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domingo, 26 de julho de 2015

O Voo do Sonhador








Sonhei um sonho misterioso,
Assaz, tão estranho quanto invulgar,
Arcano, pois sim
Aquilo que venho aqui narrar;



Aproximo-me das águas de um pequeno lago
Como que pairando do plúmbeo firmamento.
Águas de verde límpido, saudável,
Velando um terrível arroubamento.

E abeirando-me, fisionomia humana se distingue.
No fundo saibroso, sereno dorme repousado,
Um varão, de corpo longo e estendido,  
Um longuíssimo sono de afogado.

E antes que que lhe distingua as feições…

Sem dar notícia, tão veloz como num susto,
O homem a dormir em minha vista se putrefaz
E aceleradamente se transforma em carcaça
De lodo e algas velhas coberto agora jaz.

E é neste momento de crescendo horror
Que a luz da terrível imagem se faz mudar
O lago numa poça parada se metamorfoseia
Salobra no meio de minha sala de jantar.

Ao olhar em redor vejo, em ruínas.
A sala abandonada de muitos anos centos,
E ao olhar para cima a luz plúmbea atravessa
Num canto as tábuas onde antes meus aposentos.

E nos quadros da parede reproduções das ossadas
Onde antecedentemente fotografias de mim,
Só então sereno compreendi quem era ali,
O meu esqueleto coberto de lodo jazia, assim. 


© 2015 Alexandre Alves-Rodrigues

quinta-feira, 4 de junho de 2015

QUANDO EU MORRER






Quando eu morrer meu amor, diz ao vento que não pare de soprar. E que leve as novas da minha morte aos profetas que a anteviram. Assim compreenderão que as suas profecias se cumpriram no meu último dia. Quando eu morrer meu amor, não te assustes, olha bem para o alto e escuta o rumor das árvores; o seu lenho fará do meu esquife berço, as suas folhas manto e mortalha. O seu restolhar embalará a noite eterna. Quando eu morrer não te aflijas, juro-te que ficarei bem. O céu permanecerá azul e a andorinha fará ninho na sua mocidade.

Quando eu morrer, ri, ri muito. E ri-te de mim também, porque não te sobrevivi. Só desta vez fui eu quem se espraiou primeiro. E não te esqueças de dizer às marés que não parem de subir e descer para que as rosas mal-amadas se lembrem de quem negaram. Quando eu morrer, não enlouqueças. Espalha as minhas cinzas pelo sul da Serra, para que eu possa contemplar todos os dias a aurora, o resplendor e o pôr-do-sol na imensidão do oceano. Que o meu túmulo continue a ser altar de amantes.

Quando eu morrer não deixes que a dor da minha ausência tome conta da tua juventude; o tempo virá cobrar os dias perdidos e o ressentimento tomará conta de ti. Quando eu morrer, diz à chuva que não deixe de cair, para que as suas gotas lavem as tuas lágrimas e te humedeçam o corpo para que não seque. Quando eu morrer deixa que a brisa do mar te olvide de mim e o chamamento das grandes paisagens te guie para o futuro meu amor, quando eu morrer.

© 2015 Alexandre Alves-Rodrigues