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sexta-feira, 2 de novembro de 2012

FELICIDADE



Chega-te aqui, vem ao pé de mim,
Deixa-me abraçar-te, sentir o teu cheiro.
Entreabres a boca, de lábios carmim,
Procuras a minha que arde por inteiro.

Deixa-me sentir do teu corpo cada curva,
Os teus flancos dourados, onde a mente se turva.
Folgo adivinhar do jardim as profanas delícias,
No orvalho nascidas, do prazer as primícias. 

O teu ventre eu afago com o fuste dos sonhos,
Sussurro-te poemas em nada enfadonhos.
Sabem-te a mar e ao sal das áureas praias,
São o Sol da manhã a aquecer as muralhas.

Na peleja trocamos de lutas, trocamos as armas,
Se o campo da batalha não chega lutemos nas bermas.
Que nem espaço nem tempo nos impeçam de acabar,
Este diálogo de loucos, que viemos para aqui murmurar.



©Alexandre Rodrigues 2012
 

Vagabundo




Caspar David Friedrich: Der Wanderer über dem Nebelmeer, 1818


I
Foi por ti que ontem, indefinidamente abandonei a Primavera
Vagabundeio solitário por esse mundo fora, o coração uma cratera;
Tão profunda como os misteriosos mares de lágrimas feitos
Tão ampla e frágil como o rol de todos os meus defeitos.

Foi por ti que caí na armadilha, em silêncio por mim próprio urdida,
Deixei que me deixasses entrar na tua torre de marfim, tua ajuda concedida.
Impaciente de amores, esgotado da incerteza, da desconfortável escuridão,
Buscando furtivamente entender-te, concluir em ti o fim da minha estranha solidão.

Quando aquela carta cansada poisou no teu regaço com alguma petulância,
Sabia de antemão que tu, aspiracional, irias responder com amigável relutância.
Só por verbos conjugados me soube expressar, onde esperavas uma atitude,
Mas eu, imaturo dos segredos das mulheres, só reagi com lastimável ineptitude,

II
Foi por ti que então desapareci, renunciei ao misterioso e supremo prazer,
Aos jardins de delícias de outros primores renunciei renitente comprazer.
No teu ninho não havia lugar para este pássaro ferido enfim descansar,
Nem espaço nos teus lábios carmim onde a minha boca sempre quis poisar.

Foi por ti, que me retirava, impetuoso para os frios e nevados montes,
Onde chorei nas margens desses antigos rios as suas pálidas e gélidas fontes.
Descrente dos homens pois me tornava, meditando ambígua contra-manobra,
Longe do teu mundo para mim sempre oculto e secreto pequena sombra.

Foi por ti que bebi em goles de bruto, o xadrez do avultado desgosto,
Imaginando que assim, iludido, desaguava no mar a memória do teu rosto.
Tanto que fiquei maldisposto, e de tal arte até me tornei pálido, afásico,
Em minha Arrábida te amaldiçoei até me tornar num eloquente amnésico.

III
Foi por ti que tantas vezes nos temporais destes nortes me reencontrei,
Insubmisso desse meridiano calor, do sol que te acalenta, ao qual renunciei.
E do mesmo modo, asseveras que alguém aquece dentro da pele o teu coração;
Para mim nada mais é que ferida aberta, arde sem possível suturação.

Foi por ti, quando a Portugal me perguntaste se alguma vez tornaria,
Para debaixo do mesmo azul desse céu dos teus mundanos e afluentes prazeres,
Que de coração duvidoso do que ouvia pensei; só por ti de vez voltaria.
Mas foi para fora que de estoma te respondi; não, só em vagar de lazeres.

IV
Foi por ti, quando falas de outras culpas e remorsos, que abotoei o casaco,
E peguei nas lembranças, do que poderíamos ter sido, como a um saco.
Bebi de limões doces querendo espremer laranjas azedas por vulgar desacato,
Virei costas ao teu pequeno mundo que me parece por demais obscuro, caricato.

Foi por ti que ainda sonho com o dia, em que dos anos perdidos a vida retomámos.
E se achas que agora já é tarde; nos frutos deste afastamento desabrochámos,
Como num realista folhetim onde um sonho ainda está por cumprir, o outro rematado.
Quero que saibas que do mundo saltaria fronteiras só para te ter, por um minuto afortunado.

É por ti quando nada mais restar destes dias de vazia desilusão,
Quando a minha alma se fartar dos céus de Munique, Manchester, Turim,
E o mundo para nós, vivência estranha nos desprezar, será em jeito de conclusão
Que eu te abraçarei, terno, já perto de conhecer o meu derradeiro fim.



©Alexandre Rodrigues 2012

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Sabes o que me irrita?





Irritas-me tu quando deixas tudo de pantanas e te vais embora como se nada fosse. E voltas como se nada fosse, e parece que não tens olhos na cara para ver a desarrumação que fazes e como isso me impede de pensar direito. 

Irrita-me ele, aquele tipo que nunca me viu na vida e já acha que pode ter certas “liberdades” comigo. Apanhei muitos assim, há muitos anos quando ainda era um jovem-adulto (outra palavra que me irrita) e eles mais velhos, achavam que só por isso achavam que tinham andado comigo à escola.  

Irrita-me nós quando deixamos de ter conversa. No café, assim a olhar um para o outro, ou para o café e ficamos em silêncio. Como se fossemos os dois estranhos no primeiro dia em que nos conhecemos. Como se todas as conversas de todos os homens de todo o mundo, de repente tivessem acabado e só sobram as borras do café.

Irritam-me vocês quando falam todos ao mesmo tempo e em voz alta, em lugares fechados, e eu deixo de me conseguir ouvir a pensar. Calem-se por um minuto. Que desorganização vocal. Parece que deixo de raciocinar. Nessas alturas só me apetece desaparecer, ir para o meio de uma caverna onde a única coisa que ecoa é o som das minhas ideias a esvoaçar. 

Irritam-me eles, as pessoas que se acham mais que os outros, como se estivessem acima da “lama” que somos todos nós. Como se não fossem eles próprios “lama”, da mesma lama da qual fomos todos criados. Lá porque têm uma educação “assim”, e nós plebeus temos uma educação “assado”. Irrita-me o “nós” e os “eles”. Puta que os pariu a todos!!

Sabes o que me irrita? Ter de me irritar!

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Quis Primaveras Em Março




Naqueles tempos do sonho quis Primaveras em Março,

Mas apenas colhi, junto à suspensa margem,
As certezas de um Inverno que me consumia na voragem.

Jurei desistir daquela ideia, que me aniquilava os dias
Não querer saber mais das Primaveras, nem do pasto que o anho come.
Afinal era apenas eu que me embriagava para saciar uma ilusão de fome.

Errei por cima do rio durante anos de inexistência,
À espera que o gelo fino de cristal que nos separou se partisse
Para que, sem nada que me abotoasse àquela vida sem sentido, sucumbisse.

Soltei as amarras que me reduziam àquele velho e desengonçado cais,
Aventurei-me pela bruma desconhecida, meio à deriva até ao setentrião,
Onde a planície se desenrola debaixo de uma chuva velha e o vento morde como um cão.

Assim que me redescobri na verdade dos horizontes longínquos, dei sentido à vida,
De ideias, sonhos e fábulas criei o meu pequeno mundo,
Onde imaginava ser feliz, mas perdurava magoado, sem Primaveras no fundo.

Bebi vãs alegrias para esquecer aqueles tempos do sonho,
Coroados que eram de pesadelos, e só assim por vezes conseguia escapar.
Que a Primavera às vezes é fria e as flores no chão demoram muito a desabrochar.

Tal como a ovelha, distraída segue julgando que consegue comer o mundo.
Mas continua infinitamente de olhos postos no seu próprio chão,
À procura da erva mais verde, entre o azul desse deslumbrante mar e o cinza pálido do betão.

Dos seus objectivos secretos, das dúvidas, anseios e culpas,
Um dia espero descobrir, sentado na suspensa margem, atento à explicação;
Porque me roubou ela Primaveras, porque nunca fomos os dois, amor quente de Verão.

©Alexandre Rodrigues 2012