada a crescer-te debaixo do queixo. 

Gratias agimus tibi porque as duas idiotas estão ambas sentadas, as duas com ares de frete, a entreolhar-se pelo canto do olho, eu sei o que pensas de mim, achas-te melhor passarinho que eu, pois sim. E eu meio enfadado, agradecendo a todos os santinhos por aquele anjo vestido de negro que me veio iluminar o serão de outro modo monótono. Eu aqui a ouvir missa. Mas ah, que caracóis aqueles, dois ou três libertos do resto do cabelo apanhado, em equilíbrio nos ombros finos de porcelana. Graças, graças por tão formosa figura. Por ela sacrificaria de bom grado a minha incredulidade. 

Domine Deus que agora temos dueto! Pronto, levantou-se o primeiro tenor de ar simpático que se interpõe entre as duas sopranos principais nos ensaios, aposto que assim: senhoras então? Respeitemos a música! Flauta transversal no fundo a dar uma atmosfera bucólica de naturezas mortas, vinhas e sol de Verão italiano. Lembra-me um famoso compositor de obras fáceis mais o seu bandolim amestrado. 

Qui tollis peccata mundi, afasta de mim estes pensamentos; como a queria beijar agora, saltar da cadeira, empurrar o maestro nervosinho, talvez uma biqueirada no primeiro violinista que se levantaria bruscamente a esfregar o traseiro escandalizado, e o tenor; senhores, então? Respeitemos a música! E ela sem saber o que a esperava, entreolhava a senhora mais velha e a menina adolescente, e quando menos esperasse pregava-lhe um beijo que a faria corar de surpresa, vergonha e prazer, tudo ao mesmo tempo; agarrar-lhe-ia na mão e rapta-la-ia num sorriso de sátiro entre surpreendido e o maroto e com requintes de “malvadez”. 

Qui sedes ad dexteram Patri. Eu não estou nada sentado à direita do meu pai, que nem é para aqui chamado. Ena, no programa diz contralto e eu estou a ver um contra-tenor magrinho a levantar-se do lado da segunda soprano e cantar com voz de senhora (falsete), falsete!? Cheio de mesuras e choradinhos quando as sopranos lhe gritam censuras com entoação de cristal quebrado durante os ensaios. 

 Quoniam tu solus sanctus. Um homem de voz de homem, não aquele loirinho de voz esganiçada; juro que se fechasse os olhos diria que era uma mulher a cantar. Corno da caccia obbligato. Bate certo, um corno de caça, um baixo barbudo com ar de corno, o corno tocado por uma gorda senhora de óculos, muito vermelha a tocar baixinho, aposto que casada com o corno, o de barbas, não o de voltas e revoltas de latão, ora pois. A minha santa, enquanto os cornudos se digladiavam apanhou o cabelo com uma mola, de tal modo que o cabelo lhe deixava entrever uns brincos negros brilhantes de obsidiana, e o pescoço, gloria in excelsis, agora sim, de mármores de Carrara que eu beijaria eternamente num arrepio infinito de pele-de-galinha.

Cum Sanctu Spiritu que glória divinal, aquela boca voltou a mexer-se, os seios trementes enquanto os ohohohoho’s do in Gloria Divinal são exalados em ritmo frenético, atirando-me para um transe ora suado ora acordado, incrédulo de tamanha capacidade torácica potenciada pela secção de metais, acicatados por sua vez pelo órgão distante mas presente, fazendo vibrar paredes e entranhas enquanto os arcos das cordas se movem para cima e para baixo e em diferentes ângulos, atirando-me ora para picos de cumes nuca antes escalados, ora para abismos secretos negados pelo decoro da solenidade.
Credo! Estou que nem posso, como se no meio de um delicioso pesadelo do qual por um lado não quero acordar, mas por outro me embaraça se não abrir os olhos e descobrir que afinal estou deitado em minha cama, ouvindo os ecos distantes de lás mixolidios de uma música ancestral tantas vezes ouvida, a ressoar dentro do cérebro como se de uma coceira mental se tratasse.

Patrem Omnipotentem factórem cæli et terræ, visibílium ómnium et invisibílium, que também fabricou esta deusa menor, de beleza inigualável, de caracóis suspensos, boca de carmim, seios vibrantes e coxas que se adivinham formosas e tenras. E criou-me a mim, criatura imerecedora de tal graça e formosura, viajante clandestino das fantasias profanas em território sacro. Oh alegria dos sentidos e infortúnio de vida! Estou tão Saturnal que nem posso!

Et in unum Dominum, que não cala estas duas agora, contralto com ar e voz de senhora madura, de cara redonda a contracenar com a hirta (estúpida) com carinhas de frete quando não está a cantar, a repetir qual macaco as deixas da contralto, como se a imitasse mas em voz mais nova e límpida, de lábios engelhados a pensar; eu canto melhor que tu sua parva. O meu anjo, tão solene, tão pura e meiga assim quieta, o corpo agora sossegado mas não saciado, mesmo depois de cavalgar ohohohs e ahahahahs. 

Et Incarnatus est. A sombria melodia toma forma de um andante majestoso, como um príncipe que se passeia de arminho e rubro por entre os corredores desta nave, de ceptro e orbe nas mãos e coroa na cabeça com a bela do coro ao lado; a minha nobre rainha, voz de cristal puro, mãos de veludo delicadas como filigrana, frágeis como porcelana fina. 

Crucifixus, assim me sinto eu no meio desta multidão que, por ora já se deu conta da minha agitação e inquietude, chamam Pilatos para me julgar por assédio forjado em pensamento à linda soprano, de negro vestido, caracóis em equilíbrio nos ombros finos de porcelana e lábios de cereja.

Et resurrexit Assim seria eu, príncipe do teu reino, da tua paixão feito homem, nasceria de novo por entre as tuas coxas de alabastro e ascenderia aos céus em glória aclamado por Euterpe, Melpomene e Polímnia. Oh quão venturoso seria. E de novo voltaria para julgar todos aqueles que duvidaram desse amor por um segundo que fosse.

Et in Spiritum o baixo agora canta, nos seus graves de baixo barbudo com ar de corno mas com voz melíflua, as virtudes da trindade e da igreja universal, e eu para aqui em inquietudes de vestidos negros e brincos de obsidiana, ombros de porcelana e mãos de filigrana, a tremer e a suar enquanto umas bochechas vermelhas sopram oboés.

Confiteor que sou fraco e facilmente excitável, mas perante uma beleza feminina como esta, de voz de anjo e olhos de sombras sensuais como que a chamar-me para o seu regaço, qual Ligeia a enfeitiçar Odisseu, no entanto preferia atirar-me mil vezes aos rochedos de Capri que tapar os ouvidos e ainda menos os olhos e ignorar esta Afrodite. Confesso-me mas não me arrependo. Não me receitem liturgias nem rosários, o meu pecado, a existir, só tem como cura aquela soprano de olhos de obsidiana, lábios de porcelana e seios de cristal.

Et expecto ressurgir desta mortandade em que me encontro para a vinda de um mundo futuro ao lado da minha princesa, com corais a cantar atrás de nós em procissão e orquestras monumentais a tocar missas cantadas e modinhas brasileiras.

Sanctus. Só um santo mesmo para aguentar esta tormenta, este sonho, pesadelo, este suor. Queria sair daqui mas não consigo, estou colado ao assento, agora sem me conseguir mexer. Este carnaval de vozes, instrumentos, o órgão, o maestro nervosinho, as duas sopranos sentadas, o contra-tenor de voz de falsete e mesuras, o corno do baixo todos em redor de mim com ar de troça, de escárnio como se fossem todos um Dominus Deus Sabaoth.

Hosanna in Exclesis por tão grande perfeição, de corpo, de voz, de rosto. Concebida por anjos, lavrada por mãos santas em útero da mais fina renda, amamentada por Afrodite com o mais fresco orvalho matinal, sedutora velada, Erato instrutora dos amantes, ensina-me a ser desejado por ti.
Benedictus por ter o privilégio, mesmo que à distância, de te poder contemplar minha deusa, minha nereida das águas calmas, minha

Agnus Dei só tu com o teu poder me libertas desta condição de indigno de ti e da voz mesureira deste contra-tenor magrinho e choradeiro, minha ovelha, formosa na forma e na aparência. Sucumbo ao poder da tua beleza, magnética e irresistível.

Dona Nobis Pacem. Chove lá fora.

 
© Alexandre Rodrigues 2012

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

O pó, esse mistério.



Hoje quero reflectir sobre o pó. Esse estranho e misterioso fenómeno ao qual tem sido dada interminável peleja pelo ser humano, armado de panos, aerossóis e ubíquos aspiradores, quais tanques de guerra nessa irritante tarefa de eliminar não uma raça, mas todo e qualquer rasto do dito fenómeno acumulativo em móveis, electrodomésticos e lâmpadas. Confesso aqui neste humilde e desajeitado repositório, uma das minhas secretas obsessões: o pó. Não que coleccione em frasquinhos amostras de diferentes casas, países ou outros artefactos onde este se acumula, mas porque sou daquelas pessoas às quais o pó, em excesso, lhe causa muita aflição visual, não na forma alérgica mas na puramente estética. 

No entanto tenho de prestar homenagem à minha mãe e à minha irmã por me terem mostrado como se limpa o pó como deve de ser, diga-se em abono da verdade sem grandes resultados práticos e duradouros da minha parte. Mas também ao povo suíço por me terem dado o privilégio de conhecer locais públicos sem pó. Nunca me lembro de ter passado por um aeroporto, e refiro-me ao de Genebra, onde se pode lamber o chão da casa de banho sem temor de apanhar uma qualquer onicomicose na unha, esporotricose, cromomicose ou outra micose profunda na língua e onde o pó é quase (porque ninguém é perfeito, nem mesmo os suíços) inexistente.

O pó é um fenómeno de tal modo difícil de compreender e ainda de mais explicar, que no universo da banda-desenhada (quadrinhos para os meus leitores brasileiros) e da animação, não me lembro de nenhum, nem mesmo do magistral Miasaki, onde o pó figurasse. Não me refiro pois às nuvens de pó causadas por veículos em andamento ou mesmo às cómicas explosões das quais o vilão é alvo, e de onde sai coberto de fuligem e com alguns dentes a menos mas prontamente recuperado e mais importante, vivo para poder a continuar os seus actos de vilanagem, como só nesse mundo é possível. Refiro-me sim às individuais partículas de pó que se acumulam nos móveis e outras superfícies mais ou menos planas. Esse pó, tormento das donas de casa, da decadência doméstica, e do desprezo que se aglomera em camadas diárias na solidão dos quartos, salas bibliotecas e museus. 

E no entanto viemos do pó. Não me refiro ao pó bíblico, imperfeito, terrestre, sujo e lamacento de onde o homem inventou a olaria e os mitos genésicos, mas sim ao pó primordial, cósmico e magistral, causa primeira do universo e infinitamente mais sublime que se recicla ilimitadamente quando galáxias, estrelas e outros corpos celestes colidem uns com os outros originando novas galáxias, estrelas, planetas e de vez em quando seres vivos e ainda mais raramente, seres inteligentes. Nós humanos somos o resultado desse pó reciclado e reciclável; já fomos galáxia, estrela e meteorito. Hoje somos humanos, no futuro longínquo seremos qualquer outra coisa até que a insuportável dispersão do momento inicial do universo pare e este colapse. 

Felizmente para a ciência o começo primeiro do pó não foi descoberto por astrofísicos portugueses (até porque raros). Isto porque se os nefandos estudiosos lusitanos tivessem usado do mesmo tipo de onomatopeia que os verdadeiros descobridores do fenómeno usaram na sua anglo-saxónica língua muito dada a onomatopaicas descrições, o fenómeno seria não mais que um escatológico som, resultado da vibração das nalgas de um qualquer deus: o Grande-Pum. Ainda bem que não fomos nós que descobrimos o tal de Big-Bang. Até porque não conseguiríamos viver com a vergonha e muito menos com a responsabilidade (coisa que não gostamos de arcar, de qualquer maneira). Nas línguas anglo-saxónicas a onomatopeia “bang” serve também de substantivo e descreve uma explosão: I've heard a loud bang. Em português a onomatopeia correspondente é “pum”. A pistola fez pum! E pum é também o nome dado à já descrita necessidade fisiológica de libertar gases intestinais. Decididamente teríamos de inventar outro nome mais digno, mesmo que menos criativo, por outro lado reduziria a grandiosidade e por vezes distanciada intelectualidade de tal fenómeno a um popularucho (e bem português) traque. 

Mas voltando ao pó, como vêm poder-se-á concluir que este negligenciado fenómeno natural é de suprema importância universal. Ele é transversal a todas as sociedades, culturas e religiões (com direito a fenómeno sobrenatural e tudo) e é inerente do próprio universo. Como tal daqui lhe presto esta singela e respeitosa homenagem. E como tenho imenso respeito por ti, pó, senhor do Universo, grande reciclador e reciclado, vencedor de todas as batalhas que à tua nobre pessoa estes abjectos humanos fazem, passarei a limpar-te menos vezes de cima da cómoda ou do móvel da televisão.

©Alexandre Rodrigues 2012

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Uma família de Pescadores - Soltar Amarras.


 Era uma família de pescadores, das últimas que ainda existiam na cidade de Setúbal nos anos oitenta do século vinte. Filhos e netos de pescadores e vendedores de peixe na praça, portanto gente da cidade com currículo e linhagem nas artes das redes e da venda de ictios e crustáceos. Uma família peculiar aquela, aos olhos dos forasteiros ou daqueles que, como eu nativo da mesma urbe de Elmano Sadino, vinham de  famílias de outras origens, também humildes mas diferentes.  


 A avó tinha uma “pedra” na praça e por defeito de profissão falava uns decibéis acima do desejado (Ah miga qué’zo quem diz lá!). Trazia pesados brincos de ouro pendendo nos furos já rasgados pelo peso da idade, em constante movimento cinético-vibratório, locomovidos pela acção do movimento maxilo-facial (erra o q’mai m' faltava agorra, nã querres nã comprres!). A senhora apesar das suas origens modestas tinha uma altivez orgulhosa de caracóis naturais e pele sobejamente enrugada, como uma fadista desgarrada a ajeitar o xaile (ê cá é que sei) e que nada deve à vida. O avô era um homem magríssimo, curvado que não comia (nã m’apetece nada), apenas bebia (um copite de vinhe tinte prra mim miga) e ninguém sabia bem porquê. Era pessoa de poucas falas mas quando se pronunciava apenas dizia redundâncias às quais ninguém retorquía mais pelo respeito à idade que pela limitada sabedoria. Mas gostava do mar, das artes da faina, e tinha uns olhos distantes e molhados quando estava em terra, como que enfeitiçados pelo vício da pesca, pela vida dura, pelas tempestades e pelas sereias, e por isso tinha uma cara triste e longa. As filhas, duas, distavam entre elas uma boa década em idade. A mais velha de andar rígido de artrite reumatóide, já tinha  atingido os quarenta e sem saber aproximava-se da viuvez precoce por causa de uns rins falidos e da hemodiálise que ainda não tinha chegado ao hospital (ai agorra o qué’que fasse sem o mê Márrio?) mas sempre com pujança nos pulmões para chamar os filhos que brincavam a mais de cem metros de casa (Aaaah Migueeeeeeel… andajápacasajantarrecutêpaijáchigouequerrcmerr!!!). A mais nova teria uns trinta anos, caixa num supermercado, um irritante sinal hirsuto por cima do canto da boca. Era casada com um soldador desempregado que gostava mais de adegas e sindicalismo de café que de trabalho e tinha as pernas inchadas e roxas por culpa de uma cirrose teimosa, mas mesmo assim ameaçava bater nos filhos se eles não portassem bem (amande-te uma papa desse f’cinhe se nã te pões dirrête vê lá!). E ainda havia um cunhado de voz esganiçada que tinha uma traineira verde chamada "Mula da Cooperativa" que já tinha levado por uma vez o andor na festa da Senhora do Rosário de Tróia, e fora expulso do cinema por se rir demasiado alto durante um filme cómico. Era a cara chapada do futuro falecido, apenas mais velho e seco pelo sal.


Iam todos aos fins-de-semana de Verão para Tróia num barco que não parava de crescer em tamanho à medida que a família se ia alargando. Nesse tempo acampavam entre a Caldeira e o cais dos Fuzileiros quando ainda era permitido fazê-lo mais por laxismo das autoridades que por falta de farisaica legislação. Chegavam com a maré-alta, arreavam a fateixa na areia e depois da barraca armada, no sentido literal e figurado, era vê-los já na maré baixa; as mulheres e as crianças a apanhar o mercurial berbigão no poluído Sado, os rapazes de camaroeiro nas mãos com água pelos joelhos, enquanto que os mais velhos desamarravam o bote a remos e de cana-de-pesca em riste tentavam a sorte com as tainhas, à época já a saber mais a gasóleo e a tinta dos estaleiros navais que a peixe fresco e "vivinho".


Depois haviam os netos, que já não queriam saber da pesca como modo de vida. Também não é de estranhar, de tanta prédica ouvirem sobre as dificuldades de ser pescador e de como o trabalho era mal-ganho e arriscado. E no entanto, todos pareciam ter a intensa certeza que estavam destinados ao mesmo futuro de pobreza dos seus pais e avós; uns na construção civil, outros como mecânicos e outros ainda atrás das grades sem muito que lhes valesse. Apenas iam disfarçando a amarga realidade com sonhos povoados de casas grandes, carros de luxo e muito futebol. 

 
©Alexandre Rodrigues 2012

sexta-feira, 20 de julho de 2012

A Alameda da Memória


Todos os dias desço a Alameda da Memoria. Antes de chegar ao fundo, viro à esquerda. À minha frente o Palácio Dourado onde Ela mora. Dourado metaforicamente falando, claro. O palácio é branco ou rosa sujo, às vezes é castanho claro, da cor dos seus cabelos, ou azul da cor do mar. Abro as largas portas de madeira com a chave do ressentimento, dou-lhe tantas voltas na fechadura como os anos que passaram e fecho a porta atrás de mim com um som de suspiro. Entro para uma vastíssima sala escura, apenas iluminada por uma janela circular por onde incidem raios de luz que iluminam um alto pedestal. No alto desse pedestal estão as minhas lembranças desse tempo, e está Ela também. Ou estava, nos tempos em que a Alameda se chamava Rua do Presente. Um tempo há muito passado (parece que foi ontem, disse-me ela quando me escreveu) quando a rua ainda era pequena e por asfaltar. Agora só estão as memórias e lembranças, algumas cobertas de pó, a maioria coberta de lágrimas. Só eu sei o quanto tentei fechar à chave, ostracizar, partir, demolir esse palácio, e sei também que não consigo deixar passar um dia que seja sem lá voltar.

Quando saio, volto a subir essa Alameda até ao cruzamento com a Estrada da Vida. A Estrada da Vida passa por todos os lugares por onde andei e por onde irei. Por vezes é estreita, lenta e esburacada; noutras é uma imensa Auto-Estrada larga mas monótona. Raras vezes é uma estrada normal, com uma paisagem bonita e curvas e contra-curvas, a montanha de um lado e o mar do outro. Essas só mesmo fora desse mundo que é o meu pensamento.

 

©Alexandre Rodrigues 2012

sexta-feira, 13 de julho de 2012

In Memoriam. Traduçao livre do funeral de Paddy Dignam do livro "Ulysses" de James Joyce




In Memoriam

Martin Cunningham primeiro bateu com a sua cabeça de chapéu de seda na carruagem rangente e, entrando habilmente, sentou-se. Mr Power entrou a seguir, curvando a sua altura com cuidado.
- Venha daí Simon.
-Você primeiro, disse Mr. Bloom.
Mr. Dedalus cobriu-se rapidamente e entrou, dizendo:
-Sim, sim.
-Estamos todos? Martin Cunningham perguntou. Venha daí Bloom.

Mr. Bloom entrou e sentou-se no único lugar livre. Puxou a porta atrás de si e bateu com ela até se fechar apertadamente. Passou o braço pela pega de cabedal e olhou seriamente através da janela da carruagem aberta para as cortinas baixas da avenida. Uma delas foi puxada para o lado: uma senhora idosa espreitando. De nariz escarrapachado na vidraça. Agradecendo às estrelas por ter sido preterida. Extraordinário o interesse das pessoas num cadáver. Contente por ver que nos dávamos a tanto trabalho. Foram feitos para este serviço. Segredos nas esquinas. Passando rapidamente pelas poças em chinelos com medo que ele acordasse. Depois aprontando-se. Colocando-se em posição. Molly e Mrs. Fleming a fazerem a cama. Puxa um pouco para o teu lado. A nossa mortalha. Nunca se sabe quem tocará no seu morto. Lavar e champô. Acredito que também lhes cortam as unhas e cortam o cabelo. Guardam uma mecha dentro de um envelope. Cresce na mesma depois. Um trabalho ingrato. 

Todos esperavam. Nada foi dito. Estavam a guardar as grinaldas, possivelmente. Estou sentado em cima de algo duro. Ah, pois, o sabão no meu bolso das calças. É melhor movê-lo daí. Espera pela oportunidade.
Todos esperavam. Depois ouviram-se à frente as rodas a girar: depois mais perto, os cascos dos cavalos. Um solavanco. A carruagem começou-se a mover, rangendo e balançando. Outros cascos e rodas rangentes avançaram atrás. As cortinas da avenida iam passando e o número nove com a sua aldraba suja, porta entreaberta. A paço. Eles esperaram ainda, movimentando os joelhos, até que viraram e iam passando ao longo da linha do eléctrico. Estrada de Tritonville. Mais rápido. As rodas chocalharam rolando por cima da calçada empedrada, e os vidros malucos sacudiram chocalhando nas suas molduras.

-Por onde é que ele nos leva? Perguntou Mr. Power através das duas janelas.
- Pela Irishtown, disse Martin Cunningham. Ringsend. Brunswick Street.
Mr Dedalus acenou afirmativamente, olhando para fora.
-É uma boa velha tradição, disse ele. Fico contente por ver que ainda não morreu.

Todos observaram por algum tempo através do buraco de suas janelas e os transeuntes levantavam os chapéus. Respeito. A carruagem desviou-se das linhas do eléctrico para se colocar na parte mais suave da estrada depois da Watery Lane. O sr. Bloom ao olhar reparou num jovem ágil, vestido de luto, chapéu largo.

-Vai ali um amigo seu, Dedalus, ele disse.
-Quem é?
-O seu filho e herdeiro.
-Onde está ele? Disse o Sr. Dedalus, estendendo-se a toda a largura. 

A carruagem, passando pelos esgotos a céu aberto e pelos montes que a estrada rasgou antes das casas de aluguer, cambaleou ao contornar a esquina e desviando-se de volta à linha do eléctrico, rolou ruidosamente as rodas tagarelantes. O Sr. Dedalus caiu para trás, dizendo:
- Esse mal-educado do Mulligan estava com ele? O seu fidus Achates?
- Não, disse Mr. Bloom. Ele ia sozinho.
- Ia para baixo com a sua tia Sally, suponho, disse o sr. Dedalus, a facção Goulding, Collis and Ward, o bêbado do caixa e Crissie, o monte de esterco do papá, a sábia criança que conhece o seu próprio pai.
O Sr. Bloom sorriu tristemente na estrada de Ringsend. Irmãos Wallace, a fábrica das garrafas. Ponte titubeante.

Richie Goulding e o saco de leis. Goulding, Collis e Ward, é como ele chama à firma de advogados. As suas piadas estão cada vez mais secas. Era um bom jogador de cartas. Valseando na Stamer Street com Ignacius Gallaher numa manhã de Domingo, os dois chapéus da senhoria agarrados à sua cabeça. Em alvoroço durante toda a noite. Já se começa a ressentir: aquela dor de cabeça dele, temo. A esposa a passar-lhe as costas a ferro. Acha que se cura com comprimidos. Tudo migalhas, é o que eles são. Cerca de seiscentos por cento de lucro. 

- Está com a escumalha, rosnou o Sr. Dedalus. Aquele Mulligan é um maldito rufião de olhar enganoso, sem dúvida alguma. O nome dele cheira mal à distância por toda a Dublin. Mas com a ajuda de Deus e Sua abençoada Mãe eu um dia entrego-me a escrever uma carta à mãe dele, ou tia ou lá o que ela é que lhe abrirá os olhos até ficarem esbugalhados. Acreditem-me vocês, eu desgraço-o. 

Ele gritou por cima do barulho das rodas.