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quinta-feira, 1 de maio de 2014

O rio que corre para a nascente



 
©Ricardo Silva
aqui me pronunciei acerca de rios e de como estes representam a vida. E de como somos meros barqueiros que, levados pela corrente dos acontecimentos, tão-somente nos limitamos a manobrar o barco da forma que nos é possível, parando nas margens de vez em quando para o contemplar, rir, chorar ou conversar com outros barqueiros que se cruzam connosco. É nas margens desse mesmo rio que o barqueiro adormece e é como que levitado para um outro rio, mais turvo, um rio noturno que flui até à nascente transportando-o a ancoradouros passados onde se encontra com outros barqueiros, alguns que não vê há muito tempo, outros que já morreram, outros que fez por esquecer mas que o rio dos sonhos insistentemente o relembra de que existem. Por vezes são entabulados diálogos, na maior parte das vezes não. Em algumas das viagens, o ancoradouro passado está envolto numa bruma desoladora, noutras são os olhos do barqueiro que estão semicerrados e não enxergam o passado claramente. Talvez por falta de respostas concretas. Talvez porque tenha deixado amarras em ancoradouros abandonados, ou onde o barqueiro foi deixado à sua sorte, sem um adeus, sem uma razão plausível. 


Mas este rio não tem foz apesar de correr para a nascente que o barqueiro nunca alcança… Ou melhor, a foz deste rio é o acordar sereno ou atordoado do barqueiro depois da sua mente se ter, por momentos ou horas, libertado do corpo e perscrutado o passado, viajando pelo único flúmen que o transporta até esse mundo onde a realidade se mistura com a fantasia. E sonhar pode ser tão ou mais doloroso para o barqueiro do que a realidade. É quando as águas deste rio se revoltam, como que numa tempestade e o sonho se transforma em pesadelo sem controlo. Porque acordados todos somos senhores do nosso barco, manobramo-lo como queremos ou como o rio nos deixa, nem sempre com os melhores resultados é certo. Mas o rumo, esse somos nós que o indicamos. Em sonhos, a nossa mente é o mestre da embarcação, a mesma mente que acordada, aprendemos a silenciar, e que se vinga de nós, qual fantasma de natais passados, levando-nos aos ancoradouros mais recônditos de viagens passadas e, como um algoz, nos manieta, agarrando-nos pelos cabelos ao mesmo tempo que nos obriga a descerrar os olhos com tal violência, que somos forçados, não só a relembrar, mas também a participar no desolador ato que se desenrola em frente da nossa hesitação e autêntico terror. Quando isto acontece uma e outra vez, é de todo impossível ao acordar, não nos lembrarmos que existe um rio que corre para a derradeira foz onde os todos os barqueiros finalmente adormecem. Pelo contrário ao acordar das viagens ao passado, quedamo-nos distraídos e esquecemo-nos de apreciar a paisagem, porque uma triste desolação nos acompanha como uma sentinela muda, encaminhando a melancolia aos nossos olhos e garantindo que nunca, mas mesmo nunca nos esqueceremos do passado doloroso. 


© 2014 Alexandre Alves-Rodrigues

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