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segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Esta Tourada Nacional

Estar à distância dos acontecimentos é por vezes um privilégio que nos permite alguma lucidez quando nos armamos da melhor informação possível e disponível para podermos entender algumas situações. Confesso que até hoje estava um pouco alheado da polémica das touradas em Portugal. Mas ao ver as imagens de um toureiro a cavalo a investir contra manifestantes anti-tourada deixou-me um pouco perplexo, mas devo dizer não surpreendido.


Não sendo eu um aficionado deste desporto (vamos chamar-lhe assim por ora) porque o acho brutal, antiquado e desadequado aos tempos em que vivemos, compreendo que haja quem o defenda, até porque quem o defende terá interesses económicos a defender, se mais nenhum argumento for aceitável (a tradição por exemplo). Outro argumento que já ouvi várias vezes é o de que se se acabarem as touradas, o touro bravo extingue-se porque não serve para mais nada hoje em dia senão para ser centro de um espectáculo antigo típico da Península Ibérica cujas origens se perdem nas brumas do tempo, e pouco mais. 

E também não sendo eu um militante dos direitos dos animais, mas defensor dos mesmos e que se tratem com dignidade e respeito, mesmo na morte, compreendo que os militantes anti-tourada se sintam indignados e chocados por ainda existir num suposto país desenvolvido (ou sempre nas suas margens inferiores pendendo ora para cá ora para lá). E como é esperado e saudável de um país que já vai tendo uma boa percentagem da população (não arrisco números) mais ou menos formada civicamente, relativamente viajada e quando quer bem informada, (estou a falar da minha geração a tal que era rasca, à rasca e agora perdida para o desemprego e para a emigração) vão nascendo e crescendo por aqui e por ali movimentos de indignação contra aquilo que se acha injusto, indigno e por vezes patético e bacoco numa tentativa, espero que bem intencionada, de nos tirar da lama em que nos encontramos.

No entanto, o meu país ainda à procura de si mesmo (incrível, ao fim de quase novecentos anos de existência), ainda não percebeu bem o que é democracia e acima de tudo o respeito pela opinião dos outros, mesmo quando esta é diametralmente oposta à nossa. E não posso deixar de censurar ambos os lados desta contenda pelas atitudes que têm tido em relação ao pólo oposto. E quando assim é passa-se da contenda para a comédia e em menos de nada para a tragédia. E perde-se a razão. Perdem a razão os “contra” porque atacam bens pessoais de quem vai assistir ao espectáculo. Perdem a razão “os prós” porque atacam de modo grosseiro e cobarde quem se manifesta (e sublinho) aparentemente de forma pacífica. Perdem a razão os do “contra” porque caiem no erro de baixarem o nível quando vão para as páginas das redes sociais dos “prós” ameaçarem de forma bastante feia e assustadora. Perdem a razão os “prós” quando usam da mesma táctica baixa, foleira e indigna de um país que se diz e quer civilizado.  

Algo que profundamente me indignou, mais do que o triste espectáculo foi a completa inacção das autoridades presentes, neste caso julgo que a GNR. Além da péssima imagem que esta suposta força da ordem dá de si mesma, dá uma péssima imagem do país cá fora (pois, porque estas coisas são vistas cá fora); um país de bandalheira, mole, acéfalo, sem crédito, sem lei. Actua quando não deve e alheia-se quando deve intervir. Será do presente clima de austeridade e descrédito das instituições de justiça? Será com medo de represálias dos “senhores cavaleiros”, quase sempre colados à política local e com “conhecimentos” nas hierarquias superiores das forças de segurança? Será pelas actuais (ou permanentes) condições de trabalho e remuneratórias hilariantes? Ou será isso tudo? 

Outra coisa que me indigna nas (des)organizações portuguesas é a facilidade com que se afirmam maiorias sem apresentar quaisquer números estatísticos, e menos ainda credíveis a defender que existe essa mesma maioria por detrás da organização e daquilo que ela defende. Basta ir às páginas de internet de ambos os movimentos (de escassa informação relevante, diga-se em abono da verdade) e verificar. E indigna-me mais porque as pessoas deviam ser mais exigentes com os números e no entanto passa-lhes ao lado, não querem saber ou não se importam e como resultado resmungam contra tudo e todos e não se manifestam quando o deveriam fazer e pelas razões certas. É por isso que Portugal tem um importante número (não arrisco valores) de intelectuais de paragem de autocarro. Será que alguém já se preocupou em saber ou divulgar quantos aficionados existem? Terão mesmo algum impacto social ou económico? E se realmente forem a maioria e tiverem a sociedade a apoiá-los? Como ficam os que são contra? Desistem ou tentam informar e educar a sociedade de modo a ser mais sensível aos direitos dos animais? Ou vão continuar a gritar slogans de intervenção saídos dos anos setenta e completamente desfasados da realidade e necessidades informativas actuais? 

Se realmente querem fazer ver os vossos pontos de vista, sentem-se à mesa (e não num estúdio de televisão) com um mediador neutro(e não um qualquer apresentador de TV ou jornalista semi-encartado) e discutam o problema a sério. Convidem os meios de comunicação a estar presentes (e não a serem o veículo). Se não se chega a um acordo civilizado (e suspeito que não) referende-se, leve-se ao parlamento, usem-se os meios institucionais e legais se existirem. E legisle-se de uma vez por todas. 

Mas infelizmente como tudo em Portugal, vai ficar metade por fazer, o que se fizer vai sair coxo e desorganizado, vão gritar uns com os outros para a televisão durante uma hora e meia contando com os intervalos a bem do sucesso comercial do canal que os acolhe e para gáudio das audiências boçais que perdem tempo a assistir. E para piorar a situação, agora os pagadores de impostos (aqueles que deveriam ter voz nos destinos do país) nem vão poder exigir que o debate televisivo seja feito no canal público de televisão (que por razões que a razão desconhece também tem/tinha intervalos comerciais). 


Estar à distância dos acontecimentos é mesmo um privilégio que nos permite alguma lucidez. 



©Alexandre Rodrigues 2012

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Carta de um Fernando a uma Eunice


Querida Eunice,

Aquilo que irás ler é uma carta cheia de clichés e frases feitas, algo que usamos frequentemente na nossa relação, no entanto não encontro outro modo de descrever o que sinto, e quando a leres já terei partido. 

Hoje é o meu quadragésimo aniversário e acordei descobrindo que esta não é a vida que quero para mim. Chama-lhe crise de identidade, crise de meia-idade, até podes chamar-lhe cobardia e desistência que eu não me importo. Sei sim que fechado no nosso mundo de rotinas sete dias por semana, filhos, empregos medíocres, famílias poucochinhas e sei lá que mais, sinto-me a morrer. A morrer física e mentalmente, devagar mas implacavelmente. Não fui feito para isto. Perguntar-te-às, então porque só agora me dizes? Porque só agora tomei coragem, porque só agora não aguento mais, porque só agora. Para ti talvez seja suficiente, a segurança de um lar e de uma família, casa, comida na mesa e a educação dos filhos. Afinal não é o que a maioria das pessoas ambiciona? Eu, infelizmente ou felizmente, já não sei, não sou como a maioria das pessoas. Eu tenho de continuar a abrir horizontes, quero ver o mundo, mau e bom, as pessoas, conversar com elas, saber o que fazem e porque fazem. Quero descobrir outros corpos, outras vidas, dar grandes cabeçadas, arriscar, aventurar-me, perder-me para me poder achar. 

Descobri, tarde de mais dirás tu, que não tenho feitio, cabeça, pachorra, habilidade ou vontade de estar amarrado a rotinas de casa-trabalho, trabalho-casa, visitar-a-familia-poucochinha, mudar-a-fralda-à-miuda, dar-de-comer-ao-rapaz-que-tem-de-ir-para-a-escola, fazer-amor-aos-fins-de-semana-quando-há-tempo-para-isso-e-não-estamos-ambos-a-cair-de-cansados-por-causa-da-rotinazinha-diária, as comidinhas, os bolinhos, as bebidinhas, os almoços-e-jantares onde as pessoas só vomitam trivialidades. Isso para mim é tudo uma prisão. E nem é dourada, é cinzenta-chumbo, é tão certa como o dia ter vinte e quatro horas. Porque é que o dia tem vinte e quatro horas, porque é que as horas estão divididas em sessenta minutos, e os minutos em sessenta segundos? Não quero ter horários, nem dias de vinte e quatro horas. Quero dias de dezasseis, outros de trinta. Só assim saberei apreciar a vida e o que ela tem de bom e mau para dar. Quero poder amar durante dias de quarenta e oito horas, viajar em dias de dez, e chegar a um destino ao pôr-do-sol sobre um mar laranja em dias de duas horas. E acordar numa montanha tão alta, ao fim de minutos de sonhos, que consiga ver o mundo inteiro tal como ele é, não como querem que eu o veja.
Desculpa se achares que perdeste todos estes anos de vida comigo. Eu da minha parte aprendi muito, e agradeço-te o tempo que passaste comigo, o amor que certamente me deste, os lindos filhos que tivemos (eu avisei-te quanto aos clichés). Mas eu não sabia. Ou melhor, sabia mas neguei-o a mim próprio. Quis pensar que assim, de vidinha estável é que era bem, um emprego serviçal mas regular, apanhar o comboio todos os dias para ir trabalhar, voltar a casa e beijar a esposa e os filhos rechonchudos, visitar os pais avós primos tios ao fim-de-semana, era o que todos à minha volta esperavam; era o que tu esperavas, a família, os amigos, o senhor Antunes da repartição de onde me despedi hoje mesmo, a D. Antónia da mercearia onde todos os sábados íamos comprar fruta (lá está, a rotina), e até o padre que nos casou. Eu sei que te vai doer, me vai doer, vai doer aos miúdos. Mas era isto ou a loucura, o inferno. Não essa, mas outra tristeza. Porquê só agora? Não sei, porque só agora senti coragem, só agora o copo entornou, só agora a vida que levo deixou de fazer sentido. Era isso ou a loucura, ou o suicídio, ou, ou…

Portanto… não há maneira de dizer isto de outra maneira, que não soe lamechas ou pirosa, quero que saibas que apesar de tudo podes contar comigo, os miúdos podem contar comigo, não sei se financeiramente, nem sei se em pessoa, afinal os meus dias irão ter horas diferentes dos vossos, o meu tempo e o meu espaço serão diferentes dos vossos. Uma coisa é certa, partirei como os nossos antepassados pré-históricos partiram; sem a certeza de voltar do outro lado da montanha. Houve quem afirmasse que do lado de lá a erva é sempre mais verde, e as estrelas brilham melhor nos arquipélagos do sul.
Não quero que me odeies. Se me odiares, paciência. Não poderei fazer nada quanto a isso, mas preferia que ficássemos assim. Assim? Assim. Como estaríamos agora se eu no dia do meu quadragésimo aniversário, decidisse ficar em casa, esperar que tu viesses com a rotineira prendinha, acompanhada dos miúdos, fossemos talvez almoçar ou jantar fora como fazemos todos os anos, e eu infeliz, e tu infeliz, cansados, saudosos do tempo em que nos amámos de verdade, eu em busca da aventura do teu corpo, tu em busca de segurança no meu peito, e os miúdos pensando que éramos felizes. 

Um abraço grande,

Fernando.


 © Alexandre Rodrigues 2012

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Missa em Si menor.




Kyrie Eleyson, Christe Eleyson. Senhor tem misericórdia de mim, pobre pecador que aqui vou relatar a minha fraqueza carnal, durante a missa à tua pessoa, quando do coral de negro vestido, aquela formosa mulher sobressaiu e eu vil mortal, da penumbra da minha cadeira a contemplei durante todo o serviço. Kyrie Eleyson, tu que és denunciador, carcereiro juiz e carrasco da tua própria lei, tem misericórdia de mim, pelo menos enquanto as sopranos principais se esgrimem em boquinhas irritantes ignorando-se uma à outra, ou pelo menos assim parece, no Christe Eleyson

Gloria in Excelsis deo. Dei com ela por acaso enquanto cantava, a voz diluída nas vozes das outras sopranos e entrelaçada nas outras vozes do coro. Tinha uma espécie de nobreza de carácter mas sem a altivez típica. Glória a deus nas alturas por tão formosa mulher - os meus olhos agora fixos nela - estava entre uma senhora mais velha, de cabelos brancos, e uma menina talvez adolescente, e era de uma beleza serena  et in terra pax , que ressuscitava quando cantava numa sensualidade de sombra de olhos e carmim de lábios restringida por tão santo local e ocasião.

Laudamos te, por um lado porque agora deste descanso a tão formosa criatura, no meio de tão corpulentas sopranos. A face em descanso sem a expressividade necessária para te louvar. Não te laudamos por outro, porque não gosto da segundo soprano principal. Porque é que essa carinha irritante de lábios fininhos e loiro pintado foi escolhida em vez da minha musa, enquanto a soprano principal, mais nova de aparência, sentada, hirta (estúpida), com cara de frete, fazem sempre cara de frete quando não é a vez delas cantar, de lábios engelhados a pensar; eu canto melhor que tu sua parva de cabelo loiro pintado e lábios fininhos com uma papada a crescer-te debaixo do queixo. 

Gratias agimus tibi porque as duas idiotas estão ambas sentadas, as duas com ares de frete, a entreolhar-se pelo canto do olho, eu sei o que pensas de mim, achas-te melhor passarinho que eu, pois sim. E eu meio enfadado, agradecendo a todos os santinhos por aquele anjo vestido de negro que me veio iluminar o serão de outro modo monótono. Eu aqui a ouvir missa. Mas ah, que caracóis aqueles, dois ou três libertos do resto do cabelo apanhado, em equilíbrio nos ombros finos de porcelana. Graças, graças por tão formosa figura. Por ela sacrificaria de bom grado a minha incredulidade. 

Domine Deus que agora temos dueto! Pronto, levantou-se o primeiro tenor de ar simpático que se interpõe entre as duas sopranos principais nos ensaios, aposto que assim: senhoras então? Respeitemos a música! Flauta transversal no fundo a dar uma atmosfera bucólica de naturezas mortas, vinhas e sol de Verão italiano. Lembra-me um famoso compositor de obras fáceis mais o seu bandolim amestrado. 

Qui tollis peccata mundi, afasta de mim estes pensamentos; como a queria beijar agora, saltar da cadeira, empurrar o maestro nervosinho, talvez uma biqueirada no primeiro violinista que se levantaria bruscamente a esfregar o traseiro escandalizado, e o tenor; senhores, então? Respeitemos a música! E ela sem saber o que a esperava, entreolhava a senhora mais velha e a menina adolescente, e quando menos esperasse pregava-lhe um beijo que a faria corar de surpresa, vergonha e prazer, tudo ao mesmo tempo; agarrar-lhe-ia na mão e rapta-la-ia num sorriso de sátiro entre surpreendido e o maroto e com requintes de “malvadez”. 

Qui sedes ad dexteram Patri. Eu não estou nada sentado à direita do meu pai, que nem é para aqui chamado. Ena, no programa diz contralto e eu estou a ver um contra-tenor magrinho a levantar-se do lado da segunda soprano e cantar com voz de senhora (falsete), falsete!? Cheio de mesuras e choradinhos quando as sopranos lhe gritam censuras com entoação de cristal quebrado durante os ensaios. 

 Quoniam tu solus sanctus. Um homem de voz de homem, não aquele loirinho de voz esganiçada; juro que se fechasse os olhos diria que era uma mulher a cantar. Corno da caccia obbligato. Bate certo, um corno de caça, um baixo barbudo com ar de corno, o corno tocado por uma gorda senhora de óculos, muito vermelha a tocar baixinho, aposto que casada com o corno, o de barbas, não o de voltas e revoltas de latão, ora pois. A minha santa, enquanto os cornudos se digladiavam apanhou o cabelo com uma mola, de tal modo que o cabelo lhe deixava entrever uns brincos negros brilhantes de obsidiana, e o pescoço, gloria in excelsis, agora sim, de mármores de Carrara que eu beijaria eternamente num arrepio infinito de pele-de-galinha.

Cum Sanctu Spiritu que glória divinal, aquela boca voltou a mexer-se, os seios trementes enquanto os ohohohoho’s do in Gloria Divinal são exalados em ritmo frenético, atirando-me para um transe ora suado ora acordado, incrédulo de tamanha capacidade torácica potenciada pela secção de metais, acicatados por sua vez pelo órgão distante mas presente, fazendo vibrar paredes e entranhas enquanto os arcos das cordas se movem para cima e para baixo e em diferentes ângulos, atirando-me ora para picos de cumes nuca antes escalados, ora para abismos secretos negados pelo decoro da solenidade.
Credo! Estou que nem posso, como se no meio de um delicioso pesadelo do qual por um lado não quero acordar, mas por outro me embaraça se não abrir os olhos e descobrir que afinal estou deitado em minha cama, ouvindo os ecos distantes de lás mixolidios de uma música ancestral tantas vezes ouvida, a ressoar dentro do cérebro como se de uma coceira mental se tratasse.

Patrem Omnipotentem factórem cæli et terræ, visibílium ómnium et invisibílium, que também fabricou esta deusa menor, de beleza inigualável, de caracóis suspensos, boca de carmim, seios vibrantes e coxas que se adivinham formosas e tenras. E criou-me a mim, criatura imerecedora de tal graça e formosura, viajante clandestino das fantasias profanas em território sacro. Oh alegria dos sentidos e infortúnio de vida! Estou tão Saturnal que nem posso!

Et in unum Dominum, que não cala estas duas agora, contralto com ar e voz de senhora madura, de cara redonda a contracenar com a hirta (estúpida) com carinhas de frete quando não está a cantar, a repetir qual macaco as deixas da contralto, como se a imitasse mas em voz mais nova e límpida, de lábios engelhados a pensar; eu canto melhor que tu sua parva. O meu anjo, tão solene, tão pura e meiga assim quieta, o corpo agora sossegado mas não saciado, mesmo depois de cavalgar ohohohs e ahahahahs. 

Et Incarnatus est. A sombria melodia toma forma de um andante majestoso, como um príncipe que se passeia de arminho e rubro por entre os corredores desta nave, de ceptro e orbe nas mãos e coroa na cabeça com a bela do coro ao lado; a minha nobre rainha, voz de cristal puro, mãos de veludo delicadas como filigrana, frágeis como porcelana fina. 

Crucifixus, assim me sinto eu no meio desta multidão que, por ora já se deu conta da minha agitação e inquietude, chamam Pilatos para me julgar por assédio forjado em pensamento à linda soprano, de negro vestido, caracóis em equilíbrio nos ombros finos de porcelana e lábios de cereja.

Et resurrexit Assim seria eu, príncipe do teu reino, da tua paixão feito homem, nasceria de novo por entre as tuas coxas de alabastro e ascenderia aos céus em glória aclamado por Euterpe, Melpomene e Polímnia. Oh quão venturoso seria. E de novo voltaria para julgar todos aqueles que duvidaram desse amor por um segundo que fosse.

Et in Spiritum o baixo agora canta, nos seus graves de baixo barbudo com ar de corno mas com voz melíflua, as virtudes da trindade e da igreja universal, e eu para aqui em inquietudes de vestidos negros e brincos de obsidiana, ombros de porcelana e mãos de filigrana, a tremer e a suar enquanto umas bochechas vermelhas sopram oboés.

Confiteor que sou fraco e facilmente excitável, mas perante uma beleza feminina como esta, de voz de anjo e olhos de sombras sensuais como que a chamar-me para o seu regaço, qual Ligeia a enfeitiçar Odisseu, no entanto preferia atirar-me mil vezes aos rochedos de Capri que tapar os ouvidos e ainda menos os olhos e ignorar esta Afrodite. Confesso-me mas não me arrependo. Não me receitem liturgias nem rosários, o meu pecado, a existir, só tem como cura aquela soprano de olhos de obsidiana, lábios de porcelana e seios de cristal.

Et expecto ressurgir desta mortandade em que me encontro para a vinda de um mundo futuro ao lado da minha princesa, com corais a cantar atrás de nós em procissão e orquestras monumentais a tocar missas cantadas e modinhas brasileiras.

Sanctus. Só um santo mesmo para aguentar esta tormenta, este sonho, pesadelo, este suor. Queria sair daqui mas não consigo, estou colado ao assento, agora sem me conseguir mexer. Este carnaval de vozes, instrumentos, o órgão, o maestro nervosinho, as duas sopranos sentadas, o contra-tenor de voz de falsete e mesuras, o corno do baixo todos em redor de mim com ar de troça, de escárnio como se fossem todos um Dominus Deus Sabaoth.

Hosanna in Exclesis por tão grande perfeição, de corpo, de voz, de rosto. Concebida por anjos, lavrada por mãos santas em útero da mais fina renda, amamentada por Afrodite com o mais fresco orvalho matinal, sedutora velada, Erato instrutora dos amantes, ensina-me a ser desejado por ti.
Benedictus por ter o privilégio, mesmo que à distância, de te poder contemplar minha deusa, minha nereida das águas calmas, minha

Agnus Dei só tu com o teu poder me libertas desta condição de indigno de ti e da voz mesureira deste contra-tenor magrinho e choradeiro, minha ovelha, formosa na forma e na aparência. Sucumbo ao poder da tua beleza, magnética e irresistível.

Dona Nobis Pacem. Chove lá fora.

 
© Alexandre Rodrigues 2012