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quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Faço Hoje Trinta e Nove Anos de Idade



 
Tom Waits - I Don't Wanna Grow Up.

Faço hoje trinta e nove anos . A mesma idade que o meu pai tinha quando nasci. O meu filho tem quase quatro anos. Ainda me lembro quando o meu pai fez cinquenta. Eu tinha dez anos e meio e achava-o muito velho. Os meus irmãos têm quase cinquenta e eu vejo-os com vinte e poucos anos. Não me cabe na cabeça que tenham quase a mesma idade que o meu pai tinha quando eu tinha dez anos e meio. Quando o meu pai fez cinquenta anos de idade convidou todos os seus irmãos. Pareciam-me todos muito altos. Quando se tem onze anos todos os adultos nos parecem altos, até os mais baixos. Quando se tem quinze já não é bem assim. Pouco tempo depois do aniversário do meu pai, o meu tio Jacinto faleceu. Num hospital em Lisboa. Qualquer coisa nos pulmões. Não sei se cancro ou outra doença qualquer. Fumava muito e trabalhava na fábrica do cimento, respirava muito pó. O pó do cimento é quase tão mortífero como o tabaco. De todos os quatro irmãos do meu pai já só resta um, o mais novo. E o meu pai, claro. Faz-me confusão envelhecer. Conheço pessoas que têm sessenta anos, lembro-me de terem trinta quando as conheci. Não eram assim tão velhas. Hoje são. Quando as conheci teria dez ou onze anos de idade, o meu pai tinha cinquenta. Para o ano faço quarenta. Quando eu fizer cinquenta anos o meu filho terá treze. Com treze anos começa-se a adolescência. Eu começarei a terceira idade. A minha adolescência começou aos treze, numa escola secundária provisória na minha cidade natal. Andava à pancada quase todos os dias. Quase todos os dias perdia. Apaixonei-me por uma miúda do mesmo ano que eu mas de outra turma. Apanhávamos o mesmo autocarro todos os dias. Tinha um cabelo muito bonito, com caracóis de um louro escuro e um nariz aquilino. Chamava-se Sílvia. Depois disso nunca mais a vi. Apaixonei-me por outra miúda. Continuei a perder.

Sempre gostei de comparar idades. A maior parte dos meus amigos de infância nasceu em 1977. O Nuno, a Ana Raquel, a Ana Rute e a Marisa. Com excepção da minha prima Cláudia, 1974, eu era o mais velho. Ah, e a Rute, irmã da Ana Raquel, que nasceu no mesmo ano que eu. A Mara e a Priscila nasceram em 1976. Todos os outros que eram mais velhos que nós, nasceram antes de 1973. Eram, na minha visão infantil, muito mais velhos. Pertenciam a outra geração. Todos os que nasceram de 1978 em diante eram demasiado pequenos para serem meus amigos. A adolescência quebra estas barreiras todas. Primeiro foram os mais velhos, gente porreira afinal, que me ensinou muito do que sou; o Jónatas, o Pedro, o João, a Mena, a Vanda, a Cristina, a minha prima Sara e muitos, muitos outros. Todos nascidos entre 1970 e 1973. Mais tarde comecei a dar mais importância aos mais novos quando começaram a crescer. As minhas duas primas Miriam, o meu primo Paulo, o Israel e a Daniela. Todos nascidos entre 1978 e 1981. Ainda me lembro deles tão pequenitos a correrem atrás uns dos outros na Igreja, ao final das manhãs de Domingo. Quando se é pequeno, as idades fazem tanta diferença. Quando se tem trinta e nove anos não. Já não distingo uma mulher de vinte e cinco de uma de trinta e cinco. Ou de uma de quarenta e cinco. Poderia namorar com qualquer uma delas que não me importaria. A minha mulher, nascida em 1979, sim. Mas por outras razões que não a idade.

Deprime-me cada novo ano lectivo que começa. Eu cada vez mais velho e os alunos do primeiro ano cada vez mais novos. Parecem-me sempre os mesmos dos anos anteriores. Eles ainda borbulhentos e desengonçados, réstias de adolescências mal passadas, elas ainda a querer parecer mais velhas, mas traídas pelo olhar púbere a tentarem equilibrar-se nos saltos altos das mães. Depois mudam. A partir do segundo ano, aos vinte de idade, já começam a parecer mais aprumados, os mais maduros a largar as roupas tribais, a assiduidade nas festas é trocada pela das aulas, e já começam a planear empregos, casa e vida conjunta, prestes a apanharem o autocarro da idade adulta que os levará céleres, a todos, até à meia-idade, por montes alegres e vales deprimentes. O que eu aprendi da vida? Nada. Apenas que se morre no fim.

© 2014 Alexandre Alves-Rodrigues

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Manhã de nevoeiro



                   
São estas as manhãs de nevoeiro, as que me acordam e fazem-me sentir nostálgico. A janela grande de sacada, traz-me de longe uma luz meridional antiga, que irrompe de mansinho, penetrando nuvens, fogo e água. 

São estas as manhãs onde de repente nos apercebemos que o tempo foge, que somos limitados e limitantes. Que não somos imortais, nem aqui ou em lado algum, presente ou futuro. Não temos dono, nem algoz. Somos parte de um mesmo universo.

O Sol ilumina as árvores, neste Setembro outonal, de luz oblíqua e sombras alongadas, dourando ainda mais as folhas caídas. E o orvalho matinal cobre de humidade o que resta do verde dos dias quentes. 

O universo recicla-se nesta escala tão pequena quanto limitada. Afinal somos poeira de estrelas, infinitamente reciclada, construída e destruída a uma escala tão atómica quanto gigantesca, inimaginável. 

E é sob esta luz diáfana e filtrada pelo nevoeiro que aprendemos a vida. E a reconhecer que somos limitados, em força e tempo. A vida que conhecemos tem de ser aproveitada, tem de ser útil. Mesmo que isso pareça o contrário aos olhos de todos. Somos donos do nosso próprio destino, do nosso paraíso. E do nosso inferno.

 Temos de nos realizar pessoalmente antes que seja tarde demais. Antes que o tempo apague a nossa frágil memória e o pó das centúrias apague a nossa memória das memórias futuras. O vento sopra nas árvores e as folhas caem. No chão desfazem-se em poeira, serão nova vida, novos elementos, nova matéria. Os mesmos átomos. São assim, as minhas manhãs de nevoeiro.


© 2014 Alexandre Alves-Rodrigues

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

As Dores





Eu sabia bem o que queria
Mas não sabia como querer
Eu sabia olhar para a tua beleza
Mas não te sabia dizer

E por vezes parecia fingir não querer,
Que eu padecia de muitas dores
Dores que o mundo não quis saber
São essas, as dos primeiros amores.

E lutei durante anos querendo-te,
Sem ter a certeza de te querer
Afinal eu sabia o queria
Tu, mulher, supremo prazer