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sábado, 19 de dezembro de 2015

Amizade





Existem duas lonjuras, a saber; a lonjura do tempo e a lonjura da distância. Encurtemo-las.


Conhecemo-nos há tanto tempo,
E há tanto tempo,
Por demais somos do outro desconhecidos.
(e até inventámos esse tempo de nos ignorar)
Pois há muito tempo
Que deixámos, um do outro, de ser pronomes indefinidos.

Sei tanto sobre ti, e, no entanto,
Aquilo que sei é tão pouco.
Pouco que em minha doída voz é nada.
Por vezes quatro olhos se turvam
E se enchem de água,
Nessas esquinas de melancolia
Aonde jazem corações caídos após a cilada.

Conversa longas, de mistério encetadas,
No remanso de noites brancas, paradas,
Fingimos ambos à distância articular.
Dizemos: “é no mar que nossas almas se encontram.”
Uma afogada em lembranças, outra incerta a flutuar,
Ali, onde a velha saudade à fímbria dos tempos nos foi procurar.


©2015 Alexandre Alves-Rodrigues

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Tuas Mãos












Com a imagem de tuas mãos níveas e deleitáveis
Construo em minha mente sonhos desperto.
Teus dedos são os secretos pináculos do meu mais profundo desejo.
Têm das naturezas fortes algo; O lavor das mulheres 
Que abotoam em suas mãos 
Outras mãos errantes sem medo de perdição.
Possuem palmas que não se acanham 
À luta celestial com anjos de céus boreais caídos.

Permuta, por uma vez que seja, essas suaves pontas,
Torres de porcelana em carmim encimadas
Por meus gemidos de ti envenenados.
Mergulha-as em minhas espáduas.
Desfaz em mim a tua misteriosa aflição,
Saciando sedes antanhas de corpos cansados de separação.

©2015 Alexandre Alves-Rodrigues

sábado, 7 de novembro de 2015

Arritmia


Foto: Nuno Bossa. Arrábida



















 



Minha poesia
Longe de ser um horizonte definido
Perdido no meio das ilhas,
É arrítmica como um coração desfeito.
Nasce de um sentido profundo de incompletude
Como bruma que desce na noite.

E por vezes onde devia não se faz rima.
Onde devia ser céu é um velho e gasto chão
E navega por entre velhos rochedos perigosos
Num mar revolto de eterna perdição. 
Invoca histórias da infância
Não sei bem porquê…
Quer saltar muros e tem medo de o fazer.


A minha alma não existe
Os meus olhos têm o fulgor de olhos defuntos
Onde um espírito certa vez habitou.
E no entanto sou. E habito um corpo.
Feito de ossos, tendões,  carne e sangue,
Existe dentro de mim como que um mar de gravilha
Que não me afunda no mar, mas também não avança.
E nas artérias corre um saibro fino que tudo erode à sua passagem.
Como o vento e o mar na rocha desejando-a areia.
E eu como um afogado perco-me em mares revoltosos.


©2015 Alexandre-Alves Rodrigues