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terça-feira, 20 de novembro de 2012

O Velho Que Não Sabia a Mar.




Foto: Ricardo Silva.

 Ryan deambulava pensativo pela praia. De férias com os pais naquele país estrangeiro, estava a meio da puberdade, hormonas em revolução, causando borbulhas por fora e apertos de coração por dentro, especialmente desde que conhecera Kathy, por quem tinha deixado de dormir de noite sem saber bem porquê. Sabia-lhe bem gostar assim de alguém, mas sentia-se estranho ao mesmo tempo, uma tristeza profunda que não percebia bem. Não sabia como lidar com o sexo oposto nem como dar o primeiro passo. Talvez fosse a incerteza de não saber se Kathy correspondia ao seu amor e às suas patéticas tentativas de entabular conversa. Os rapazes e raparigas nestas idades por norma, gostam de coisas bem diferentes.


Ao longe na praia deserta reparou numa espécie de barraca feita de galhos, plástico e zinco. Uma construção frágil que parecia hesitar na sua estrutura ao receber as rajadas de vento húmidas do mar. Uma silhueta tentava em vão consertar o que parecia ser o telhado. Quando passou em frente da precária construção a silhueta que tinha tomado a forma de um velho com ar de vagabundo chamou-o.
- Ei! Rapaz! Ei! Ajuda-me aqui a compor este telhado!
Ryan virou-se hesitante. Afinal mais ninguém se encontrava naquele trecho de praia.
- Sim, tu rapaz! Chega aqui um instante. Não te faço mal! Anda cá!
Ryan parou e voltou-se. Um homem com ar de velho marujo, de barbas brancas sebentas, boné grego de marinheiro e roupas gastas acenava-lhe com alguma impaciência. Ryan pensou: só lhe falta mesmo o cachimbo para ser o estereótipo acabado de um marinheiro saído de um livro de histórias. De facto, pensou Ryan, ele parecia-se de certo modo com o escritor Ernest Hemingway que vira nas fotografias dos livros de Inglês na escola, mas mais esfarrapado e sujo.
Aproximou-se do abrigo que parecia ser onde o homem fazia a sua casa. De fora, num dos lados os restos de uma fogueira, onde este provavelmente se aquecera de noite e cozinhara alguma parca refeição, a julgar pelos restos de comida incinerada.
- Agarra aí rapaz, desse lado, e ajuda-me a desdobrar esta chapa de zinco. Este vento ia-me deixando sem abrigo! Ah! Ah! Ah! Sem abrigo, riu o velho para si mesmo. Olha que triste trocadilho!
Ryan não teve muito tempo para pensar se deveria ou não ajudar. A voz imperativa do velho guiou-o até ao lado do abrigo e pegou cuidadosamente na chapa para não se cortar na folha de metal meio dobrada e esticou-a por cima da frágil estrutura, o velho fez o mesmo do lado oposto e atirou-lhe um pedaço de corda.
- Ata essa corda ao furo que vês aí na chapa. E antes que Ryan tivesse tempo de a atar, o velho atirou-lhe uma estaca de metal enferrujado.
- Ata a outra ponta da corda à estaca e prende-a na areia. Ryan assim fez e começava a afastar-se para retomar a sua caminhada quando o velho lhe perguntou:
- Pareces preocupado rapaz. Estás com um olhar meio perdido? Como te chamas?
Ryan parou para pensar. Hesitou. Não queria parecer fraco em frente àquele estranho, mas a sua condição de estrangeiro em país desconhecido fê-lo titubear. Desconfiado, respondeu:
- Não estou perdido. Chamo-me Ryan e apenas vim passear para arejar as ideias. Disse sem grande convicção mas um pouco tenso.
- Mulher? Replicou o velho enquanto amarrava a corda do seu lado do abrigo.
- Perdão? Perguntou Ryan.
- Se o que te faz ter esse semblante preocupado é uma mulher? Retorquiu o velho. Conheço esse semblante à distância rapaz, e nem preciso de te conhecer. Como diria um velho amigo meu: são muitos anos a virar frangos! E deu uma gargalhada sonora e rouca!
Ryan deu um meio sorriso, perplexo pela argúcia do velho. Como é que ele sabe? Pensou. E sem ter tempo de fazer ao velho a mesma pergunta que fez a si mesmo, aquele acrescentou:
- As mulheres têm, às vezes e sem saber um poder enorme sobre os homens.
Ryan respondeu: sim pode-se dizer que o que me preocupa é uma mulher. Uma miúda da minha idade, para ser mais preciso.
- Ora pois, como se eu não soubesse! Senta-te aqui miúdo. E ofereceu-lhe um lugar em cima de uma toalha coçada à porta da sua tenda improvisada, onde também, a custo se sentou.
- As mulheres são bichos estranhos para os homens, mas não conseguimos passar sem elas. Por causa das mulheres cheguei onde cheguei. À miséria. Mas não julgues que me importo. Vivi a vida como quis, e isso ninguém me pode tirar. Por causa delas viajei, aventurei-me, arranjei trabalho e fiquei sem ele. Vivi bem confortável, e agora sou miserável.
Ryan ficou curioso. Como é que aquele velho maltrapilho alguma vez tinha tido uma mulher, quanto mais várias?
- Nem sempre fui assim rapaz – disse o velho que parecia ler-lhe os pensamentos – tornei-me um vagabundo da vida por causa de uma. Sabes, já fui muita coisa na vida: olha, professor por exemplo.
- Professor? Perguntou Ryan perplexo e incrédulo. De quê?
- Filosofia. Replicou o velho. Mas ninguém gosta de filósofos ultimamente. Especialmente os políticos. E quando dei por mim estava sem trabalho. Os filósofos pensam demais e dizem coisas que os políticos não gostam de ouvir. Assim eliminam-nos dos currículos escolares. Simples. Viram-se livres de nós tal como os atenienses viram-se livres de Sócrates por este dizer a verdade. Com a diferença que hoje em dia não nos envenenam porque não podem. Nessa época era casado. Com uma mulher maravilhosa. Cuidava de mim como ninguém, amava-me, percebes rapaz?
- Claro. Retorquiu Ryan. Ou melhor acho que sim, disse titubeante.
- Pois é, mas eu não a amava verdadeiramente. Gostava dela, mas não a amava. E levei muitos anos até aperceber-me disso. Muitos anos… até que a deixei… Ou foi ela que me deixou, já não me lembro…
- Então? Perguntou Ryan. O que fez a seguir?
- Não foi o que fiz a seguir, mas o que me aconteceu antes para que isso acontecesse. Quando era mais ou menos da tua idade, apaixonei-me por uma miúda. Uma amiga de infância que não via há uns anos. Sabes como é. Não ligamos a certas raparigas quando somos pequenos, apesar de alguns de nós já sentirem qualquer coisa, paixão crua, sei lá, mas depois elas crescem e fazem-se mulheres e nós… Nós apaixonamo-nos por elas… sem querer.
- Entendo. Disse Ryan. Quando era miúdo, na escola primária, uma miúda uma vez disse que gostava de mim. Mas eu queria lá saber disso. Queria era jogar à bola.
- Pois é isso mesmo rapaz. As mulheres já nascem com instintos maternais. Incipientes, mas já nascem com eles. Se na infância o fazem imitando as mães, na adolescência é diferente. Elas também mudam fisiologicamente, como nós, mas a abordagem delas é muito diferente.
- Como assim diferente? Perguntou Ryan surpreendido.
- Quando o corpo das mulheres muda na adolescência, o seu instinto maternal desenvolve-se e elas, sem se aperceberem querem ser mães a sério. É esse o centro da sua existência. Nós homens, somos apenas um veículo para que tal aconteça. Uma mera peça na engrenagem da vida.
Não percebo. Disse Ryan. Mas então, elas não se apaixonam?
- Ah ah ah! Rapaz, tu és engraçado – riu-se o velho – claro que se apaixonam, mas não como nós. Nós vemos uma rapariga que achamos bonita e pronto. Não sabemos explicar, é o jeito dela, o andar, o sorrir, um brilhozinho nos olhos.
- Ok, acho que percebo. Julgo que o que me fez apaixonar por Kathy foi isso mesmo, o jeito dela.
- Chama-se Kathy? Perguntou o velho. Bonito nome. Mas percebeste como nos apaixonamos pelas mulheres?
- Sim, acho que sim. Mas ainda não percebi como é que elas se apaixonam por nós. Se é que se apaixonam.
- Apaixonam rapaz, apaixonam. Mas de modo diferente de nós, homens. As mulheres instintivamente procuram alguém que as faça sentir seguras, mas que seja ao mesmo tempo meigo e gentil, seja audaz mas um cavalheiro e acima de tudo que saiba ouvir. As mulheres gostam de conversar. Muito. E se há delas que o fazem com tanta habilidade… Nem sempre se apaixonam pelo homem mais bonito, no entanto. Isso é coisa de filmes e novelas.
- Ah, então por isso é que muitas se apaixonam por homens… feios? Agora entendo…
- Talvez. Mas com as mulheres nem tudo é preto e branco. Existem muitos tons de cinzento pelo meio.
- Então? Aquilo que ainda agora explicou não se aplica? Estou confuso.
- Claro que se aplica rapaz. Elas também dão importância ao aspecto. Gostam de homens cuidados, bem vestidos, ou pelo menos dentro dos padrões delas de moda ou beleza. Subtilezas femininas…
- Está a complicar as coisas. Acho que assim nunca vou ter hipóteses com a Kathy.
- Não digas disparates rapaz. Se eu soubesse o que sei hoje teria agarrado a oportunidade quando me apaixonei a sério pela primeira vez. E como me apaixonei. Por isso cheguei onde cheguei e dei tantas cabeçadas. Por não saber aquilo que sei hoje. Mas a vida é assim. Alguns já nascem com o dom de conquistar as mulheres, os outros como eu aprendem-no com muitas cabeçadas e lágrimas ao longo da vida. Eh eh eh, geralmente acabam como professores. E na miséria. Mas como te disse não fui só professor, fui muitas outras coisas…
- Não diga isso. Afirmou Ryan tentado sem grande convicção para encorajar o velho.
- Como se chamava a miúda por quem se apaixonou?
- Faz-me um favor. Disse o velho ao mesmo tempo que olhava Ryan bem fundo nos olhos. Se realmente gostas dessa Kathy, diz-lho, e mesmo que ela não te corresponda, a semente ficará plantada no seu coração, só tens de lhe por água todos os dias. Ela, por seu turno, se sentir algo por ti, nem que seja simplesmente amizade, esperará que regues essa mesma amizade até se transformar em amor. Se ela não gostar mesmo de ti, será ela que fugirá de ti. E cedo te aperceberás disso, mesmo que isso te parta o coração. Mas não fujas tu, uma vez que o faças nunca mais vais parar de fugir e lamentar-te-ás para o resto da tua vida. Insiste, persevera.
- E como faço isso?
- Como eu já te expliquei. Prova-lhe que és digno do amor dela. Não fujas só porque ela te disse que não. Insiste, mostra-lhe que és distinto, que és senhor de ti mesmo, mas mostra-lhe também que sabes ser sensível. Não faças como eu que fugi cobardemente, fugi e ainda não parei. Fugi para longe, tão longe que nunca mais amei ninguém.
Os olhos do velho encheram-se de lágrimas, grossas como as ondas que rebentavam na praia, e foi para a imensidão do mar que aqueles olhos cheios de tristeza se desviaram dos de Ryan.


Pela primeira vez Ryan teve pena daquele vagabundo. Não por ser um pobre miserável e viver numa cabana na praia, mas por perceber que lá dentro daquele coração existia uma grande mágoa, um grande remorso; um coração partido e nunca sarado. Uma angustia maior que a força do vento que quase derrubava aquela frágil construção.
Ryan despediu-se do velho e regressou pelo mesmo caminho por onde tinha chegado. Ao contrário daquele pobre velho, ainda estava a tempo de remediar o presente. No entanto, esquecera-se de perguntar àquele antigo professor com ar de lobo-do-mar como se chamava. Mas já não voltou para trás.

©Alexandre Rodrigues 2012

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Subversão




Olhando à distância para os acontecimentos e confrontos realizados durante a greve geral de ontem em Lisboa, só posso lamentar o que aconteceu. A violência é desnecessária, semeia o ódio e causa confusão e perplexidade naqueles que se manifestam pacifica e civilizadamente. De onde vem esta violência? A quem serve? E quem está por detrás disto? Haverá alguma relação entre certos quadrantes políticos  e a continuação da pobreza e da miséria?

Em 1970, em plena Guerra Fria, um jornalista da Agência de Noticias RIA Novosti foge da Índia onde estava em missão de “cooperação” com este país, pouco antes do Paquistão Oriental se declarar independente e se tornar no Bangla Desh, dirigido por um governo pró-soviético. Esse jornalista chamava-se Yuri Bezminov e mais tarde tornou-se famoso pelas suas palestras sobre subversão. E se ele sabia do assunto. Mas já voltaremos a este senhor.

Uma das observações mais interessantes nas sociedades mais desenvolvidas é a de que, os partidos dos quadrantes políticos mais extremos têm pouca ou nenhuma representatividade, devido em parte ao facto de existir transparência informativa, educação e espírito crítico. A outra é que nestes países a democracia está consolidada há muitas décadas sem grandes movimentos revolucionários ou guerras civis. Regra geral os níveis de vida são relativamente elevados e existe estabilidade.

Se por outro lado compararmos com países de democracia recente, ou onde existiram tentativas de desestabilização depois da democracia ter sido instalada, ou ainda em países onde existe tendência para o culto da personalidade, regra geral de influência católica, bastando olhar para o papel que os Papas advogam para si mesmos, para concluímos que nesses países existem ainda forças altamente subversivas que têm muito a ganhar com a miséria, ou mesmo a pobreza, a desestabilização, as crises e outros fenómenos mais ou menos geo-económicos. 

Estes grupos regra geral são comandados por comités que operam na sombra, e que quando questionados sobre o assunto refugiam-se em vagas missivas e obscuras manobras tentando-se demarcar das acções mais violentas e reprováveis que se passam nas ruas mas por eles instigadas. Foi assim aquando das primeiras perseguições políticas na Alemanha nazi logo após Hitler ter sido nomeado chanceler. Este nunca assinou nenhum documento onde se ordenasse qualquer tipo de opressão. Antes foi assinado pela Direcção do Partido Nacional-Socialista. Conveniente. No outro extremo do quadrante político existem também exemplos parecidos. 

A subversão é a arma politica mais perigosa que existe, ela mina lentamente os alicerces da sociedade, desmoralizando-a, desacreditando-a, voltando os cidadãos uns contra os outros. Os agentes subversivos são na aparência inofensivos funcionários públicos ou partidários, mas que na realidade agem na sombra; influenciam personalidades públicas, actores, professores, jornalistas, etc. Esta era sem dúvida a especialidade do KGB, onde cerca de 85% dos recursos humanos e monetários eram canalizados para este tipo de actividade. 

Hoje em dia o KGB já não existe, pelo menos na forma como o conhecemos até ao final da década de 80, mas a influencia subversiva deste regime ainda se manifesta em partidos marxistas de linha mais dura e que nunca evoluíram, ao contrário dos seus homónimos do centro da Europa Ocidental depois da invasão da Checoslováquia em 1968. A razão estará talvez por até 1989 terem sido financiados directa ou indirectamente pela antiga União Soviética. Do mesmo modo os regimes de extrema-direita ou de tendência fascista também não, desde que em 1978 a Espanha proclamou a democracia através de uma nova constituição. Estes partidos (de um ou de outro lado do espectro politico) estão ainda enraizados curiosamente nos países mais pobres da Europa e especialmente da Europa do Sul. Não quero com isto dizer que eles sejam responsáveis pela crise que hoje assola em grande escala esses países. Estes partidos, regra geral nunca governaram em democracia, e por tal não se lhes pode imputar essa responsabilidade. Mas são bastante activos no modo como desmoralizam, desestabilizam, carênciam e finalmente tomam o poder. Quanto mais miséria existe, mais estes partidos crescem e revolvem-se nela. Quanto mais descalabro social, mais estes partidos vingam. Ilude-se quem acha que este tipo de partido é a favor da melhoria das condições de vida dos cidadãos.

Mas reparem, que a subversão da sociedade é sempre feita na sombra e debaixo de uma capa de legalidade. Certo que os seus dirigentes se manifestam, e manifestam o seu desagrado em relação a qualquer politica que qualquer outro partido que esteja no poder execute. Existe uma expressão muito curiosa e que lhes assenta que nem uma luva: “parece que são sempre do contra”. E são! Desde associações desportivas, concelhos escolares, comissões de trabalhadores, até ao parlamento, existem agentes, muitas vezes sem se aperceberem que o são, desta mesma subversão. Ter esta postura de negativismo, de diálogo de surdos, de “bater sempre na mesma tecla” faz parte de toda uma estratégia que inclui a confusão, a sensação de ausência de poder e outras manobras politicas e culturais com o único objectivo de trazer frustração, caos e assim assumir e perpetuar o poder, e de um modo opressivo. 

Voltemos então a Yuri Bezminov. Este adido da embaixada soviética, e jornalista da RIA Novosti era tão só um agente subversivo do KGB que foi instrumental no então Paquistão Oriental (hoje Bangla Desh) a rebelar-se contra o Paquistão Ocidental (hoje Paquistão) e a tornar-se independente, através da disseminação da desmoralização, propagada por grupos islamistas de influencia soviética, a desestabilizarão do poder através de golpes, assassinatos, etc. e finalmente a crise e vazio de poder. No fim, alguns destes intelectuais e mesmo políticos marxistas foram fuzilados, e no poder foi colocado um governante treinado pelos soviéticos. Simples? Não. Exige muita persistência.

É pois do interesse de quem nos governa e dos próprios agentes económicos, já para não dizer dos cidadãos, que se crie um país onde o bem-estar seja prioritário, os ordenados sejam dignos de trazer prosperidade económica ao país, onde a justiça funcione, a educação funcione, onde há transparência para evitar mexericos e desconfianças, onde não só os direitos sejam respeitados, mas também os deveres e onde haja responsabilidade social. Naturalmente assim, estes partidos e os seus agentes deixaram de ter importância e resumir-se-ão à sua própria irrelevância. Basta sermos como país, mais inteligentes na forma como gerimos os nossos negócios, como gerimos o Estado e como actuamos como cidadãos atentos e exigentes, mas cumpridores. 

Existe no YouTube uma fascinante entrevista , dada por Yuri Bezminov em1984, em nove partes, que vale a pena ver, onde este relata como é conduzida a politica subversiva, naquele tempo mais agressiva devido à Guerra Fria, mas que ainda vai permanecendo em menor escala um pouco por todo o mundo.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

As Oportunidades perdidas de Portugal – Ou como a classificação de Geert Hofstede se aplicam que nem uma luva ao nosso país.



 Portugal é um país que se tem caracterizado desde que restaurou a sua independência, ou talvez mesmo antes de a desbaratar, por ter perdido excelentes oportunidades de ser um país exemplar no que trata à distribuição de riqueza e bem-estar das suas populações. E porquê? Basicamente porque desde a morte do Infante D. Henrique (um príncipe meio inglês), que financiou do seu bolso as descobertas, o Estado nas suas mais diversas formas ao longo da história tem açambarcado a riqueza produzida pelos portugueses. O vício do monopolismo estatal português já vem de há muito tempo e está enraizado na cultura político-administrativa portuguesa; D. Manuel II foi o primeiro rei português a auto-intitular-se Senhor do Comércio, da Conquista e da Navegação da Arábia, Pérsia e Índia, portanto o único detentor do investimento, exploração e lucros das descobertas. Um monopolista portanto.


Durante a União Ibérica de 1580, Portugal viu perder uma parte das suas possessões ultramarinas devido às constantes guerras que o Império Espanhol financiava e que acabaram por ditar a bancarrota do Império ainda sob o comando de Carlos I e posterior perda das Províncias Unidas da Flandres para a casa de Orange no final da guerra dos oitenta anos. É já em 1602 que a Holanda, agora livre do jugo católico espanhol, cria por concessão régia a VOC "Vereenigde Oost-Indische Compagnie" ou mais conhecida em Portugal por Companhia das Índias Orientais, uma das primeiras empresas capitalistas surgidas da revolta protestante, onde foram criadas as primeiras acções de igual valor, através da divisão do seu capital pelos investidores interessados (na sua maioria pequenos comerciantes e agricultores estabelecidos) e transaccionáveis pelos seus membros. O Estado holandês recolhia impostos dos lucros dessa ventura. A VOC tornou-se um Estado dentro do Império holandês e a sua primeira acção foi expulsar os portugueses (fragilizados pelo domino espanhol) de Amboino nas ilhas Molucas com o objectivo de controlar o comércio das especiarias do Indico. 


Ora quando Portugal finalmente tira partido do desmembramento do Império espanhol, em 1640, este tem de optar por deixar cair a Catalunha, também em rebelião através da Guerra dos Segadores ou Portugal. Opta por Portugal mas não sem luta. Este vê-se de novo independente mas tendo de lutar por manter ou mesmo reaver possessões do seu império, por exemplo o nordeste brasileiro, entretanto tomado pelos Holandeses da WIC (Companhia das Índias Ocidentais). É nesta altura que Portugal, poderia ter copiado o modelo holandês de exploração, manutenção e lucro das suas possessões ultramarinas, como mais tarde o fizeram os britânicos na refundação do seu império que se tornou o maior em extensão e riqueza até à data. Mas não, dois reis depois, já com as relações externas com Espanha e Holanda pacificadas, no reinado de D. Pedro II, este pede às cortes financiamento para restaurar os fortes e proteger os navios portugueses vindos do Brasil e da Índia. Mas os três estados, de “vistas curtas” recusaram ajudar a coroa quando poderiam aqui ter tirado partido da situação e terem tido um papel importantíssimo na privatização e consequente exploração do Império português, contribuindo no futuro para a sua melhor gestão, geração de riqueza e oportunidades para todos. Seguiu-se D. João V e foi o que foi… sem comentários. 


Um terramoto, uma invasão estrangeira e uma guerra civil depois...


Se a este já longo exemplo juntarmos a oportunidade perdida no século XIX aquando da industrialização (já tardia) do país, e do investimento providenciado pelos ascendentes das famosas famílias agora poderosas de todos nós conhecidas e interligadas entre si essencialmente por casamentos, mais a sua provinciana aversão ao risco (afinal o principal ingrediente do capitalismo) e as generosas concessões monopolistas do eternamente fragilizado Estado português, ficaram então criadas as condições para dar à luz o “capitalismo à portuguesa”; sem riscos, de tendência monopolista, dependente mas ao mesmo tempo cada vez mais credor do Estado. E reparem que nem a Republica que conseguiu a rara proeza de por a igreja católica de portuguesa de joelhos, nem o Estado Novo foram capazes de aproveitar a oportunidade de inverter a situação das coisas, ainda a tempo, e criar a oportunidade de democratizar o investimento privado. Salazar pelo contrário, concedeu às já de certo modo formadas famílias poderosas mais concessões monopolistas para explorar o comércio com as colónias e ao controlar burocraticamente a verdadeira industria capitalista que arrisca (as pequenas e médias empresas no fundo), manteve-as tecnologicamente estéreis em sectores marginais e relativamente pouco lucrativos. Por alguma razão a industria nativa automóvel nunca vingou em Portugal nesta época, antes esbarrou com a máquina burocrática do Estado Novo, não obstante variadas e louváveis tentativas (Alba, Lusito, IPA, etc.) de dinamizar o sector. O Secretário de Estado da Industria de 1956, provavelmente já de “luvas” calçadas preferiu restringir as importações e convidar empresas estrangeiras a montar veículos no país, antes de a própria industria automóvel nativa ter hipóteses de florescer e amadurecer. 


Um golpe de Estado e algumas nacionalizações depois…


Para que o verdadeiro “capitalismo português” que conhecemos hoje na sua mais aguda forma se desenvolvesse, bastaram nas últimas duas décadas de democracia, algumas reprivatizações, bem-vindas se o processo tivesse sido transparente (banca, seguros e transportes terrestres), alguns políticos moles, para não lhes chamar corruptos, e muita apatia para não lhe chamar ignorância, por parte de uma população avessa à educação e à informação mas muito amiga do “chico-espertismo” e de “se safar a si mesma” para que, mais uma vez a oportunidade de se criar um país gerador da sua própria riqueza, provedor do bem-estar das suas populações e incentivador da poupança se tivesse perdido. Se a isto juntarmos a irresponsabilidade e desfaçatez com que se geriram as quantidades astronómicas de dinheiro que os contribuintes de outros países da Europa comunitária enviaram para Portugal através dos inumeráveis subsídios a fundo perdido para infra-estruturas (antes deficitárias, agora enojantes) que foram copiosamente embolsados por empresas de construção sem escrúpulos primeiro e pelas parcerias público-privadas (PPPs) depois.


E chegamos aos dias de hoje. A relutância com que o governo actual tem em renegociar as rendas absurdas criadas por gestão danosa dos governos anteriores, tem muito a ver com o poder monstruoso que foi dado a estas empresas no passado século, e como estas recrutam ex-governantes para negociar as ditas rendas. Daí que o governo tente “espremer” ao máximo os contribuintes e as pequenas e médias empresas (porque dispersas e desunidas) com velhos e novos impostos para, ou não ter de renegociar ou renegociar com pouco impacto (paras as grandes empresas) as rendas que dariam para cobrir a avultada divida que o país contraiu. Os portugueses não podem aceitar o argumento de que estas empresas criam riqueza nacional. Em mais de cem anos de industrialização e “capitalismo à portuguesa” já se provou que não gera riqueza, antes tem atirado o país para a miséria, endividando-o. E se nada for feito para contrariar esta situação o país estará deficitário por mais trinta anos. E estas grandes empresas nem são empresas inovadoras que procurem novas metodologias, novos métodos de produção, antes escudam-se em modelos ultrapassados como o taylorismo que infelizmente ainda é copiado por algumas PMEs, usando processos de gestão antiquados ou desfasados da realidade actual. Usam uma capa tecnológica (geralmente importada) para parecerem modernas, mas o seu interior é velho e encardido.


E desenganem-se aqueles que acham que esta crise é uma oportunidade para refundar o Estado. Seria, se não tivéssemos tantos antecedentes a mostrar o contrário. Portugal é como aqueles criminosos inveterados que quando saem da cadeia prometem que desta se vão redimir, mas assim que apanham nova oportunidade tornam à actividade criminosa. Enquanto não for eliminada esta cultura de interdependência Estado-privados, então o Estado português continuará a alimentar uma clique e continuará a ser ele próprio um monstro sugador da riqueza nacional. Comprova-se assim a classificação que o pesquisador holandês Geert Hofstede faz de Portugal e já discutido aqui. Os portugueses são avessos ao risco, por defeito de muitas gerações e não será apenas em cinco anos ou numa década que se mudam hábitos muito enraizados como o de querer depender do Estado para tudo, que resolva todos os problemas de todas as pessoas, empresários incluídos. Isto gera uma cultura de irresponsabilidade individual que não é higiénica nem aconselhável a quem queira investir seriamente no país. 


Como qualquer separação esta não será menos dolorosa. É preciso pois inteligência, perspicácia e muita paciência (não será com uma revolução ou o poder na rua que se resolve este cancro) para dar estimulo e oportunidade a quem tem mérito e queira investir e realmente arriscar numa economia verdadeiramente livre no país, para criar riqueza e bem-estar, tenha noções básicas de responsabilidade social e ética empresarial. O Estado por seu turno apenas terá de dar em troca desburocratização (inimiga da corrupção), transparência e igualdade de oportunidades. O país agradece.