Número total de visualizações de páginas

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Carta de um Fernando a uma Eunice


Querida Eunice,

Aquilo que irás ler é uma carta cheia de clichés e frases feitas, algo que usamos frequentemente na nossa relação, no entanto não encontro outro modo de descrever o que sinto, e quando a leres já terei partido. 

Hoje é o meu quadragésimo aniversário e acordei descobrindo que esta não é a vida que quero para mim. Chama-lhe crise de identidade, crise de meia-idade, até podes chamar-lhe cobardia e desistência que eu não me importo. Sei sim que fechado no nosso mundo de rotinas sete dias por semana, filhos, empregos medíocres, famílias poucochinhas e sei lá que mais, sinto-me a morrer. A morrer física e mentalmente, devagar mas implacavelmente. Não fui feito para isto. Perguntar-te-às, então porque só agora me dizes? Porque só agora tomei coragem, porque só agora não aguento mais, porque só agora. Para ti talvez seja suficiente, a segurança de um lar e de uma família, casa, comida na mesa e a educação dos filhos. Afinal não é o que a maioria das pessoas ambiciona? Eu, infelizmente ou felizmente, já não sei, não sou como a maioria das pessoas. Eu tenho de continuar a abrir horizontes, quero ver o mundo, mau e bom, as pessoas, conversar com elas, saber o que fazem e porque fazem. Quero descobrir outros corpos, outras vidas, dar grandes cabeçadas, arriscar, aventurar-me, perder-me para me poder achar. 

Descobri, tarde de mais dirás tu, que não tenho feitio, cabeça, pachorra, habilidade ou vontade de estar amarrado a rotinas de casa-trabalho, trabalho-casa, visitar-a-familia-poucochinha, mudar-a-fralda-à-miuda, dar-de-comer-ao-rapaz-que-tem-de-ir-para-a-escola, fazer-amor-aos-fins-de-semana-quando-há-tempo-para-isso-e-não-estamos-ambos-a-cair-de-cansados-por-causa-da-rotinazinha-diária, as comidinhas, os bolinhos, as bebidinhas, os almoços-e-jantares onde as pessoas só vomitam trivialidades. Isso para mim é tudo uma prisão. E nem é dourada, é cinzenta-chumbo, é tão certa como o dia ter vinte e quatro horas. Porque é que o dia tem vinte e quatro horas, porque é que as horas estão divididas em sessenta minutos, e os minutos em sessenta segundos? Não quero ter horários, nem dias de vinte e quatro horas. Quero dias de dezasseis, outros de trinta. Só assim saberei apreciar a vida e o que ela tem de bom e mau para dar. Quero poder amar durante dias de quarenta e oito horas, viajar em dias de dez, e chegar a um destino ao pôr-do-sol sobre um mar laranja em dias de duas horas. E acordar numa montanha tão alta, ao fim de minutos de sonhos, que consiga ver o mundo inteiro tal como ele é, não como querem que eu o veja.
Desculpa se achares que perdeste todos estes anos de vida comigo. Eu da minha parte aprendi muito, e agradeço-te o tempo que passaste comigo, o amor que certamente me deste, os lindos filhos que tivemos (eu avisei-te quanto aos clichés). Mas eu não sabia. Ou melhor, sabia mas neguei-o a mim próprio. Quis pensar que assim, de vidinha estável é que era bem, um emprego serviçal mas regular, apanhar o comboio todos os dias para ir trabalhar, voltar a casa e beijar a esposa e os filhos rechonchudos, visitar os pais avós primos tios ao fim-de-semana, era o que todos à minha volta esperavam; era o que tu esperavas, a família, os amigos, o senhor Antunes da repartição de onde me despedi hoje mesmo, a D. Antónia da mercearia onde todos os sábados íamos comprar fruta (lá está, a rotina), e até o padre que nos casou. Eu sei que te vai doer, me vai doer, vai doer aos miúdos. Mas era isto ou a loucura, o inferno. Não essa, mas outra tristeza. Porquê só agora? Não sei, porque só agora senti coragem, só agora o copo entornou, só agora a vida que levo deixou de fazer sentido. Era isso ou a loucura, ou o suicídio, ou, ou…

Portanto… não há maneira de dizer isto de outra maneira, que não soe lamechas ou pirosa, quero que saibas que apesar de tudo podes contar comigo, os miúdos podem contar comigo, não sei se financeiramente, nem sei se em pessoa, afinal os meus dias irão ter horas diferentes dos vossos, o meu tempo e o meu espaço serão diferentes dos vossos. Uma coisa é certa, partirei como os nossos antepassados pré-históricos partiram; sem a certeza de voltar do outro lado da montanha. Houve quem afirmasse que do lado de lá a erva é sempre mais verde, e as estrelas brilham melhor nos arquipélagos do sul.
Não quero que me odeies. Se me odiares, paciência. Não poderei fazer nada quanto a isso, mas preferia que ficássemos assim. Assim? Assim. Como estaríamos agora se eu no dia do meu quadragésimo aniversário, decidisse ficar em casa, esperar que tu viesses com a rotineira prendinha, acompanhada dos miúdos, fossemos talvez almoçar ou jantar fora como fazemos todos os anos, e eu infeliz, e tu infeliz, cansados, saudosos do tempo em que nos amámos de verdade, eu em busca da aventura do teu corpo, tu em busca de segurança no meu peito, e os miúdos pensando que éramos felizes. 

Um abraço grande,

Fernando.


 © Alexandre Rodrigues 2012

3 comentários:

  1. Quando o indivíduo é a tempestade de si próprio... excelente quadro.

    ResponderEliminar
  2. Porquê desistir...se houver vontade é possível superar, mudar, avançar para além da rotina, alterando hábitos,criando novas realidades junto das pessoas que amamos e que nos amam...Acredito que a fuga (mais fácil e a meu ver cobarde) não é a solução, embora por vezes pareça, há que enfrentar os problemas de frente e não como por capricho deixá-los para que os outros os resolvam....

    ResponderEliminar
  3. Sandra, isto não passa de um pequeno conto. Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.

    Claro que vale a pena tentar superar e enfrentar as coisas. Mas nem toda a gente é igual, e muita gente também se apercebe que errou no passado, seja por pressão, por má escolha, e que há coisas que por muito que se tente não têm remédio.

    Este conto tenta muito sumariamente reflectir sobre a complexidade de uma situação difícil do ponto de vista de quem parte, ou com o afirmou o Skopos muito bem, a tempestade de si próprio.

    ResponderEliminar

Comentadores de bancada