Número total de visualizações de páginas

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Rum e Cigarrilhas






As margaridas já murcharam
As rosas morreram 

Torci um pé
Torci a vida
E tal como o pé torcido, recuperei.

Cigarrilhas e sexo duram o mesmo tempo.
Rum e cigarrilhas ajudam-me a pensar
O sexo não. 



© Alexandre Alves-Rodrigues 2015

quarta-feira, 15 de abril de 2015

O AFOGADO


Muito, mas mesmo muito humilde homenagem ao mestre García Marquez.



 
Theodore Gericault. Cabeça de Afogado, 1819


Aquele mar transido de infortúnios e loucura tinha lançado à costa daquela ilha desterrada, mais um náufrago. Vinha coberto de algas e tinha na pele esbranquiçada uma crosta grossa de cracas que eram atapetadas aqui e ali por ouriços e estrelas-do-mar. Numa das orelhas, um caranguejo eremita velho e caduco, que a confundira com uma casca de gastrópode abandonada e ali fizera habitação. O náufrago tinha o semblante triste dos melancólicos e no entanto continuava vivo, pois quando lhe abriram os olhos estes refletiram o fundo do mar e tudo aquilo que vislumbrara.

Fora descoberto no areal por sete pescadores tão loucos como valentes que se preparavam para enfrentar um mar inóspito na esperança de trazer algo que comer; a fome dolorosa era o veículo da sua insensatez. Disfarçando medo com coragem, iam confundindo assim os outros habitantes daquele porto, um aglomerado de casas abarracadas construídas com os despojos que o mar vomitava junto ao areal branco.

O náufrago, por ter os olhos vivos, foi levado pelos pescadores para uma das casas, onde toda a aldeia se reuniu com espanto e curiosidade pois nunca tinham visto nada semelhante. Parecia ter estado no fundo do mar muitos anos, a julgar pela quantidade de crostas, mas debaixo daquela fauna e flora estava intacto. E vivo. Quando acordou, olhou em volta e viu que a aldeia inteira se arrepiou, exclamando um ah em uníssono, contraindo-se e baloiçando como se fossem anémonas assustadas ao sabor da ondulação submarina. Quem era aquela gente e o que estava ele ali a fazer? A última coisa de que se lembrava era a cidade submersa onde os afogados viviam e onde ele fora parar depois de se ter despenhado de uma falésia antiga por causa de desamores. Na cidade submersa os mortos tentavam continuar o que deixaram inacabado em terra, mas desesperavam porque lhes faltavam as mulheres amadas, as amantes, os filhos bastardos órfãos, os negócios ruinosos ou os infortúnios da vida, enterrados no fundo de um quintal. 

Quando a aldeia se assegurou que estava mesmo vivo, limparam-lhe as algas, as cracas, os ouriços e as estrelas-do-mar, cozinharam-nas como puderam e fizeram uma festa em honra daquele estranho que lhes trouxera alimento e o milagre de estar vivo depois de tantos anos afogado. Os homens abraçaram-no e as mulheres beijaram aquele belo estranho que no entanto, depois da festa, foi de novo atirado ao mar com sete pedras amarradas ao pescoço e aos pés. Tudo por crendice dos velhos da aldeia que não queriam mortos a andar no meio da sua aldeia, assustando as crianças e despertando nas mulheres estranhos humores. Até porque nos dias em que pernoitou naquele fim-de-mundo de gente louca e desesperada, a Lua tingira-se de vermelho.

© Alexandre Alves-Rodrigues 2015

quarta-feira, 18 de março de 2015

Envelhecer é isto







Os dias são brutos e começam com os alvores da madrugada. O corpo está cansado de dormir. Começa, inquieto, a ranger de dores. Já sabe de cor o pequeno-almoço, o desbotamento dos pratos, o gosto manteiga e do café com leite. O pão deixou de ter paladar. É sempre o mesmo. O alvorecer não traz novidades. 
 

O elétrico sempre apinhado e o comboio recebe-nos com os assentos já cansados. A cor do autocarro já enjoa. Os nomes das pessoas vão sendo consumidos pelo uso e por isso esquecemo-nos deles. Invejamos os jovens, porque não ponderam a velhice. Estão demasiado ocupados a ser jovens e julgam que vivem para sempre. 



As mesas e cadeiras dos cafés têm as pernas gastas pelo tempo. Começam a dar de si onde antes tudo tinha ar de novidade e era limpo. As lojas seguem-se umas às outras em passo acelerado. Penhores, um supermercado, ou uma casa de apostas. Não se pára p'ra contemplar. 


Os manequins dos grandes armazéns estão nus. As cores das montras sucedem-se; os vestidos amarelos condizem com a última novidade em almofadas. Não há pachorra para modas. Dantes só existiam duas estações: Verão e Inverno. Agora são as quatro estações mais o S. Valentim e o dia das mães, dos pais, o Halloween, o Natal, o Ano-Novo e mais desculpas para vender. 
 _________________________________________________

Olho para o reflexo das montras que passam e vejo alguém a meio da sua viagem. Levo algum tempo a descortinar quem é. Aquele espectro fixa o olhar em mim. Não me reconheço por fora. Decerto não sou eu por dentro.

 E leio os mesmos livros várias vezes, e de cada vez que os acabo fico surpreendido pelo final. Da vida é tão difícil recordarmo-nos de tudo. Especialmente dos momentos felizes. Os traumas ficam para sempre tatuados no coração. E tem-se menos medo dos estranhos que daqueles que nos são próximos.
 



©2015 Alexandre Alves-Rodrigues