O tio Felisberto e o autor. Circa 1982 |
O meu tio Felisberto era um personagem único
na família. Um daqueles cromos especiais que ficam para sempre colados na
caderneta que são as nossas melhores memórias. O tio Felisberto não era bem meu
tio, ou melhor, era-o por casamento com a irmã mais velha do meu pai. Nunca
tiveram filhos em conjunto, e apesar de ele os ter tido fruto do seu primeiro
casamento, os sobrinhos da minha tia, em especial os mais velhos, foram o
melhor substituto que eles arranjaram para a ausência de uma prole. De tal modo
que o meu tio Felisberto, nascido em Santiago do Cacém nos anos vinte do século
passado e mais conhecido como o “Lisboa”, talvez por lá ter vivido uma boa
parte da sua vida e ter absorvido o sotaque alfacinha, era presença habitual
nos aniversários de todos nós.
O tio Felisberto, era de estatura mediana e
compleição latina Quando colocava os seus óculos Ray-Ban Wayfarer e camisa com
os dois primeiros botões abertos ficava com ar de italiano cinquentão, algures
entre o Enzo Ferrari e o Dean Martin em versão marialva. Lembro-me dele
trabalhar na oficina do concessionário FIAT em Setúbal, apesar de nunca ter
tirado a carta nem conduzir até muito mais tarde. E era sempre num dos cafés à
entrada para o Bairro Carmona que o encontrávamos aos Sábados à tarde quando o
visitávamos. Lá estava sentado a beber o seu copo de vinho e a fumar os Português
Suave da praxe, em discussões futebolísticas com os seus camaradas de copos.
Quando nos via, pagava sempre uma pastilha ou um gelado.
O tio Felisberto tinha um humor típico das
pessoas da sua geração, muito António Silva e Vasco Santana, mas mais brejeiro.
Uma das suas cenas mais cómicas era quando os visitávamos em casa e a minha
tia, de corpo bastante anafado e dura de ouvido, sentia alguma dificuldade em
passar pela sala exígua enquanto nos servia um lanche composto de chá e
deliciosos bolinhos feitos por si. Ao que o meu tio murmurava: “oh senhor, está
cada vez mais gorda”. E ela, ou não percebendo, ou fingindo que não percebia,
perguntava-lhe: o que é que queres, tu? E ele fazendo um biquinho com a boca
respondia-lhe, nada meu amor, minha querida! Depois sorria trocista para nós a
piscar o olho, enquanto a minha tia se refugiava na cozinha resmungando. Nós,
crianças de calções e vestidinhos dávamos risadinhas, perdidos com todo aquele
arengar de certo modo ternurento que se repetia de cada vez que os visitávamos.
Era lendária na família a sua inigualável
capacidade de, já um pouco ébrio pelo néctar dos deuses, o seu favorito,
conseguir cantar os parabéns em jeito de fado, dando entoação vibrada às
primeiras letras de cada linha dessa ubíqua canção, arrancando gargalhadas de
todos os presentes, especialmente dos sobrinhos, que ou se engasgavam com os
sumos ou paravam de cantar de todo porque já lhes doía a barriga de tanto rir
com o caos que o tio Felisberto causava e que a minha tia, coitada, tentava em
vão impedir, ralhando com ele como se fazem com as crianças, tendo em nós o
efeito de nos fazer rir ainda mais de toda aquela farsa cómica.
Até que um dia aquela alegria se foi num
instante quando lhe foi diagnosticado a doença que ele mais temia de todas e
que já lhe tinha levado o irmão, um cancro terminal que acabou com ele em menos
de três meses, num dia de Outubro de mil novecentos e noventa e seis, e que nos
levou de volta a Santiago do Cacém, ao cemitério do castelo para nos
despedirmos dele. Os sobrinhos de quem ele tanto gostava lá estavam, trocando
uns com os outros lembranças das suas peripécias e agastaduras que causava à
esposa, vítima das suas traquinices, e que nesse triste dia, ao contrário de
alguns presentes, soube manter a compostura e dignidade até ao momento em que o
ruido cavo da terra em pazadas ia cobrindo o caixão, tendo desabafado um triste
e choroso “o que é que eu vou fazer sem ele?” O que é que nós iriamos fazer sem
o Tio Felisberto? E sentimo-nos todos culpados por não lhe fazer o último
desejo, que era o de levar um “palhinhas” com ele para o túmulo. Ele que nos
alegrou tanto com a sua presença bem-disposta nas visitas de Sábado à tarde e
nos nossos aniversários.
A minha
tia sobreviveu-lhe quatro meses. Os aniversários em família, esses nunca mais
foram os mesmos.
©2013 Alexandre Alves-Rodrigues
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