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segunda-feira, 1 de outubro de 2012

O Circo Monteiro





 Em jeito de amigável resposta ao Circus Maximus

Num mundo tão grande e complexo, onde atores e teatros são diversos e abundantes, não se deverá reduzir estes a desenvolvidos e subdesenvolvidos. Pelo meio destes e acima de tudo para além deles existe uma diversidade tal de teatros, atores e espectadores que seria redutor enquadrar o mundo em dois blocos, muito ao gosto dos impérios dos “nós” e dos “eles” (the good guys and bad guys na retórica de um recente “actor”norte-americano com sobrenome de arbusto.)

Ninguém pois, fica de fora de nenhum espectáculo, somos todos parte de uma gigantesca encenação que se desdobra em milhões de sub-enredos dos quais todos somos protagonistas, acabando por sermos apenas figurantes no grande enredo principal. E mais vezes que nunca, tal como numa encenação, o nosso sub-enredo desenrola-se e é vitima, devido às voltas e reviravoltas, do tal grande enredo principal. Assim sendo, o grande circo da vida tem bons e maus atores, bons e maus cenários, auditórios de boa e má qualidade, e cadeiras de couro ou de pau. Sejam em cidades ricas ou pobres, vaidosas ou remediadas. 


Todos nós já com certeza estivemos em cidades pobres onde existem teatros sumptuosíssimos, construídos pelos arquitectos mais famosos, do mais fino e branco mármore, com os melhores assentos forrados a cabedal dignos de palácios, acústica impar, fazendo a inveja das cidades ricas, mas que sofrem apenas de um defeito; são fruto das vaidades, não de maus actores, mas de atores da mais fina capacidade retórica e representativa, exigindo que para actuarem, terá de ser num teatro digno da sua magnificência barroca, mas no fundo sem sumo, e que se esgotam a si mesmos no final do primeiro acto, deixando depois o teatro às moscas, a audiência afrontada, e a cidade pobre, ainda mais pobre cultural e financeiramente; no fundo, piolhosa. O público, esse cada vez mais nu, contribui com ainda mais dinheiro para pagar o teatro, mesmo que este esteja às moscas; para pagar os grandes atores na esperança que da próxima é que vai ser, e quando aparece um novo artista, mais uma obra de renovação é feita, mesmo que desnecessária, sendo exigido ao povo que aumente as horas trabalho para contribuir para mais obras, em detrimento das horas de lazer que muitos usariam para ir ao teatro. E claro, onde antes o povo ia vestido de luzes, agora vai de trapos, porque já esgotou o dinheiro para pagar o tal teatro que de cada vez que é renovado ocupa mais um quarteirão da cidade e trabalha ainda mais para o pagar. 


Muitos de nós já estiveram também em cidades ricas, onde o teatro é construído sem grandes luxos, mas com dignidade, onde os bancos são de madeira duradoura dos arredores da cidade, retirada de florestas sustentadas, e construída por carpinteiros locais, paga de acordo com as capacidades financeiras do povo dessa mesma cidade, exigência aliás do tal público “bem-informado”e não emprestado de outras urbes distantes. Aos atores, em muitos casos amadores, apenas lhe é exigido que sigam a peça à letra (ou pelo menos que sigam o espírito desta), e que estejam ao mesmo nível do público, revelando as suas fraquezas, mas também as suas reais capacidades. Não precisam de se esgotar no primeiro acto, mas de serem consistentes durante toda a peça, e especialmente durante toda a temporada. Geralmente estes teatros não esgotam a lotação na primeira noite, para logo a seguir ficarem vazios quando o fôlego dos atores se esvai. Porque mais previsíveis e constantes na qualidade, tem uma audiência constante, e onde cabe sempre mais um espectador, mesmo que inesperado. E nessa cidade, todos têm a hipótese de ser actor, figurante ou espectador se assim acharem que contribuem para a riqueza cultural da cidade, e acima de tudo não existem vedetas. 


O único defeito desta cidade é que desconfia dos cidadãos das cidades pobres, achando que estes não se sabem governar, que trabalham mal e que são pouco cultos porque despendem poucas horas em lazer, andam sempre stressados, exaltados, e onde dantes eram bem dispostos e acolhedores, são agora sorumbáticos e desconfiados dos povos da outras cidades, especialmente das bem governadas.


Na primeira cidade, os espectadores querem ser ignorantes da sua condição de figurantes, mesmo depois de terem sido mil vezes enganados.


Na segunda, todos têm a hipótese de serem atores, espectadores, figurantes e até, se não lhes apetecer, ficarem de fora do espectáculo. Mas são estes últimos que perdem porque não contribuem para a riqueza da cidade. 


©Alexandre Rodrigues 2012

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

E Venham os Romenos!





Esta noite sonhei com romenos. Nunca na minha triste vida tinha sonhado com romenos. Já sonhei com mortos-vivos, que voava, que caía, que andava de moto com os olhos enevoados, enfim com muita coisa, mas com romenos, nunca (vejam bem, romenos, o rapaz endoidou!!)Aposto que não existe nenhum português a residir em Manchester, Reino Unido que tenha sonhado com romenos. Também não deve existir nenhum com a mesma  forte pancada que eu, aposto. 

Pois bem, no meu sonho havia uma partida de futebol entre um clube romeno ou a selecção romena, não me lembro e uma qualquer outra equipa, que não interessa nem é para aqui chamada, porque o sonho é meu e pronto. O mais caricato é que vinham autocarros e autocarros cheios de romenos com ar de tudo menos de adeptos de futebol (que têm um ar característico). Eram pessoas de meia-idade com ar de agricultores portugueses (pronto agora é que fundiu os fusíveis este), de boné à agricultor, casaco de cabedal preto à agricultor e calças de tecido à agricultor. 

O pior é que me vejo de repente, assim mesmo, de repente, num mercado nocturno cheio de romenos (os tais dos autocarros) a vender peixe e marisco em caixas de madeira no mercado que diziam pixiu e mariscu (no meu sonho aquilo era romeno para peixe e marisco, pronto. Não sei romeno, só sei que é uma língua latina). O que é certo é que de repente, outra vez, me vejo num autocarro vazio da Rodoviária Nacional (UTIC AEC) sentado por trás do condutor, a queixar-me que isto está cheio de romenos, que vieram para o jogo de bola, mas afinal se põem a vender pixiu e mariscu (o desplante desta gente!) no mercado. 

De repente (nos meus sonhos passa-se de um sitio para o outro assim mesmo, sem linearidade) estou de novo noutro mercado, acho que o de Bolton (tal é a loucura que vai nesta cabeça quando dorme) e vejo uma excursão de romenos dirigir-se a mim a perguntar-me como é que se ia para o jogo de futebol (pronto, mandem vir o colete-de forças que este só lá vai assim). Eu disse-lhes: no mesmo autocarro que me trouxe aqui! E eles: então é você que veio o caminho todo a falar mal de nós ao condutor do autocarro romeno que nos trouxe (então não era da Rodoviária Nacional??) . E pronto foi isto o meu sonho que foi interrompido pelo meu filho às três da manhã a chorar. 

A partir daí já não dormi mais; fiquei o resto da noite numa espécie de torpor a pensar em romenos, no fuzilamento do Ceausecu, no Palácio do Povo, em Dacias (que são bem baratinhos e vêm para o Reino Unido em Janeiro do ano que vem), nas duas ex-alunas romenas a quem dei aulas no ano passado, no Vlad Dracul (o empalador) e nas ciganas romenas que nos querem lavar os vidros do carro nos semáforos à entrada da Mancunian Way. 

Haja quem entenda isto. É caso de psiquiatria, não é?



©Alexandre Rodrigues 2012
 

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

A história improvável de Alfredo Fantasia, Joaquina Criativa e seu filho Deodato.






Alfredo Fantasia tinha nascido nos montes perto da fronteira. Fora criado como pastor de ovelhas e era esse o seu destino certo não fosse a vida e as suas voltas misteriosas lhe terem pregado uma partida, daquelas que nos obriga a repensar o nosso modo de viver, e o nosso futuro. Aos nove anos perdeu o pai pastor e a mãe queijeira para umas gripes fortíssimas para as quais não havia cura e nem mesmo as mezinhas tradicionais mais fortes foram capazes de afastar os suores frios, os delírios e por fim a segadora da morte que os colheu com poucos dias de diferença.
 
Foi o seu tio materno, Joaquim Cabaça, moleiro de profissão e a sua esposa Odete, padeira da aldeia que lhe ensinaram aquilo que haveria de ser o seu mester agora sim, para o resto da vida; padeiro. À altura da morte dos pais de Alfredo, já andava Joaquim a ensinar os segredos e as artes da moagem e os tipos de farinha ao seu filho mais velho Ernesto, que daí por alguns anos herdaria o moinho do pai quando este, sem ninguém o esperar, se penduraria a si mesmo pelo pescoço num ramo forte de carvalho num dia de Outono, quando as árvores mostram a copa dourada prestes a cair antes de se encerrarem para férias durante a invernia. Dizia pois que foi a sua tia que acabou por lhe ensinar os segredos das leveduras, da massa e da lenha, assim como os não menos importantes segredos das cozeduras e benzeduras que se dava naquele tempo ao pão antes de este entrar no forno com dois golpes perpendiculares numa réstia simbólica de cristianismo atravessado.


Alfredo e Ernesto eram como dois carneiros na época do cio, a rivalidade entre primos, especialmente quando o clarete das encostas solarengas começava a fazer efeito nas cabeças de cada um, era por demais violenta; um por ser filho varão, braço direito do pai, o outro por ser o perfilhado revoltado que perdera os pais demasiado novo, mas não queria ser de modo algum, um lobo submisso ao macho alfa da matilha. 


Foi pouco depois dos funerais de Joaquim, logo após os primeiros lutos, e com a bênção resignada da tia que Alfredo decidiu que era chegada a hora de partir. Ali não era o seu lugar, sabia-o decerto, e a contenda com o primo Ernesto só poderia agravar-se e já chegava de mortandade naquela família amaldiçoada. Levou então consigo uma mala com a pouca roupa que a pobreza lhe permitia possuir, um rolo com dinheiro escondido num bolso secreto cosido nas ceroulas, suficiente para apanhar o comboio até ao mar e pernoitar por uns dias, e a arte de padeiro dentro da cabeça. E um farnel de pão, queijo e vinho que a tia lhe preparara para esconder a fome e o desconforto das velhas carruagens de terceira classe.


Ao chegar à estação junto à vila de pescadores, e depois de percorrer as encostas de vinhas, as planícies de trigo e as praias de pescadores, Alfredo sentou-se em cima da mala, abriu a sacola de pano e comeu. Vamos pois, por agora deixar Alfredo sossegado para podermos contar a história de Joaquina Criativa.


Joaquina Criativa era filha de pescadores, nascera e fora criada na vila encaixada entre os penhascos mediterrânicos e o mar azul turquesa, fonte de vida e de morte para muitos, e não eram poucos naqueles tempos, que tiravam das águas o seu sustento à força de braços, lágrimas, grandes perigos e pouco mais. Tinha o rosto redondo, de bochechas rosadas, e era a alegria da família, por norma enlutada pois toda aquela gente não conhecia outra arte que não a da pesca. Já tinha então perdido um irmão, reclamado como sacrifico pelo oceano em troca de uma rede meio cheia de sardinhas e de cansaço, mas ainda assim era ela que consolava e animava a mãe dos seus carpidos sempre que o pai e o irmão mais novo pegavam nos remos e se lançavam às ondas meretrizes sem terem bem a certeza que iriam voltar inteiros e muito menos vivos com os frutos que o mar a contra-gosto os deixava acarrear. Joaquina, junto com a mãe vendia no mercado da cidade grande o peixe que a família descarregava em cestas por entre as redes esticadas na praia. Por volta das horas de almoço, depois de salgar o peixe que iria vender, Joaquina dirigia-se de canasta à cabeça até à estação, onde apanhava o comboio com destino à cidade grande. E é nessa direcção que agora segue, descalça e curtida por sol e salmoura.


Voltemos então a Alfredo Fantasia que já terminou o seu parco almoço e se prepara para ir arranjar alojamento naquela vila esquecida dos homens onde apenas os pescadores lutam pela sobrevivência.


Alfredo preparava-se para pegar na sua mala quando uma voz o abordou: peixe fresquinho vizinho? Alfredo levantou os olhos e à sua frente estava a mulher mais bonita que alguma vez vira. Não que tivesse visto muitas, mas esta era diferente das mulheres da aldeia de onde vinha. Tinha um brilho nos olhos e radiava uma alegria a que as mulheres das montanhas nunca o acostumaram. Mais por graça e por tentar a sorte Alfredo aceitou de bom grado o negócio proposto pela vendedeira, no fundo  mais para tentar agradar àquela mulher por quem o seu coração batia inquieto, do que pela fome que já não trazia. Menina. Perguntou ele. Sabe por graça me dizer onde posso encontrar uma pensão ou albergue para poder pernoitar uns dias? Sou padeiro e procuro alguém que me dê trabalho por estes lados. Joaquina olhou para ele, surpreendida pelos olhos distantes mas seguros de si e pelo porte altivo daquele homem que não pestanejava ao falar e transmitia-lhe uma profunda sensação de segurança, diferente daquela que os pescadores, eternos supersticiosos e submissos do mar, nunca lhe infundiram. 


Daqui até casarem e contra a vontade dos pais de Joaquina, que a viam antes casada com um pescador, foi um ano. Mais tarde, bem mais tarde Alfredo e Joaquina pouparam o suficiente para abrirem uma padaria para Alfredo, e mais tarde uma peixaria para Joaquina que sempre fora mulher independente e não queria viver apenas dos rendimentos do marido. 


Esta banal história que hoje conto, passou-se há muitos anos, em meados do século vinte e um, depois do colapso da então civilização ocidental, primeiro dos países que a constituíam, alastrando por final aos blocos que estes faziam parte e no final de uma guerra por recursos que não existiam,  e à época eram avidamente adquiridos por estes e outros países até então subdesenvolvidos e que ultrapassaram e acabaram com o domínio ocidental do mundo ao fim de mais de quinhentos anos, obrigando as suas gentes a voltarem aos hábitos e ofícios antigos dos séculos pré-industriais e que há época das últimas grandes guerras estavam em muitas regiões quase esquecidas. O ocidente depois disso voltou-se para si mesmo, envergonhado pelo que fez e pelo que perdeu, pelo que construiu e destruiu, fechou as fronteiras e vive isolado do resto do mundo, isto segundo me dizem os mercadores, um pouco mais desenvolvido que nós. O meu nome é Deodato Fantasia Criativa, hoje sou pintor e escritor, contra a vontade dos meus pais que me viam a tomar conta dos negócios da família que eles criam ver crescer, e aqui relato a história humilde da minha humilde família nesta terceira década do século vinte e dois aos sessenta e cinco anos de idade. O mundo nunca mais foi o mesmo.



©Alexandre Rodrigues 2012