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sexta-feira, 1 de março de 2013

Férias em Malta - 6ª e últíma parte.




VI

Carlos acordou no chão de cimento do cárcere da esquadra de Policia para onde tinha sido levado junto com a namorada. Esta encontrava-se a dar os últimos dados ao agente Galdes que, lentamente  e de maneira enervante com apenas um dos indicadores, pois era o único dedo que tinha na mão direita depois de um acidente com uma pistola de fabrico paquistanês, martelava no teclado do computador; Poc… poc… … … poc, poc… poc… … … … poc. 


- E como se soletra Chávenas? Perguntou o agente.
- Pela sétima vez, C-H-A-Assento agudo no A-V-…
- Assento agudo no A? Mas eu não tenho assento para o A no meu computador. Isto veio importado da China através de um agente turco que os envia pela Bulgária para o Reino Unido, e a nossa Policia importa de lá através de um acordo com a “Garda” da Irlanda do Norte. Além disso só consigo carregar numa tecla de cada vez - queixava-se – E para adicionar insulto à injúria, nem consigo fazer as maiúsculas!
- V-E-N-A-S. Continuava Inês, suspirando de enfado. 
- Vocês portugueses também é só assentos e tils e sei lá que mais. 
- Também quer contribuir para o acordo ortográfico, senhor agente? Rosnou exasperada a rapariga.
- Eu não me quero meter nessas coisas. Sabe, tenho muito com que me preocupar aqui por Malta. Respondeu o polícia.
- Não duvido. Computadores, então, devem ser uma dor de cabeça para si. Ironizou Inês de novo.
- Nem me fale nisso. Quando já estava a aprender a colocar papel na máquina de escrever, pimba, tiram-ma da secretária e colocam isto na minha frente. Já lá vão quase quinze anos e ainda tenho medo de mexer nestas coisas. 
- Pois, já deu para perceber. Disse Inês, contendo a vontade de esganar o agente da ordem.
- E com esta conversa toda já me perdi. Onde é que nós íamos? Perguntou Galdes.


Entretanto, Carlos, que tinha acordado, fora ajudado a levantar-se do chão pelo seu colega de cela, um siciliano de nome Salvattore Mandanici também ele acusado de posse de droga e arma de fogo que tratou de explicar ao português, ainda baralhado por causa da contusão, que este se encontrava preso num posto de Polícia em Malta.
Carlos ficou preocupadíssimo porque iria perder o voo de volta a casa, mas acima de tudo com o que iriam pensar dele quando soubessem da sua prisão por posse de droga. Ele que nunca tinha tocado em tal coisa. E que terrível desgosto iria dar à sua pobre mãe. O siciliano, emocionado ao ouvir as palavras desgosto e mãe na mesma frase, colocava as palmas das mãos uma na outra e abanava-as para a frente e para trás enquanto as lágrimas lhe escorriam pela face entristecida. Ainda de voz embargada comentou baixinho com Carlos: 


- Amigo, esta noite sais daqui comigo. Eu ajudo-te a fugir, ou não me chame Salvattore Mandancini, dos Mandancini de Messina, Sicília. Mãe alguma deve sofrer o desgosto de ter um filho preso. Eu sei bem o que isso é porque quatro dos meus irmãos estão presos em Itália junto com o meu pai, apenas porque temos um negócio familiar e não fazíamos mal a ninguém. Excepto aos invejosos dos Condrò que nos denunciaram, depois de termos ajustado contas com um deles por causa de umas lojas na nossa cidade. Tenho tudo planeado – continuou ele – a fuga, um barco à espera na costa, e zarpamos daqui para fora. O barco é russo, vem de fazer umas entregas de víveres na Líbia e na Síria e vai passar por Malta esta noite, a caminho da Rússia passando ao largo de Portugal. O que me dizes? 


- E a minha namorada? Perguntou Carlos um pouco nervoso.
- Queres que me livre dela? Se quiseres, arranja-se mas tens de pagar porque é um serviço à parte.
- Não, não! Exclamou Carlos amedrontado. Ela vai connosco. Só não sei onde ela está.
- Guarda!! Guarda!! Gritou muito alto o siciliano. 


Alguns momentos depois aparece um maltês gordíssimo e muito esbaforido.


- Ah, és tu Zampa - Disse o siciliano que conhecia mais de metade dos polícias da ilha - Sabes onde pára a namorada aqui do português? O rapaz está preocupado com a miúda. 
- Está a prestar declarações ao Galdes. Já sabes como é. Está para durar… Mas assim que acabar, pode visitar o rapaz. Isto se também não for presa.


Mais tarde, muito mais tarde, Inês veio visitar Carlos que lhe explicou come se processaria a fuga. Inês, apesar da apreensão inicial, concordou. Afinal sempre seria melhor do que passar o resto da existência a fazer declarações ao agente Galdes que só lhes conseguiu sacar as identidades ao fim de três horas a matraquear no computador com um dedo. Combinaram então encontrar-se na praia de Anchor Bay, onde o siciliano já tinha um homem à espera que os levasse de barco até ao navio russo. 


Nessa noite, um dos comparsas do siciliano entrou embuçado pela esquadra dentro, armado de gás lacrimogéneo e facilmente manietou os agentes que se encontravam de serviço, o gordo e o maneta. O maneta Galdes continuara a teclar lentamente sem ter dado conta do incidente até que o atacante lhe apontou a pistola-metralhadora e lhe gritou que largasse o computador imediatamente ou levava chumbo. Depois de devidamente sedados para não darem o alarme à restante corporação e permitir uns bons minutos ou horas de avanço aos fugitivos, os sicilianos e Carlos dirigiram-se à praia de Anchor Bay, a poucos metros da esquadra, onde se encontraram primeiro com Inês e, um pouco mais tarde com o marinheiro que os havia de levar até ao navio russo. O marinheiro não era outro senão o sujeito dos braços desproporcionados, comedor de vegetais enlatados e vendedor de souvenirs que ficou muito surpreendido de ver aqueles dois turistas ali juntos com Salvattore.


- Eh àgorra! Vierrem todes da choldrra, e irrem todes de escantilhão prr’ó navie do russe! Apá Mandancini, só m’arranjas é encmendas destas!
- Cala-te e rema! Foi a ordem do siciliano para o marinheiro belga, enquanto lhe pagava com latas de couves lombardas trazidas numa mochila pelo sócio embuçado do siciliano, que mais não era que o seu primo Giovanni Mandancini, mandado pelos irmãos e pai do Messinense para o libertar.


A proa do navio já se avistava quando do pequeno barco a remos, Mandancini fez sinais de luz com a sua lanterna portátil. Da ponte do Aкула uma luz respondeu ao código. Momentos depois uma escada de corda foi desenrolada da amurada e os três fugitivos subiram até ao convés não sem antes se despedirem do marinheiro belga, que enviou cumprimentos ao seu amigo Toni dos Besugos, pescador da Póvoa do Varzim.


- Dobro pozhalovat! Ouviu-se imediatamente do convés do navio, tendo um homem de porte atlético e bastante alto, primeiro osculado Salvattore na boca, para depois o abraçar com alguma violência


- Grazie mille, komandhir. Retorquiu Salvattore ao russo.
- E pra qyéque trazes aí essyes doiys? Pode sáber-se?
- O rapaz estava na minha cela em Malta, e estava desesperado porque um brutamontes em Anchor Bay lhe enfiou um saco de coca no bolso sem ele dar por isso. Chama-se Carlos e é português. Veio visitar Malta com a namorada e meteu-se em sarilhos.
- Da! Não mye dyigas que foi matyerial daquyele que trouxyemos de Amyérica do Sul? Disse o comandante, dando imediatamente uma gargalhada.
- Pois é. Disse Salvattore encolhendo os ombros. O brutamontes do teu ex-marujo maltês andou numa refrega aqui com estes nossos amigos.
- Essye melyiante ayinda me deve dyez myil roublos dye un jogo de Pyoker! Se o apanho a jeyito…
- Já sei, já sei, fazes o mesmo que fizeste aos piratas somalis… Disse Mandancini enfastiado.
- Pyelas barbas de Karl Marx!! Gritou apopléctico. Nyet sobrou nenhyum!! Muahahaha! Gargalhava o marujo com malvadez nos olhos coruscantes. Um charuto de dyinamyite naquelas bocas e PUM!! Nyet pyiratas! Ou eu não mye chame Serguey Joseph Ulyianovytch! Disse enquanto brandia o punho fechado da mão esquerda. Que quyeres yentão qyue faça com estes duois?
- Se os puderes deixar em Portugal… É a caminho…- Disse o siciliano a medo – Dava jeito…


Nesse momento, o comandante pegou em Salvattore pelo braço e levou-o para um canto à parte, onde os dois continuaram a conversar, desta vez em voz baixa.


- E o quye é que Serguey ganha com yisso? Serguey tem de ser recompyensado pelo trabalhyinho. Sabes que Serguey não vai a Portugal desde 1975, quando fazyia serviço turyístyico desde Praça Lubyanka em Moscva, até Rua Soeiro Pereira Gomes em Lyisboa - Disse o russo enquanto piscava o olho ao siciliano que ficou com ar de quem não tinha percebido nada – Serguey  era um jovem nesses bons tyempos!! Aguora sou “persona non-grata”, pelas barbas de Fidyel Castro! Disse com algum azedume.
- Alguma coisa se poderá arranjar, até porque o português também me deve a ajuda para sair da prisão. Retorquiu muito naturalmente o siciliano.
- Bem, Serguey precyisa de montar empryesa para lavagem de dyinheiro. Isto de enviar “víveres” para Lyibiya e Syiryia não vai durar para syempre, mas é bem pago e Suiça já não é opção para colocar lucros de operações.
- Eu também tenho alguma “roupa para lavar”, disse o siciliano piscando olho ao russo. Negócios de família, se é que me entendes… Podíamos montar negocio juntos ó Serguey, o que achas?
- Em Portugal, pela barbicha de Vladiymyir Ilyitch Lenine!! Disse o russo entusiasmadíssimo.
- Claro! Queres melhor sitio? Disse o italiano encolhendo os ombros e colocando os polegares de ambas as mãos de encontro aos outros dedos, fazendo balançar os punhos.
- E colocamos aqui o teu amyigo como testa-de-ferro. Nyinguém vai suspeyitar de nada, pelo byigode de Joseph Stalin!! Eheheheh!
- E com um sistema legal mais furado que uma peneira, leis mais laxistas que as de uma República das Bananas e um poder executivo mais corrupto que um gangster albanês, vai ser canja! Exclamava o mafioso siciliano.
- Ayinda o fazem candyidato a uma câmara munyicyipal!! Ou dyeputado!! Muahahahah, pelas sobrancelhyas de Álvaro Cunhal!! Ria-se o russo quase como uma criança entusiasmada.
- Tem de ter sede na ilha da Madeira - Avisou o siciliano em tom mais sério - Na zona franca.
- Claro – concordou o russo – Tudo dyentro da lyegalyidade. Não qyeremos problyemas com nyinguém. Fazemos tal qual os gyestores portugueses. Dyiscrição absoluta. Tudo muyito opaco, como manda a lei em Portugal.
- Mas há uma coisa ó Serguey. Que tipo de negócio?
- Syimples! Bustos! Atirou o russo muito naturlamente.
- Bustos!? Indagou o siciliano muito espantado.
-Da!! Bustos de Lenine, Stalin, Andropov, Castro, Ho Chi Min e até do Kim Il-sung. E matryoskas também. Vyendemos quase tudo na festa do Avante, e o que sobrar, oferece-se como gyesto de boa vontade internacional aos autarcas alyentejanos cuomunyistas.
- Genial ó Serguey!! Não sei como te lembras destas coisas!!
- Não te esquyeças que eu fazia serviços turyistyicos em 1975…
- Já sei, já sei, entre a Praça Lubyianka e a Rua Soeiro Pereira Gomes...
- E vyice-versa – disse o russo arregalando os olhos – E até já tenho um nuome para empryesa de bustos.
- E qual é? Perguntou Salvattore.
- E Pra Qyué Que Lyeva Aí Yesse Buste?
- Quem? Eu!? Espantou-se o italiano.
- Nyet! Idyotta! É o nuome de empresa de bustos.
- Ah! Genial – Aplaudiu o siciliano – Mas temos de convencer ali o nosso amigo a entrar no negócio.
- Iysso Serguey deixa para com Salvattore. Afyinal estás a dever-me essa. Nyet era suoposto trazer convyidados para o meu barco. E Serguey confyia no teu “poder de persuasão” e “charme” italyiano.


Não terá sido preciso muito para convencer Carlos e Inês a entrar no negócio. Afinal Salvattore apenas lhes explicou que seriam sócios de uma empresa de import-export de bustos e matrioskas russos, ficando este e o russo Serguey como sócios-sombra por razões “burocráticas”.
Dois dias depois, um barco pesqueiro português, combinado com o russo, veio buscar o casal ao largo da costa portuguesa. Era a traineira “Imperador” de Tozé dos Besugos. Tendo este sabido que os dois portugueses tinham estado em Malta, quis saber novidades do seu velho amigo marinheiro dinamarquês cuja descrição coincidia com a do esmurrador de souvenirs de braços desproporcionados.


- Dinamarquês!? Perguntaram Carlos e Inês muito espantados?
- Sim! Dinamarquês de Frederikshavn! Então num se bia luogo pelo sotaque!? Carago! Gritou o pescador poveiro, meio enervado.

            
FIM


©Alexandre Rodrigues 2013

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Férias em Malta - 5ª Parte





V


Depois da operação, Carlos encontrava-se de pé enfaixado e amparado por duas muletas, tendo sido avisado por uma das enfermeiras que devia apenas evitar a areia das praias para não ganhar nenhuma infecção. O casal resolveu então ir a Anchor Bay, recomendada pelo recepcionista do hotel, onde foi-lhes dito, havia uma aldeia-cenário de um antigo filme de Holywood cujo personagem principal era um marinheiro de desproporcionados antebraços que só comia espinafres de lata e tinha uma namorada por demais subnutrida. Não se sabe se a subnutrição da sujeita era devia ao facto de não comer espinafres, vegetal monopolizado pelo marinheiro, ou se por usar substâncias psico-trópicas importadas clandestinamente da América do Sul pelo maior rival do namorado, que a tentava brutalmente seduzir, utilizando para tal as ditas substâncias de apsecto farinhento e branco. Certo era que se recusava terminantemente a comer os duvidosos hamburgueres do senhor Cobardolas que havia montado negócio em Anchor Bay depois de problemas que havia tido quando os dois marinheiros rivais, o dos antebraços e o brutamontes, resolveram abrir restaurantes do género, rivalizando entre si, roubando clientela um do outro tendo acabado em luta de comida, aproveitada então como activos sólidos e liquidos pelo senhor Cobardolas para abrir o seu próprio estabelecimento comercial aliás famosissimo na aldeia, talvez por ser o único, depois do desastre comercial que foram as venturas gastronómicas dos dois marinheiros rivais. 


Ao chegarem à aldeia, Carlos e Inês foram logo interceptados pelo marinheiro brutamontes que lhes tentou vender substancias ilegais de primeira classe. Carlos reparou que o brutamontes era parecido com a velhinha da escadaria da igreja que lhes vendera a falsa agenda com o lenço dentro, e rejeitando qualquer tipo de negócio com o sujeito, este ficou nitidamente mal-disposto, de tal modo que lhes atirou com algumas altercações menos elegantes, especialmente à namorada de Carlos que corou valentemente, mesmo estando fortemente bronzeada do sol da ilha de Malta e jurou vingança do casal.


Mais à frente, o famoso marinheiro dos antebraços desproporcionados, zarolho e de cachimbo nos beiços havia montado um espetáculo de rua para os turistas, que consisitia basicamente em largos e pesados objectos que eram atirados ao ar, esmurrados e transformados pelo mareante em “souvenirs” e posteriormente vendidos aos turistas. Um dos pontos altos deste espetáculo eram as ancoras de petroleiro compradas nas sucatas cingalesas de navios mercantes, que eram transformadas, pelo processo atrás descrito, em ferraduras com a inscrição “Tifkira ta ‘Malta”, isto depois de ter esmurrado um mastro em madeira de um veleiro françês em molas de roupa e uma chaminé de um transatlântico em anzóis de pesca. 


No final do espetáculo Carlos comprou algumas ferraduras para distribuir pelos amigos e familiares e entabulou conversa com o marinheiro que se queixou da falta de trabalho no mar, primeiro desde que os navios mercantes deixaram de aportar mais frequentemente na ilha para reabastecer, depois ainda se dedicou à pesca, mas desde que o país aderira à União Europeia as coisas estavam mesmo más e lá conseguia fazer algum dinehirito vendendo “souvenirs” e outras lembranças da ilha.

- Então de onde são? Indagou o marujo enquanto reacendia o cachimbo, chupando ar que fazia assobiar o aparato e que entretanto começara a fumegar.
- De Portugal. Disse Carlos.
- Ah sã perrtugueses!! Eh àgorra!! Nã aparrecem muntes de vocêzes perr aqui!! Disse em português e no mesmo sotaque setubalense do médico.
- Fala português? Indagou Inês cheia de curiosidade.
- Não me diga que aprendeu com médico do centro de saúde! Exclamou Carlos meio trocista.
- Quem!? O Costurrêro de Goze!? Ná, amigue!! Eu é que lh’ensinê tude!! Andê muntes anes à pesca do besugue da Póvoa do Varrzim. Bons tempes, amigue, bons tempes esses... Disse com alguma emoção. Tá viste aí p’lo sê pé que já o conheceu!!
- Ah, sim o doutor Scalpello... disse Carlos sem grande convicção e com alguma dor no pé. Então o senhor é que o pescador holandês que o médico me falou.
- Holandês, eu!? Nã amigue, ê cá sô belga, da Flandrres! Esse médique confunde tude. Tamém anda semp’ bêbade!
- Então é daí o sotaque. Gozou Carlos.
Quais sotaque? Mas ê fale com algum setaque!? Que’s verr este agorra veio p’rraqui p’a m’atentarr a mona!!
- Então e o filme de Hollywood não lhe rendeu nada? Perguntou Inês cheia de pena do marujo e desviando a convera.
- Nã filha! Aquile só serrviu prra darr dhnêrre a alguns. Apontava então para a cantina de Cobardolas. E a histórria c’os amarricanes contarrem da nha pessoa; é tude mentirra!! Ê cá nã come espinafrres de lata. É couve lombarrda!! Mentirroses!!
- Pronto deixe lá então. Acalmava Carlos o marinheiro. Então bom dia! Despediu-se.
- Adeuzinhe migas!! E se passarrem p’la Póvoa do Varrzim digam olá ó mê amigue Toni dos Besugues!!
- Fica prometido! Disse Inês já afastando-se e acenando ao marinheiro que agora entretinha uma família de turistas húngaros. 


O restaurante de Cobardolas encontrava-se cheio de turistas ingleses que viam ali naquele cantinho, um bocado de casa. Isto porque o famoso Cobardolas, era de origem inglesa, mais concretamente da cidade de Hull. No entanto, diziam as más linguas que Cobardolas, por causa do seu vicio no dito prato, que o fizera famoso, não fazia muito dinheiro com o negócio e tinha ordenados em atraso e pagamentos aos credores que já o ameaçavam com processos avultadíssimos em tribunal.
Inês e Carlos encontraram uma mesa vazia, mas ainda cheia dos restos de comida de uma imensa família de ingleses de Bradford. Quando digo imensa falo não no tamanho mas na quantidade. Além dos progenitores, eram mais quatro filhos e um casal de idosos que deveriam ser os avós. Viviam todos numa casa da câmara municipal, eram todos desempregados ou com actividades duvidosas, especialmente os mais novos, mas como é da praxe e graças à generosidade dos governos da coroa britânica em relação aos laxistas, recebiam um grande numero de benefícios, incluindo a renda da casa, a creche do mais pequeno ainda de colo, e até dizia-se as contas de telemóvel, mais os abonos dos quatro filhos. Como tal, ainda sobrava para umas viagens “low-cost” com tudo incluído num resort, mais as despesas no destino pagas pela reforma do casal de idosos reformados da defunta indústria têxtil do norte de Inglaterra.
Passado algum tempo lá foram servidos pela namorada do marinheiro, que se arrastava pelo recinto, com grandes olheiras, rugas a mais para suposta idade e com ar de grande enfado.

- Digam lá, fáxavor! Resmoneou a personagem.
- São dois “Super-Cobardolas” e duas latas de “Cola”. Pediu Carlos.
- É só!? Perguntou displicentemente,congelando um esgar de repulsa, pois estava habituada às grandes doses pedidas pelos turistas anglo-saxónicos, que por norma se gostam de empanturrar em comidas pouco menos que saudáveis e totalmente desaconselhadas pelos médicos, estes mais para evitar despesas de tratamentos cardiovasculares no serviço nacional de saúde, que por genuíno interesse pelo bem-estar dos cidadãos da velha Albion.

- É só, obrigado. Disse Inês com um leve sorriso.

A namorada do marujo lá se arrastou até à janela que dava para a cozinha e gritou a ordem de serviço.
Passados alguns minutos, sete e seis segundos, a senhora lá trouxe o pedido, indo o caminho todo a tossir para os hambúrgueres do casal que se entreolhava abismado. Devido à fome que traziam, os dois rapidamente deglutiram aquela mistela de pão, carne picada e alguns vegetais coberta com molho de tomate, maionese e pickles. 


Quando se levantaram, começaram a sentir a cabeça muito leve, a sentirem-se extremamente bem, eufóricos até, e resolveram sair para a rua dirigindo-se ao cais  onde o barco que os trouxera pela costa até Anchor Bay já os esperava. Mais uma vez foram abordados pelo brutamontes barbado, de voz rouca que lhes propôs a compra de substâncias ilegais. Carlos que depois da refeição tinha perdido o medo, empurrou o marujo de compleição bastante sólida, que por sua vez desferiu uma punhada no alto da cabeça do português tendo este ficado estendido no chão sem sentidos. Inês reagiu imediatamente pontapeando o galalau no meio das partes pudentes. Este, pegou na frágil figura pela cintura com uma mão apenas e atirou-a ao chão para cima do desmaiado namorado. Imediatamente, detrás de um poste de iluminação saiu um oficial da “Pulizija” que imediatamente algemou o par de namorados por desacato à ordem pública e por posse de substância ilegal, sub-repticiamente colocada no bolso de Carlos pelo sevandija agigantado.

©Alexandre Rodrigues 2013

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Férias em Malta - 4ª Parte


 
Carlos e Inês entraram no centro de saúde. Este encontrava-se completamente vazio com excepção de um grupo de quatro funcionários que entretinham o tédio jogando voleibol num campo improvisado na ampla sala de espera, cuja rede, que separava as duas equipas era um lençol dobrado e preso a dois suportes de soro fisiológico ligados a dois pacientes que serviam de árbitros da partida, muito maus diga-se, mais por desconhecerem as regras do jogo que pela sua limitada mobilidade e falta de vista de um deles que tinha deixado os óculos no ambulatório. Depois das formalidades oficiais hospitalares, e de algumas perguntas secas sobre o ferimento, tais como "porque é que caiu", ou "então não viu onde punha os pés", Carlos esperou cinco minutos e trinta e nove segundos até o chamarem para o consultório onde o médico, um homem baixo e atarracado mas de tronco rígido, mãos espessas, envergando uma camisa grossa aos quadrados por baixo da bata e botas de borracha nos pés, já o esperava. Carlos entregou o papel que lhe haviam dado na recepção. Os dedos do médico, demasiado grossos, não conseguiam apanhar o papel e por várias vezes o deixou cair no chão, amaldiçoando-o, usando uma linguagem rude própria de um lobo-do-mar. O médico acendeu um cigarro e colocou-o no canto da boca, fechando o olho por onde o fumo passava, enquanto esticava os braços para conseguir ler a minúscula letra da enfermeira recepcionista e disse, em português, com uma voz grossa de aguardente e tabaco:

- Pode-me segurrar o papel p'a ê conseguirre lerre, amigue? É c'us mês olhes já nã serrem o qui érrem dantes! disse ele em bom sotaque setubalense deixando Carlos boquiaberto.

Depois de várias tentativas para ler o documento, algumas tossidelas bronquicas, ameaços de escarros, e alguns murmúrios enquanto lia, finalmente disse:

-Mostre lá o pézinhe. Dexe lá ê verr'isse sacha'vorr.

Agarrou no pé já descalço de Carlos, deixou cair alguma cinza do cigarro no corte, tossiu e afirmou peremptório:

- Vou terr d’o operrar amigue. O corrte ‘tá infectade e abrriu. Temes d’desinfectarr isse e coserre, disse com os dentes muito cerrados num esgar de quem está com dores. E dizendo isto puxou o fumo do cigarro fazendo um ruído como quem sorve sopa. - Ma nã se prreocupe ahn, ê cá antes de serr médique fui pescadorr e cosi munta rede de pesca fininha . Foi a melhorr escola de medicina que tive! Ahua! Isse e abrrirr a barriga dos pêxes p'a lhes tirrarr as trripas! E interjectando expirou o fumo para a cara de Carlos.

Carlos sentiu um suor frio a percorrer-lhe as costas. À sua frente estava um profissional de medicina que mal conseguia agarrar um papel, imagine-se uma agulha! E que raio de tamanho de agulha conseguiria ele agarrar!? Já para não falar na absurda falta de vista.

- O doutor é português? Indagou.

- Nã, amigue! Maltês dos quatrre costades, e naturral da ilha de Goze, com munt'orrgulhe!! Aprrendi perrtuguês com um ex-clega pescadorre!

- De Setúbal? Perguntou Carlos levado pela lógica do sotaque sadino.

- Nã! Qual quê!! Holandês!! Nã se nota do sotaque? Disse apontando para a boca. Ê cá fale perrtuguês com setaque holandês! Esse mê ex-clega é que pescou munt’em Porrtugal. Duma trraineirra da Póvoa do Varrzim, no norrte do país.

Carlos decidiu não contradizer o médico, até porque na situação em que se encontrava não era ajuizado enervá-lo, tendo em conta que este o iria operar e aparentava ser daquelas pessoas cujo feitio ferve em pouca água.

- Prrontes! Volte lá parra a sala de esperra c’a gente já o chama, tá beim?

Carlos coxeou até à sala de espera e contou a Inês o sucedido. Esta retorquiu:

- Só espero que não tenhas de ficar muitos dias de cama, senão temos as férias estragadas.

- Penso que não. Respondeu Carlos por descargo de consciência, quando no fundo sentia-se preocupado com o desfechar deste episódio. No entanto, os seus receios quanto à estadia forçada na cama do hotel eram completamente infundadas. Depois da operação que durou cinco horas, quatro das quais para o médico colocar a linha na agulha, Carlos e Inês regressaram ao hotel para jantar e descansar. 


©2013 Alexandre Rodrigues

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Férias Em Malta. 3ª Parte




III

Carlos e Inês, num dos intervalos de praia, resolveram explorar mais um pouco a capital maltesa. Decidiram  então visitar uma das muitas igrejas da ilha. Dirigiram-se à igreja de São Paulo Náufrago. Na escadaria de pedra calcária, uma velhinha com aspecto de mendiga, vestida de farrapos pretos, cabeça coberta, abeirava-se dos turistas, e de voz rouca apregoava imperativamente:

- Leve uma agenda! Leve uma agenda!

Carlos e Inês não se deixaram intimidar pela insistência quase zangada da velha senhora e acelerando o passo ligeiramente, passaram a arcada entrando de imediato no templo.

Assim que deram os primeiros passos, olharam em volta e para os tectos do sagrado edifício, quando, por detrás de uma coluna do lado esquerdo saiu uma outra velhinha, desta vez de aspecto mais digno mas também coberta da cabeça aos pés de preto, ralhando:

- Mas o que é isto!? Ahn!? Que pouca vergonha vem a ser esta, hein!?

Carlos e Inês estacaram, franziram os respectivos sobrolhos em ar de estranheza, olharam um para o outro, congelaram a expressão por alguns segundos, cinco para ser mais exacto, e repararam que a beata se dirigia a eles, mais precisamente a Inês:

- Cubra-se, sua desavergonhada! Cuuuuubra-se! Dizia, prolongando os “uu” em vibrato aflautado. Está na casa de Deus Nosso Senhor, da Virgem Maria sua esposa e mãe do Cristo crucificado no madeiro e de São Paulo Náufrago Apóstolo de Jesus! Disse de uma vez só sem pausas para respirar, ficando muito vermelha.

Não tem vergonha!? Cuuuuubra-se imediatamente!

Inês, por causa do imenso calor mediterrânico que se fazia sentir, trazia um vestido de alças de algodão até aos pés, deixando no entanto os ombros descobertos, só teve tempo de perguntar:

- Mas como? Onde?

- Então não viu a minha irmã lá fora? Questionava indignada a devota. Devia ter-lhe pedido um lenço para se cobrir!

- Lá fora só estava uma velhinha a mendigar. Argumentava Carlos.

- Qual mendigar, qual carapuça! Exclamava de dedo indicador espetado. Aquela é a minha irmã. Vá lá ter com ela para lhe arranjar um lenço.

Carlos, receoso que acontecesse alguma coisa a Inês acompanhou-a até à escadaria exterior onde se encontrava a irmã da beata, que parecia esperá-los.

- Então - disse em voz roufenha – vieram buscar a agendazinha?

- Não. Disseram ambos em coro.

- Vim buscar um lenço para poder entrar na igreja. Disse Inês.

- Se comprar a agenda, leva o lenço de oferta. Resmungou a geronte como se tal fosse óbvio. E continuou:

- Mas tem de mo devolver à saída, avisou de dedo indicador em riste, fazendo agora sim, lembrar a sua irmã que estava de sentinela dentro da  igreja.
Carlos, respirou fundo, meteu a mão no bolso das calças e pagou a agenda com uma nota, quando esta ripostou do nada:

- Dinheiro dentro das calças é pior que mulher na igreja com vestido de alças. Rematou.

E tendo dito isto cuspiu no chão com ar de desprezo. Murmurou qualquer coisa, que Inês julgou ser um padre nosso, e entregou uma agenda da grossura de um livro, cuja capa tinha uma imagem antiga de um papa falecido, encimada por uma senhora de Fátima de cabeça levemente pendente para um dos lados e vestida de branco.

- Então e o lenço? Disse Carlos já meio irritado com aquela conversa do dinheiro nas calças.

- Abra o livro. Rosnou a velha.

Inês então abriu o livro que era completamente oco, contendo apenas um lenço preto dobrado.

- Vá, agora cubra-se e não pequem muito! Seus hereges, filhos do demo! Aposto que nem são casados. Murmurou quando o casal já se encontravam no cimo das escadas.

Os dois voltaram a entrar na igreja. Assim que meteram o pé dentro do edifício, a segunda velhinha, de um salto, sai novamente de trás da coluna, barrando o caminho e mirando Inês de alto a baixo em silêncio, para se certificar que esta estava, agora sim, vestida condignamente. Satisfeita, abriu as pernas, mais do que seria suposto ser possível a uma senhora daquela idade e, com um passo lateral similar aos dos praticantes de Tai-chi, sempre a mirar o casal, voltou a esconder-se atrás da coluna já à espreita dos próximos turistas, desta vez um casal de lésbicas inglesas católicas, que vinham vestidas a preceito, de preto, crucifixo ao pescoço, véu e sem maquilhagem aparente,benzendo-se com o sinal da cruz ao entrarem no monumento. A beata olhou para Carlos e Inês com um sorriso sarcástico e apontou com a cabeça para as lésbicas, como que a dizer; vêm, assim é que deveriam ter feito, seus sectários.

Inês começou a sentir-se incomodada por uma das inglesas, que não parava de olhar para ela, disse ao namorado:

- Se calhar é melhor irmos andando. Já estou farta desta igreja e do raio das beatas.

Carlos acedeu. Quando se iam embora, um pé sai de trás de uma outra coluna mal iluminada, fazendo  tropeçar o rapaz que, ao tentar equilibrar-se, espeta um prego no pé, que estava solto de uma tábua no chão. Carlos sentiu a carne a rasgar dentro do sapato e gritou.

- Puta que pariu! Merda!

Felizmente, proferiu estas indecorosas palavras em português, ao que a beata apesar de se ter apercebido que algo se passava, não entendeu o baixíssimo vernáculo em que foram proferidas. No entanto, ao abordar Carlos que estava sentado no chão a verificar o ferimento, uma outra beata, anã, que entretanto saíra de trás da coluna mal iluminada, juntou-se à primeira e proferiu:

- É castiiiigo! Foi Deus Nosso Senhor que o castigou por ter entrado na igreja sem lenço!

- Mas quem entrou na igreja sem lenço foi ela! Disse Carlos cheio de dores apontando para Inês.

- Paga o justo pelo pecador é o castigo vindo do Senhor! Rimou cheia de perfídia, a harpia.

- É melhor irmos ao hospital ou centro de saúde tratarmos desse golpe que me parece ser fundo.

Inês então, ajudou Carlos a levantar-se e, amparando-o, saíram da igreja e dirigiram-se onde pudessem tratar da ferida que obrigava agora Carlos a coxear.

©2013 Alexandre Rodrigues