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domingo, 9 de setembro de 2012

Portugal: Brevemente Apenas Uma Ideia.

É atribuída ao pretor romano na Hispânia, Sérvio Sulpício Galba a famosa frase: “Há nos confins da Hispânia um povo muito estranho que não se governa nem se deixa governar”, referindo-se este às tribos celtas que habitavam a região da Lusitânia, hoje mais ou menos correspondente ao território de Portugal.


Portugal tem, mais ou menos ao longo dos seus quase novecentos anos como nação, sobrevivido aos grandes cataclismos naturais e humanos que se têm abatido sobre si. Esta crise é mais um desses acontecimentos que vai deixar marcas profundas no país, desde sempre ingovernável por parte das suas gentes; rebeldes, teimosas, desconfiadas, ignorantes e irremediavelmente egocêntricas, mas mansas e submissas em relação aos poderes que os governam. Mas menos-mal seria se quem governa esse estranho povo fosse de nobre carácter, honesto, trabalhador, altruísta e corajoso. Seria como ter uma elite ao estilo visigodo (estrangeira) a governar os súbditos (espécie de amalgama pós-romano-celta). Mas os governantes desse raro país são para bem ou para o mal, gentes como o resto da gente que é governada (ou finge que o é). Quando se junta um grupo assim onde o egocêntrico é palavra-chave dissimulada, é pois de esperar que as coisas não corram muito bem, e se vá sobrevivendo, uns fingindo que governam e os outros fingindo que são governados, e sempre resmungando. Esse sim é o segredo da sobrevivência desse bizarro país atlântico que provavelmente de um ponto de vista lógico e racional nunca deveria ter existido.

Portugal faz pois cada vez mais sentido como uma ideia. Uma ideia bonita de um povo mais ou menos místico (ou surpreendido pelo misticismo, ou ainda em alguns casos achando-se bafejado de povo escolhido pelo divino como o que teve origem lá para os lados da Palestina), que vive para lá das mesetas espanholas, num cantinho mais ou menos remoto da Europa, um povo misterioso e semi-primitivo que ainda cultiva tradições antiquíssimas entalado entre o passado e o futuro sem nunca perceber o presente. Infelizmente as ideias e a boa intenção nos dias que correm não alimentam bocas, não geram riqueza nem bem-estar e muito menos a paz social. Por isso esse país continua a sangrar gente capaz para a emigração.

Daí que até se perceber que o país não está só nesta crise que teima em permanecer, que quando se dividem recursos naturais por cinco em vez de dois, se fica com porções mais pequenas vai um passo. E que quando se é um povo (mal) remediado em tempos de vacas gordas, ao chegarem as vacas magras (que por acaso vieram para ficar, embora uns não o digam e os outros não o querem ouvir) se vai ficar mesmo muito mal. Ou melhor dizendo, vai-se chegar ao nível de vida real, não o ilusório dos luxos endividados. Já afirmei (aqui) que o Ocidente vai empobrecer irremediavelmente, provavelmente para os níveis do princípio do século XX na pior das hipóteses. Tendo em conta os poucos recursos naturais de Portugal este por sua vez irá regredir para os níveis de vida dos tempos do Estado Novo ou pior, níveis esses infelizmente mais realistas (e nesse tempo ainda havia um Império para nivelar a balança comercial). Isto se a Europa não voltar a estourar numa (mais uma de muitas) guerra fratricida da qual, desta vez, não poderemos escapar. Outro factor a considerar é o envelhecimento irremediável da população nacional e consequente declínio dos números de pagadores de impostos. Ora se temos menos gente a pagar impostos, os poucos que ficam terão ou de pagar mais impostos para manter o mesmo nível de serviços sociais ou estes terão de se drasticamente reduzidos ou mesmo eliminados, aumentando ainda mais a pobreza, a miséria e a insalubridade.

O Japão (país praticamente sem recursos naturais) quando se viu confrontado com um problema semelhante em duas alturas da sua história (a modernização do séc. XIX e a reconstrução do pós-guerra) recorreu da inteligência das suas gentes, da abnegação, sacrifício e imensa capacidade de trabalho e muito importante, disciplina para da primeira vez modernizar em menos de trinta anos o país medieval em que viviam e da segunda, levantar o país da ruína em menos de trinta anos por se ter entusiasmado demais com essa mesma modernização.

Não irei aqui perder tempo a descrever o que Portugal fez nos vinte anos da I Républica quando teve uma oportunidade única de se modernizar transversalmente, nem o que fez nos vinte e cinco anos de Comunidade Europeia quando a segunda oportunidade de modernização transversal foi dada de bandeja e a fundo perdido. Foram apenas os políticos que falharam? Lembro mais uma vez, temendo ser por demais repetitivo que esses políticos eram e são portugueses como os demais e não de uma espécie de elite visigótica.

Quando o primeiro-ministro de um país, esse mesmo dos confins da Hispânia, se vê obrigado a aumentar em mais de sessenta por cento a contribuição para a Segurança Social das gentes rebeldes, teimosas, desconfiadas, ignorantes e irremediavelmente egocêntricas, mas mansas e submissas em relação aos poderes que os governam, é porque se apercebeu de duas coisas: a primeira é que não há dinheiro (absolutamente nenhum) para manter o estado social tal qual o conhecemos, e assim arrecada o imposto do elo mais fraco dessa cadeia ingovernável. A segunda é porque tem medo, muito medo de quem tem o poder, essa gente rebelde, teimosa, desconfiada, ignorante e irremediavelmente egocêntrica, tal como ele, mas autoritária em relação aos poderes que governam.

Portugal, se não começar a usar de inteligência, altruísmo e abnegação irá a médio prazo tornar-se num país de velhinhos miseráveis e maltrapilhos governados por velhinhos maltrapilhos mas menos miseráveis financeiramente e deixará de existir para ser apenas uma ideia na cabeça dos seus descendentes espalhados pelo mundo fora.

Daí que ameaçar com datas (e se calhar horas) para manifestações, continuar a permitir que este regime exista tal como está, continuar a ser deferente a títulos e a nomes é uma prova de que essas gentes rebeldes, teimosas, desconfiadas, ignorantes e irremediavelmente egocêntricas, mas mansas e submissas em relação aos poderes que os governam continuam a dar razão a Sérvio Sulpício Galba, um tiranete que quando foi chamado a Roma para ser julgado pelo massacre cobarde dos Lusitanos que juraram fidelidade ao Império Romano, subornou os juízes e apresentou-se com a família perante o tribunal, como um homem recto e de família, apenas para ser ilibado do crime que cometeu.



© Alexandre Rodrigues 2012
 

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Esta Tourada Nacional

Estar à distância dos acontecimentos é por vezes um privilégio que nos permite alguma lucidez quando nos armamos da melhor informação possível e disponível para podermos entender algumas situações. Confesso que até hoje estava um pouco alheado da polémica das touradas em Portugal. Mas ao ver as imagens de um toureiro a cavalo a investir contra manifestantes anti-tourada deixou-me um pouco perplexo, mas devo dizer não surpreendido.


Não sendo eu um aficionado deste desporto (vamos chamar-lhe assim por ora) porque o acho brutal, antiquado e desadequado aos tempos em que vivemos, compreendo que haja quem o defenda, até porque quem o defende terá interesses económicos a defender, se mais nenhum argumento for aceitável (a tradição por exemplo). Outro argumento que já ouvi várias vezes é o de que se se acabarem as touradas, o touro bravo extingue-se porque não serve para mais nada hoje em dia senão para ser centro de um espectáculo antigo típico da Península Ibérica cujas origens se perdem nas brumas do tempo, e pouco mais. 

E também não sendo eu um militante dos direitos dos animais, mas defensor dos mesmos e que se tratem com dignidade e respeito, mesmo na morte, compreendo que os militantes anti-tourada se sintam indignados e chocados por ainda existir num suposto país desenvolvido (ou sempre nas suas margens inferiores pendendo ora para cá ora para lá). E como é esperado e saudável de um país que já vai tendo uma boa percentagem da população (não arrisco números) mais ou menos formada civicamente, relativamente viajada e quando quer bem informada, (estou a falar da minha geração a tal que era rasca, à rasca e agora perdida para o desemprego e para a emigração) vão nascendo e crescendo por aqui e por ali movimentos de indignação contra aquilo que se acha injusto, indigno e por vezes patético e bacoco numa tentativa, espero que bem intencionada, de nos tirar da lama em que nos encontramos.

No entanto, o meu país ainda à procura de si mesmo (incrível, ao fim de quase novecentos anos de existência), ainda não percebeu bem o que é democracia e acima de tudo o respeito pela opinião dos outros, mesmo quando esta é diametralmente oposta à nossa. E não posso deixar de censurar ambos os lados desta contenda pelas atitudes que têm tido em relação ao pólo oposto. E quando assim é passa-se da contenda para a comédia e em menos de nada para a tragédia. E perde-se a razão. Perdem a razão os “contra” porque atacam bens pessoais de quem vai assistir ao espectáculo. Perdem a razão “os prós” porque atacam de modo grosseiro e cobarde quem se manifesta (e sublinho) aparentemente de forma pacífica. Perdem a razão os do “contra” porque caiem no erro de baixarem o nível quando vão para as páginas das redes sociais dos “prós” ameaçarem de forma bastante feia e assustadora. Perdem a razão os “prós” quando usam da mesma táctica baixa, foleira e indigna de um país que se diz e quer civilizado.  

Algo que profundamente me indignou, mais do que o triste espectáculo foi a completa inacção das autoridades presentes, neste caso julgo que a GNR. Além da péssima imagem que esta suposta força da ordem dá de si mesma, dá uma péssima imagem do país cá fora (pois, porque estas coisas são vistas cá fora); um país de bandalheira, mole, acéfalo, sem crédito, sem lei. Actua quando não deve e alheia-se quando deve intervir. Será do presente clima de austeridade e descrédito das instituições de justiça? Será com medo de represálias dos “senhores cavaleiros”, quase sempre colados à política local e com “conhecimentos” nas hierarquias superiores das forças de segurança? Será pelas actuais (ou permanentes) condições de trabalho e remuneratórias hilariantes? Ou será isso tudo? 

Outra coisa que me indigna nas (des)organizações portuguesas é a facilidade com que se afirmam maiorias sem apresentar quaisquer números estatísticos, e menos ainda credíveis a defender que existe essa mesma maioria por detrás da organização e daquilo que ela defende. Basta ir às páginas de internet de ambos os movimentos (de escassa informação relevante, diga-se em abono da verdade) e verificar. E indigna-me mais porque as pessoas deviam ser mais exigentes com os números e no entanto passa-lhes ao lado, não querem saber ou não se importam e como resultado resmungam contra tudo e todos e não se manifestam quando o deveriam fazer e pelas razões certas. É por isso que Portugal tem um importante número (não arrisco valores) de intelectuais de paragem de autocarro. Será que alguém já se preocupou em saber ou divulgar quantos aficionados existem? Terão mesmo algum impacto social ou económico? E se realmente forem a maioria e tiverem a sociedade a apoiá-los? Como ficam os que são contra? Desistem ou tentam informar e educar a sociedade de modo a ser mais sensível aos direitos dos animais? Ou vão continuar a gritar slogans de intervenção saídos dos anos setenta e completamente desfasados da realidade e necessidades informativas actuais? 

Se realmente querem fazer ver os vossos pontos de vista, sentem-se à mesa (e não num estúdio de televisão) com um mediador neutro(e não um qualquer apresentador de TV ou jornalista semi-encartado) e discutam o problema a sério. Convidem os meios de comunicação a estar presentes (e não a serem o veículo). Se não se chega a um acordo civilizado (e suspeito que não) referende-se, leve-se ao parlamento, usem-se os meios institucionais e legais se existirem. E legisle-se de uma vez por todas. 

Mas infelizmente como tudo em Portugal, vai ficar metade por fazer, o que se fizer vai sair coxo e desorganizado, vão gritar uns com os outros para a televisão durante uma hora e meia contando com os intervalos a bem do sucesso comercial do canal que os acolhe e para gáudio das audiências boçais que perdem tempo a assistir. E para piorar a situação, agora os pagadores de impostos (aqueles que deveriam ter voz nos destinos do país) nem vão poder exigir que o debate televisivo seja feito no canal público de televisão (que por razões que a razão desconhece também tem/tinha intervalos comerciais). 


Estar à distância dos acontecimentos é mesmo um privilégio que nos permite alguma lucidez. 



©Alexandre Rodrigues 2012

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Carta de um Fernando a uma Eunice


Querida Eunice,

Aquilo que irás ler é uma carta cheia de clichés e frases feitas, algo que usamos frequentemente na nossa relação, no entanto não encontro outro modo de descrever o que sinto, e quando a leres já terei partido. 

Hoje é o meu quadragésimo aniversário e acordei descobrindo que esta não é a vida que quero para mim. Chama-lhe crise de identidade, crise de meia-idade, até podes chamar-lhe cobardia e desistência que eu não me importo. Sei sim que fechado no nosso mundo de rotinas sete dias por semana, filhos, empregos medíocres, famílias poucochinhas e sei lá que mais, sinto-me a morrer. A morrer física e mentalmente, devagar mas implacavelmente. Não fui feito para isto. Perguntar-te-às, então porque só agora me dizes? Porque só agora tomei coragem, porque só agora não aguento mais, porque só agora. Para ti talvez seja suficiente, a segurança de um lar e de uma família, casa, comida na mesa e a educação dos filhos. Afinal não é o que a maioria das pessoas ambiciona? Eu, infelizmente ou felizmente, já não sei, não sou como a maioria das pessoas. Eu tenho de continuar a abrir horizontes, quero ver o mundo, mau e bom, as pessoas, conversar com elas, saber o que fazem e porque fazem. Quero descobrir outros corpos, outras vidas, dar grandes cabeçadas, arriscar, aventurar-me, perder-me para me poder achar. 

Descobri, tarde de mais dirás tu, que não tenho feitio, cabeça, pachorra, habilidade ou vontade de estar amarrado a rotinas de casa-trabalho, trabalho-casa, visitar-a-familia-poucochinha, mudar-a-fralda-à-miuda, dar-de-comer-ao-rapaz-que-tem-de-ir-para-a-escola, fazer-amor-aos-fins-de-semana-quando-há-tempo-para-isso-e-não-estamos-ambos-a-cair-de-cansados-por-causa-da-rotinazinha-diária, as comidinhas, os bolinhos, as bebidinhas, os almoços-e-jantares onde as pessoas só vomitam trivialidades. Isso para mim é tudo uma prisão. E nem é dourada, é cinzenta-chumbo, é tão certa como o dia ter vinte e quatro horas. Porque é que o dia tem vinte e quatro horas, porque é que as horas estão divididas em sessenta minutos, e os minutos em sessenta segundos? Não quero ter horários, nem dias de vinte e quatro horas. Quero dias de dezasseis, outros de trinta. Só assim saberei apreciar a vida e o que ela tem de bom e mau para dar. Quero poder amar durante dias de quarenta e oito horas, viajar em dias de dez, e chegar a um destino ao pôr-do-sol sobre um mar laranja em dias de duas horas. E acordar numa montanha tão alta, ao fim de minutos de sonhos, que consiga ver o mundo inteiro tal como ele é, não como querem que eu o veja.
Desculpa se achares que perdeste todos estes anos de vida comigo. Eu da minha parte aprendi muito, e agradeço-te o tempo que passaste comigo, o amor que certamente me deste, os lindos filhos que tivemos (eu avisei-te quanto aos clichés). Mas eu não sabia. Ou melhor, sabia mas neguei-o a mim próprio. Quis pensar que assim, de vidinha estável é que era bem, um emprego serviçal mas regular, apanhar o comboio todos os dias para ir trabalhar, voltar a casa e beijar a esposa e os filhos rechonchudos, visitar os pais avós primos tios ao fim-de-semana, era o que todos à minha volta esperavam; era o que tu esperavas, a família, os amigos, o senhor Antunes da repartição de onde me despedi hoje mesmo, a D. Antónia da mercearia onde todos os sábados íamos comprar fruta (lá está, a rotina), e até o padre que nos casou. Eu sei que te vai doer, me vai doer, vai doer aos miúdos. Mas era isto ou a loucura, o inferno. Não essa, mas outra tristeza. Porquê só agora? Não sei, porque só agora senti coragem, só agora o copo entornou, só agora a vida que levo deixou de fazer sentido. Era isso ou a loucura, ou o suicídio, ou, ou…

Portanto… não há maneira de dizer isto de outra maneira, que não soe lamechas ou pirosa, quero que saibas que apesar de tudo podes contar comigo, os miúdos podem contar comigo, não sei se financeiramente, nem sei se em pessoa, afinal os meus dias irão ter horas diferentes dos vossos, o meu tempo e o meu espaço serão diferentes dos vossos. Uma coisa é certa, partirei como os nossos antepassados pré-históricos partiram; sem a certeza de voltar do outro lado da montanha. Houve quem afirmasse que do lado de lá a erva é sempre mais verde, e as estrelas brilham melhor nos arquipélagos do sul.
Não quero que me odeies. Se me odiares, paciência. Não poderei fazer nada quanto a isso, mas preferia que ficássemos assim. Assim? Assim. Como estaríamos agora se eu no dia do meu quadragésimo aniversário, decidisse ficar em casa, esperar que tu viesses com a rotineira prendinha, acompanhada dos miúdos, fossemos talvez almoçar ou jantar fora como fazemos todos os anos, e eu infeliz, e tu infeliz, cansados, saudosos do tempo em que nos amámos de verdade, eu em busca da aventura do teu corpo, tu em busca de segurança no meu peito, e os miúdos pensando que éramos felizes. 

Um abraço grande,

Fernando.


 © Alexandre Rodrigues 2012