O Homem Só a convite da Krrastzepy Verlag decidiu publicar uma pequena compilação de poemas, contos e crónicas.
Serão cerca de 90 páginas e 80 exemplares. Informações e encomendas aqui ou aqui.
"J'ai tendu des cordes de clocher à clocher; des guirlandes de fenêtre à fenêtre; des châines d'or d'étoile à étoile, et je danse." Rimbaud
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sexta-feira, 5 de abril de 2013
sexta-feira, 1 de março de 2013
Férias em Malta - 6ª e últíma parte.
VI
Carlos acordou no chão de cimento do cárcere da esquadra de
Policia para onde tinha sido levado junto com a namorada. Esta encontrava-se a
dar os últimos dados ao agente Galdes que, lentamente e de maneira enervante com apenas um dos
indicadores, pois era o único dedo que tinha na mão direita depois de um
acidente com uma pistola de fabrico paquistanês, martelava no teclado do
computador; Poc… poc… … … poc, poc… poc… … … … poc.
- E como se soletra Chávenas? Perguntou o agente.
- Pela sétima vez, C-H-A-Assento agudo no A-V-…
- Assento agudo no A? Mas eu não tenho assento para o A no
meu computador. Isto veio importado da China através de um agente turco que os
envia pela Bulgária para o Reino Unido, e a nossa Policia importa de lá através
de um acordo com a “Garda” da Irlanda do Norte. Além disso só consigo carregar
numa tecla de cada vez - queixava-se – E para adicionar insulto à injúria, nem consigo
fazer as maiúsculas!
- V-E-N-A-S. Continuava Inês, suspirando de enfado.
- Vocês portugueses também é só assentos e tils e sei lá que
mais.
- Também quer contribuir para o acordo ortográfico, senhor
agente? Rosnou exasperada a rapariga.
- Eu não me quero meter nessas coisas. Sabe, tenho muito com
que me preocupar aqui por Malta. Respondeu o polícia.
- Não duvido. Computadores, então, devem ser uma dor de
cabeça para si. Ironizou Inês de novo.
- Nem me fale nisso. Quando já estava a aprender a colocar
papel na máquina de escrever, pimba, tiram-ma da secretária e colocam isto na
minha frente. Já lá vão quase quinze anos e ainda tenho medo de mexer nestas
coisas.
- Pois, já deu para perceber. Disse Inês, contendo a vontade
de esganar o agente da ordem.
- E com esta conversa toda já me perdi. Onde é que nós
íamos? Perguntou Galdes.
Entretanto, Carlos, que tinha acordado, fora ajudado a
levantar-se do chão pelo seu colega de cela, um siciliano de nome Salvattore
Mandanici também ele acusado de posse de droga e arma de fogo que tratou de explicar
ao português, ainda baralhado por causa da contusão, que este se encontrava preso
num posto de Polícia em Malta.
Carlos ficou preocupadíssimo porque iria perder o voo de
volta a casa, mas acima de tudo com o que iriam pensar dele quando soubessem da
sua prisão por posse de droga. Ele que nunca tinha tocado em tal coisa. E que terrível
desgosto iria dar à sua pobre mãe. O siciliano, emocionado ao ouvir as palavras desgosto e mãe
na mesma frase, colocava as palmas das mãos uma na outra e abanava-as para a
frente e para trás enquanto as lágrimas lhe escorriam pela face entristecida.
Ainda de voz embargada comentou baixinho com Carlos:
- Amigo, esta noite sais daqui comigo. Eu ajudo-te a fugir,
ou não me chame Salvattore Mandancini, dos Mandancini de Messina, Sicília. Mãe
alguma deve sofrer o desgosto de ter um filho preso. Eu sei bem o que isso é
porque quatro dos meus irmãos estão presos em Itália junto com o meu pai,
apenas porque temos um negócio familiar e não fazíamos mal a ninguém. Excepto
aos invejosos dos Condrò que nos denunciaram, depois de termos ajustado contas
com um deles por causa de umas lojas na nossa cidade. Tenho tudo planeado – continuou ele – a fuga, um barco à
espera na costa, e zarpamos daqui para fora. O barco é russo, vem de fazer umas
entregas de víveres na Líbia e na Síria e vai passar por Malta esta noite, a
caminho da Rússia passando ao largo de Portugal. O que me dizes?
- E a minha namorada? Perguntou Carlos um pouco nervoso.
- Queres que me livre dela? Se quiseres, arranja-se mas tens
de pagar porque é um serviço à parte.
- Não, não! Exclamou Carlos amedrontado. Ela vai connosco.
Só não sei onde ela está.
- Guarda!! Guarda!! Gritou muito alto o siciliano.
Alguns momentos depois aparece um maltês gordíssimo e muito
esbaforido.
- Ah, és tu Zampa - Disse o siciliano que conhecia mais de
metade dos polícias da ilha - Sabes onde pára a namorada aqui do português? O
rapaz está preocupado com a miúda.
- Está a prestar declarações ao Galdes. Já sabes como é.
Está para durar… Mas assim que acabar, pode visitar o rapaz. Isto se também não
for presa.
Mais tarde, muito mais tarde, Inês veio visitar Carlos que
lhe explicou come se processaria a fuga. Inês, apesar da apreensão inicial,
concordou. Afinal sempre seria melhor do que passar o resto da existência a
fazer declarações ao agente Galdes que só lhes conseguiu sacar as identidades
ao fim de três horas a matraquear no computador com um dedo. Combinaram então
encontrar-se na praia de Anchor Bay, onde o siciliano já tinha um homem à
espera que os levasse de barco até ao navio russo.
Nessa noite, um dos comparsas do siciliano entrou embuçado pela
esquadra dentro, armado de gás lacrimogéneo e facilmente manietou os
agentes que se encontravam de serviço, o gordo e o maneta. O maneta Galdes
continuara a teclar lentamente sem ter dado conta do incidente até que o atacante
lhe apontou a pistola-metralhadora e lhe gritou que largasse o computador imediatamente
ou levava chumbo. Depois de devidamente sedados para não darem o alarme à restante
corporação e permitir uns bons minutos ou horas de avanço aos fugitivos, os
sicilianos e Carlos dirigiram-se à praia de Anchor Bay, a poucos metros da
esquadra, onde se encontraram primeiro com Inês e, um pouco mais tarde com o
marinheiro que os havia de levar até ao navio russo. O marinheiro não era outro senão o sujeito dos braços
desproporcionados, comedor de vegetais enlatados e vendedor de souvenirs que ficou
muito surpreendido de ver aqueles dois turistas ali juntos com Salvattore.
- Eh àgorra! Vierrem todes da choldrra, e irrem todes de
escantilhão prr’ó navie do russe! Apá Mandancini, só m’arranjas é encmendas
destas!
- Cala-te e rema! Foi a ordem do siciliano para o marinheiro
belga, enquanto lhe pagava com latas de couves lombardas trazidas numa mochila
pelo sócio embuçado do siciliano, que mais não era que o seu primo Giovanni
Mandancini, mandado pelos irmãos e pai do Messinense para o libertar.
A proa do navio já se avistava quando do pequeno barco a
remos, Mandancini fez sinais de luz com a sua lanterna portátil. Da ponte do Aкула uma luz
respondeu ao código. Momentos depois uma escada de corda foi desenrolada da
amurada e os três fugitivos subiram até ao convés não sem antes se despedirem
do marinheiro belga, que enviou cumprimentos ao seu amigo Toni dos Besugos,
pescador da Póvoa do Varzim.
- Dobro pozhalovat! Ouviu-se imediatamente do convés do
navio, tendo um homem de porte atlético e bastante alto, primeiro osculado Salvattore
na boca, para depois o abraçar com alguma violência
- Grazie mille, komandhir. Retorquiu Salvattore ao russo.
- E pra qyéque trazes aí essyes doiys? Pode sáber-se?
- O rapaz estava na minha cela em Malta, e estava desesperado
porque um brutamontes em Anchor Bay lhe enfiou um saco de coca no bolso sem ele
dar por isso. Chama-se Carlos e é português. Veio visitar Malta com a namorada
e meteu-se em sarilhos.
- Da! Não mye dyigas que foi matyerial daquyele que
trouxyemos de Amyérica do Sul? Disse o comandante, dando imediatamente uma
gargalhada.
- Pois é. Disse Salvattore encolhendo os ombros. O brutamontes
do teu ex-marujo maltês andou numa refrega aqui com estes nossos amigos.
- Essye melyiante ayinda me deve dyez myil roublos dye un jogo
de Pyoker! Se o apanho a jeyito…
- Já sei, já sei, fazes o mesmo que fizeste aos piratas
somalis… Disse Mandancini enfastiado.
- Pyelas barbas de Karl Marx!! Gritou apopléctico. Nyet
sobrou nenhyum!! Muahahaha! Gargalhava o marujo com malvadez nos olhos coruscantes.
Um charuto de dyinamyite naquelas bocas e PUM!! Nyet pyiratas! Ou eu não mye
chame Serguey Joseph Ulyianovytch! Disse enquanto brandia o punho fechado da
mão esquerda. Que quyeres yentão qyue faça com estes duois?
- Se os puderes deixar em Portugal… É a caminho…- Disse o
siciliano a medo – Dava jeito…
Nesse momento, o comandante pegou em Salvattore pelo
braço e levou-o para um canto à parte, onde os dois continuaram a conversar, desta vez em voz baixa.
- E o quye é que Serguey ganha com yisso? Serguey
tem de ser recompyensado pelo trabalhyinho. Sabes que Serguey não vai a Portugal
desde 1975, quando fazyia serviço turyístyico desde Praça Lubyanka em Moscva,
até Rua Soeiro Pereira Gomes em Lyisboa - Disse o russo enquanto piscava o olho
ao siciliano que ficou com ar de quem não tinha percebido nada – Serguey era um jovem nesses bons tyempos!! Aguora sou “persona
non-grata”, pelas barbas de Fidyel Castro! Disse com algum azedume.
- Alguma coisa se poderá arranjar, até porque o português também
me deve a ajuda para sair da prisão. Retorquiu muito naturalmente o siciliano.
- Bem, Serguey precyisa de montar empryesa para lavagem de
dyinheiro. Isto de enviar “víveres” para Lyibiya e Syiryia não vai durar para
syempre, mas é bem pago e Suiça já não é opção para colocar lucros de operações.
- Eu também tenho alguma “roupa para lavar”, disse o
siciliano piscando olho ao russo. Negócios de família, se é que me entendes… Podíamos
montar negocio juntos ó Serguey, o que achas?
- Em Portugal, pela barbicha de Vladiymyir Ilyitch Lenine!!
Disse o russo entusiasmadíssimo.
- Claro! Queres melhor sitio? Disse o italiano encolhendo os
ombros e colocando os polegares de ambas as mãos de encontro aos outros dedos,
fazendo balançar os punhos.
- E colocamos aqui o teu amyigo como testa-de-ferro. Nyinguém
vai suspeyitar de nada, pelo byigode de Joseph Stalin!! Eheheheh!
- E com um sistema legal mais furado que uma peneira, leis
mais laxistas que as de uma República das Bananas e um poder executivo mais
corrupto que um gangster albanês, vai ser canja! Exclamava o mafioso siciliano.
- Ayinda o fazem candyidato a uma câmara munyicyipal!! Ou
dyeputado!! Muahahahah, pelas sobrancelhyas de Álvaro Cunhal!! Ria-se o russo
quase como uma criança entusiasmada.
- Tem de ter sede na ilha da Madeira - Avisou o siciliano em
tom mais sério - Na zona franca.
- Claro – concordou o russo – Tudo dyentro da lyegalyidade.
Não qyeremos problyemas com nyinguém. Fazemos tal qual os gyestores
portugueses. Dyiscrição absoluta. Tudo muyito opaco, como manda a lei em
Portugal.
- Mas há uma coisa ó Serguey. Que tipo de negócio?
- Syimples! Bustos! Atirou o russo muito naturlamente.
- Bustos!? Indagou o siciliano muito espantado.
-Da!! Bustos de Lenine, Stalin, Andropov, Castro, Ho Chi Min
e até do Kim Il-sung. E matryoskas também. Vyendemos quase tudo na festa do
Avante, e o que sobrar, oferece-se como gyesto de boa vontade internacional aos
autarcas alyentejanos cuomunyistas.
- Genial ó Serguey!! Não sei como te lembras destas coisas!!
- Não te esquyeças que eu fazia serviços turyistyicos em
1975…
- Já sei, já sei, entre a Praça Lubyianka e a Rua Soeiro Pereira
Gomes...
- E vyice-versa – disse o russo arregalando os olhos – E até
já tenho um nuome para empryesa de bustos.
- E qual é? Perguntou Salvattore.
- E Pra Qyué Que Lyeva Aí Yesse Buste?
- Quem? Eu!? Espantou-se o italiano.
- Nyet! Idyotta! É o nuome de empresa de bustos.
- Ah! Genial – Aplaudiu o siciliano – Mas temos de convencer
ali o nosso amigo a entrar no negócio.
- Iysso Serguey deixa para com Salvattore. Afyinal estás a
dever-me essa. Nyet era suoposto trazer convyidados para o meu barco. E Serguey
confyia no teu “poder de persuasão” e “charme” italyiano.
Não terá sido preciso muito para convencer Carlos e Inês a
entrar no negócio. Afinal Salvattore apenas lhes explicou que seriam sócios de
uma empresa de import-export de bustos e matrioskas russos, ficando este e o
russo Serguey como sócios-sombra por razões “burocráticas”.
Dois dias depois, um barco pesqueiro português, combinado
com o russo, veio buscar o casal ao largo da costa portuguesa. Era a traineira “Imperador” de Tozé dos
Besugos. Tendo este sabido que os dois portugueses tinham estado em Malta, quis saber novidades do seu velho amigo marinheiro dinamarquês cuja descrição coincidia com a do esmurrador
de souvenirs de braços desproporcionados.
- Dinamarquês!? Perguntaram Carlos e Inês muito espantados?
- Sim! Dinamarquês de Frederikshavn! Então num se bia luogo
pelo sotaque!? Carago! Gritou o pescador poveiro, meio enervado.
FIM
©Alexandre Rodrigues 2013
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
Férias em Malta - 5ª Parte
V
Depois da operação, Carlos encontrava-se de pé enfaixado e amparado
por duas muletas, tendo sido avisado por uma das enfermeiras que devia apenas
evitar a areia das praias para não ganhar nenhuma infecção. O casal resolveu
então ir a Anchor Bay, recomendada pelo recepcionista do hotel, onde foi-lhes
dito, havia uma aldeia-cenário de um antigo filme de Holywood cujo personagem
principal era um marinheiro de desproporcionados antebraços que só comia
espinafres de lata e tinha uma namorada por demais subnutrida. Não se sabe se a
subnutrição da sujeita era devia ao facto de não comer espinafres, vegetal
monopolizado pelo marinheiro, ou se por usar substâncias psico-trópicas
importadas clandestinamente da América do Sul pelo maior rival do namorado, que
a tentava brutalmente seduzir, utilizando para tal as ditas substâncias de
apsecto farinhento e branco. Certo era que se recusava terminantemente a comer
os duvidosos hamburgueres do senhor Cobardolas que havia montado negócio em
Anchor Bay depois de problemas que havia tido quando os dois marinheiros
rivais, o dos antebraços e o brutamontes, resolveram abrir restaurantes do
género, rivalizando entre si, roubando clientela um do outro tendo acabado em
luta de comida, aproveitada então como activos sólidos e liquidos pelo senhor
Cobardolas para abrir o seu próprio estabelecimento comercial aliás famosissimo
na aldeia, talvez por ser o único, depois do desastre comercial que foram as
venturas gastronómicas dos dois marinheiros rivais.
Ao chegarem à aldeia, Carlos e Inês foram logo interceptados
pelo marinheiro brutamontes que lhes tentou vender substancias ilegais de
primeira classe. Carlos reparou que o brutamontes era parecido com a velhinha
da escadaria da igreja que lhes vendera a falsa agenda com o lenço dentro, e rejeitando
qualquer tipo de negócio com o sujeito, este ficou nitidamente mal-disposto, de
tal modo que lhes atirou com algumas altercações menos elegantes, especialmente
à namorada de Carlos que corou valentemente, mesmo estando fortemente bronzeada
do sol da ilha de Malta e jurou vingança do casal.
Mais à frente, o famoso marinheiro dos antebraços
desproporcionados, zarolho e de cachimbo nos beiços havia montado um espetáculo
de rua para os turistas, que consisitia basicamente em largos e pesados
objectos que eram atirados ao ar, esmurrados e transformados pelo mareante em
“souvenirs” e posteriormente vendidos aos turistas. Um dos pontos altos deste
espetáculo eram as ancoras de petroleiro compradas nas sucatas cingalesas de
navios mercantes, que eram transformadas, pelo processo atrás descrito, em ferraduras com
a inscrição “Tifkira ta ‘Malta”, isto
depois de ter esmurrado um mastro em madeira de um veleiro françês em molas de roupa e uma chaminé de um transatlântico em
anzóis de pesca.
No final do espetáculo Carlos comprou algumas ferraduras
para distribuir pelos amigos e familiares e entabulou conversa com o marinheiro
que se queixou da falta de trabalho no mar, primeiro desde que os navios
mercantes deixaram de aportar mais frequentemente na ilha para reabastecer,
depois ainda se dedicou à pesca, mas desde que o país aderira à União Europeia
as coisas estavam mesmo más e lá conseguia fazer algum dinehirito vendendo
“souvenirs” e outras lembranças da ilha.
- Então de onde são? Indagou o marujo enquanto reacendia o
cachimbo, chupando ar que fazia assobiar o aparato e que entretanto começara a
fumegar.
- De Portugal. Disse Carlos.
- Ah sã perrtugueses!! Eh àgorra!! Nã aparrecem muntes de
vocêzes perr aqui!! Disse em português e no mesmo sotaque setubalense do
médico.
- Fala português? Indagou Inês cheia de curiosidade.
- Não me diga que aprendeu com médico do centro de saúde!
Exclamou Carlos meio trocista.
- Quem!? O Costurrêro de Goze!? Ná, amigue!! Eu é que
lh’ensinê tude!! Andê muntes anes à pesca do besugue da Póvoa do Varrzim. Bons
tempes, amigue, bons tempes esses... Disse com alguma emoção. Tá viste aí p’lo
sê pé que já o conheceu!!
- Ah, sim o doutor Scalpello... disse Carlos sem grande
convicção e com alguma dor no pé. Então o senhor é que o pescador holandês que
o médico me falou.
- Holandês, eu!? Nã amigue, ê cá sô belga, da Flandrres!
Esse médique confunde tude. Tamém anda semp’ bêbade!
- Então é daí o sotaque. Gozou Carlos.
Quais sotaque? Mas ê fale com algum setaque!? Que’s verr este
agorra veio p’rraqui p’a m’atentarr a mona!!
- Então e o filme de Hollywood não lhe rendeu nada? Perguntou
Inês cheia de pena do marujo e desviando a convera.
- Nã filha! Aquile só serrviu prra darr dhnêrre a alguns.
Apontava então para a cantina de Cobardolas. E a histórria c’os amarricanes
contarrem da nha pessoa; é tude mentirra!! Ê cá nã come espinafrres de lata. É
couve lombarrda!! Mentirroses!!
- Pronto deixe lá então. Acalmava Carlos o marinheiro. Então
bom dia! Despediu-se.
- Adeuzinhe migas!! E se passarrem p’la Póvoa do Varrzim
digam olá ó mê amigue Toni dos Besugues!!
- Fica prometido! Disse Inês já afastando-se e acenando ao
marinheiro que agora entretinha uma família de turistas húngaros.
O restaurante de Cobardolas encontrava-se cheio de turistas
ingleses que viam ali naquele cantinho, um bocado de casa. Isto porque o famoso
Cobardolas, era de origem inglesa, mais concretamente da cidade de Hull. No
entanto, diziam as más linguas que Cobardolas, por causa do seu vicio no dito
prato, que o fizera famoso, não fazia muito dinheiro com o negócio e tinha ordenados em
atraso e pagamentos aos credores que já o ameaçavam com processos avultadíssimos
em tribunal.
Inês e Carlos encontraram uma mesa vazia, mas ainda cheia
dos restos de comida de uma imensa família de ingleses de Bradford. Quando digo
imensa falo não no tamanho mas na quantidade. Além dos progenitores, eram mais
quatro filhos e um casal de idosos que deveriam ser os avós. Viviam todos numa
casa da câmara municipal, eram todos desempregados ou com actividades
duvidosas, especialmente os mais novos, mas como é da praxe e graças à
generosidade dos governos da coroa britânica em relação aos laxistas, recebiam um grande numero de benefícios, incluindo a renda da casa, a creche do mais pequeno ainda de colo,
e até dizia-se as contas de telemóvel, mais os abonos dos quatro filhos. Como
tal, ainda sobrava para umas viagens “low-cost” com tudo incluído num resort,
mais as despesas no destino pagas pela reforma do casal de idosos reformados da
defunta indústria têxtil do norte de Inglaterra.
Passado algum tempo lá foram servidos pela namorada do
marinheiro, que se arrastava pelo recinto, com grandes olheiras, rugas a mais
para suposta idade e com ar de grande enfado.
- Digam lá, fáxavor! Resmoneou a personagem.
- São dois “Super-Cobardolas” e duas latas de “Cola”. Pediu Carlos.
- É só!? Perguntou displicentemente,congelando um esgar de
repulsa, pois estava habituada às grandes doses pedidas pelos turistas anglo-saxónicos, que por norma se gostam de empanturrar em comidas pouco menos que
saudáveis e totalmente desaconselhadas pelos médicos, estes mais para evitar
despesas de tratamentos cardiovasculares no serviço nacional de saúde, que por genuíno
interesse pelo bem-estar dos cidadãos da velha Albion.
- É só, obrigado. Disse Inês com um leve sorriso.
A namorada do marujo lá se arrastou até à janela que dava
para a cozinha e gritou a ordem de serviço.
Passados alguns minutos, sete e seis segundos, a senhora lá
trouxe o pedido, indo o caminho todo a tossir para os hambúrgueres do casal que
se entreolhava abismado. Devido à fome que traziam, os dois rapidamente deglutiram
aquela mistela de pão, carne picada e alguns vegetais coberta com molho de
tomate, maionese e pickles.
Quando se levantaram, começaram a sentir a cabeça
muito leve, a sentirem-se extremamente bem, eufóricos até, e resolveram sair
para a rua dirigindo-se ao cais onde o barco que os trouxera pela costa até Anchor
Bay já os esperava. Mais uma vez foram abordados pelo brutamontes barbado, de voz rouca que
lhes propôs a compra de substâncias ilegais. Carlos que depois da refeição
tinha perdido o medo, empurrou o marujo de compleição bastante sólida, que por
sua vez desferiu uma punhada no alto da cabeça do português tendo este ficado
estendido no chão sem sentidos. Inês reagiu imediatamente pontapeando o galalau no meio das
partes pudentes. Este, pegou na frágil figura pela cintura com uma mão apenas e
atirou-a ao chão para cima do desmaiado namorado. Imediatamente, detrás de um
poste de iluminação saiu um oficial da “Pulizija” que imediatamente algemou o
par de namorados por desacato à ordem pública e por posse de substância ilegal,
sub-repticiamente colocada no bolso de Carlos pelo sevandija agigantado.
©Alexandre Rodrigues 2013
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
Férias em Malta - 4ª Parte
Carlos e Inês entraram no centro de saúde. Este encontrava-se completamente vazio com excepção de um
grupo de quatro funcionários que entretinham o tédio jogando voleibol num campo
improvisado na ampla sala de espera, cuja rede, que separava as duas equipas
era um lençol dobrado e preso a dois suportes de soro fisiológico ligados a dois
pacientes que serviam de árbitros da partida, muito maus diga-se, mais por desconhecerem as regras do jogo que pela sua limitada mobilidade e falta de vista de um deles que tinha deixado os óculos no ambulatório. Depois das formalidades oficiais
hospitalares, e de algumas perguntas secas sobre o ferimento, tais como "porque é que caiu", ou "então não viu onde punha os pés", Carlos esperou cinco
minutos e trinta e nove segundos até o chamarem para o consultório onde o médico, um homem baixo e
atarracado mas de tronco rígido, mãos espessas, envergando uma
camisa grossa aos quadrados por baixo da bata e botas de borracha nos pés, já o
esperava. Carlos entregou o papel que lhe haviam dado na recepção. Os dedos
do médico, demasiado grossos, não conseguiam apanhar o papel e por várias vezes
o deixou cair no chão, amaldiçoando-o, usando
uma linguagem rude própria de um lobo-do-mar. O médico acendeu um cigarro
e colocou-o no canto da boca, fechando o olho por onde o fumo passava, enquanto
esticava os braços para conseguir ler a minúscula letra da enfermeira
recepcionista e disse, em português, com uma voz grossa de aguardente e tabaco:
- Pode-me segurrar o papel p'a ê conseguirre lerre, amigue? É c'us mês olhes já nã serrem o qui érrem dantes! disse ele em bom sotaque setubalense deixando Carlos boquiaberto.
Depois de várias tentativas para ler o documento, algumas tossidelas bronquicas, ameaços de escarros, e alguns murmúrios enquanto lia, finalmente disse:
-Mostre lá o pézinhe. Dexe lá ê verr'isse sacha'vorr.
Agarrou no pé já descalço de Carlos, deixou cair alguma cinza do cigarro no corte, tossiu e afirmou peremptório:
- Vou terr d’o operrar
amigue. O corrte ‘tá infectade e abrriu. Temes d’desinfectarr isse e coserre, disse com os dentes muito cerrados num esgar de quem está com dores. E dizendo isto puxou o fumo do cigarro fazendo um ruído como quem sorve sopa. - Ma nã se
prreocupe ahn, ê cá antes de serr médique fui pescadorr e cosi munta rede de pesca fininha . Foi a melhorr escola de medicina que tive! Ahua! Isse e abrrirr a barriga dos pêxes p'a lhes tirrarr as trripas! E interjectando expirou o fumo para a cara de Carlos.
Carlos sentiu um suor
frio a percorrer-lhe as costas. À sua frente estava um profissional de medicina
que mal conseguia agarrar um papel, imagine-se uma agulha! E que raio de
tamanho de agulha conseguiria ele agarrar!? Já para não falar na absurda falta de vista.
- O doutor é português?
Indagou.
- Nã, amigue! Maltês dos
quatrre costades, e naturral da ilha de Goze, com munt'orrgulhe!! Aprrendi perrtuguês com um ex-clega pescadorre!
- De Setúbal? Perguntou
Carlos levado pela lógica do sotaque sadino.
- Nã! Qual quê!!
Holandês!! Nã se nota do sotaque? Disse apontando para a boca. Ê cá fale perrtuguês com setaque holandês!
Esse mê ex-clega é que pescou munt’em Porrtugal. Duma trraineirra da Póvoa do
Varrzim, no norrte do país.
Carlos decidiu não
contradizer o médico, até porque na situação em que se encontrava não era
ajuizado enervá-lo, tendo em conta que este o iria operar e aparentava ser
daquelas pessoas cujo feitio ferve em pouca água.
- Prrontes! Volte lá
parra a sala de esperra c’a gente já o chama, tá beim?
Carlos coxeou até à sala
de espera e contou a Inês o sucedido. Esta retorquiu:
- Só espero que não
tenhas de ficar muitos dias de cama, senão temos as férias estragadas.
- Penso que não.
Respondeu Carlos por descargo de consciência, quando no fundo sentia-se
preocupado com o desfechar deste episódio. No entanto, os seus receios quanto à
estadia forçada na cama do hotel eram completamente infundadas. Depois da operação que durou
cinco horas, quatro das quais para o médico colocar a linha na agulha, Carlos e
Inês regressaram ao hotel para jantar e descansar.
©2013 Alexandre Rodrigues
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013
Férias Em Malta. 3ª Parte
III
Carlos e Inês, num dos
intervalos de praia, resolveram explorar mais um pouco a capital maltesa. Decidiram
então visitar uma das muitas igrejas da ilha. Dirigiram-se à igreja de São Paulo
Náufrago. Na escadaria de pedra calcária, uma velhinha com aspecto de mendiga,
vestida de farrapos pretos, cabeça coberta, abeirava-se dos turistas, e de voz
rouca apregoava imperativamente:
- Leve uma agenda! Leve
uma agenda!
Carlos e Inês não se
deixaram intimidar pela insistência quase zangada da velha senhora e acelerando
o passo ligeiramente, passaram a arcada entrando de imediato no templo.
Assim que deram os
primeiros passos, olharam em volta e para os tectos do sagrado edifício, quando,
por detrás de uma coluna do lado esquerdo saiu uma outra velhinha, desta vez de
aspecto mais digno mas também coberta da cabeça aos pés de preto, ralhando:
- Mas o que é isto!?
Ahn!? Que pouca vergonha vem a ser esta, hein!?
Carlos e Inês estacaram,
franziram os respectivos sobrolhos em ar de estranheza, olharam um para o
outro, congelaram a expressão por alguns segundos, cinco para ser mais exacto,
e repararam que a beata se dirigia a eles, mais precisamente a Inês:
- Cubra-se, sua desavergonhada!
Cuuuuubra-se! Dizia, prolongando os “uu” em vibrato
aflautado. Está na casa de Deus Nosso Senhor, da Virgem Maria sua esposa e mãe
do Cristo crucificado no madeiro e de São Paulo Náufrago Apóstolo de Jesus!
Disse de uma vez só sem pausas para respirar, ficando muito vermelha.
Não tem vergonha!?
Cuuuuubra-se imediatamente!
Inês, por causa do
imenso calor mediterrânico que se fazia sentir, trazia um vestido de alças de
algodão até aos pés, deixando no entanto os ombros descobertos, só teve tempo de
perguntar:
- Mas como? Onde?
- Então não viu a minha
irmã lá fora? Questionava indignada a devota. Devia ter-lhe pedido um lenço
para se cobrir!
- Lá fora só estava uma
velhinha a mendigar. Argumentava Carlos.
- Qual mendigar, qual
carapuça! Exclamava de dedo indicador espetado. Aquela é a minha irmã. Vá lá
ter com ela para lhe arranjar um lenço.
Carlos, receoso que
acontecesse alguma coisa a Inês acompanhou-a até à escadaria exterior onde se
encontrava a irmã da beata, que parecia esperá-los.
- Então - disse em voz
roufenha – vieram buscar a agendazinha?
- Não. Disseram ambos em
coro.
- Vim buscar um lenço
para poder entrar na igreja. Disse Inês.
- Se comprar a agenda,
leva o lenço de oferta. Resmungou a geronte como se tal fosse óbvio. E continuou:
- Mas tem de mo devolver
à saída, avisou de dedo indicador em riste, fazendo agora sim, lembrar a sua
irmã que estava de sentinela dentro da igreja.
Carlos, respirou fundo,
meteu a mão no bolso das calças e pagou a agenda com uma nota, quando esta
ripostou do nada:
- Dinheiro dentro das
calças é pior que mulher na igreja com vestido de alças. Rematou.
E tendo dito isto cuspiu
no chão com ar de desprezo. Murmurou qualquer coisa, que Inês julgou ser um
padre nosso, e entregou uma agenda da grossura de um livro, cuja capa tinha uma
imagem antiga de um papa falecido, encimada por uma senhora de Fátima de cabeça
levemente pendente para um dos lados e vestida de branco.
- Então e o lenço? Disse
Carlos já meio irritado com aquela conversa do dinheiro nas calças.
- Abra o livro. Rosnou a
velha.
Inês então abriu o livro
que era completamente oco, contendo apenas um lenço preto dobrado.
- Vá, agora cubra-se e
não pequem muito! Seus hereges, filhos do demo! Aposto que nem são
casados. Murmurou quando o casal já se encontravam no cimo das escadas.
Os dois voltaram a entrar
na igreja. Assim que meteram o pé dentro do edifício, a segunda velhinha, de um
salto, sai novamente de trás da coluna, barrando o caminho e mirando Inês de
alto a baixo em silêncio, para se certificar que esta estava, agora sim,
vestida condignamente. Satisfeita, abriu as pernas, mais do que seria suposto
ser possível a uma senhora daquela idade e, com um passo lateral similar aos
dos praticantes de Tai-chi, sempre a mirar o casal, voltou a esconder-se atrás
da coluna já à espreita dos próximos turistas, desta vez um casal de lésbicas
inglesas católicas, que vinham vestidas a preceito, de preto, crucifixo ao
pescoço, véu e sem maquilhagem aparente,benzendo-se com o sinal da
cruz ao entrarem no monumento. A beata olhou para Carlos e Inês com um sorriso
sarcástico e apontou com a cabeça para as lésbicas, como que a dizer; vêm,
assim é que deveriam ter feito, seus sectários.
Inês começou a
sentir-se incomodada por uma das inglesas, que não parava de olhar para ela,
disse ao namorado:
- Se calhar é melhor
irmos andando. Já estou farta desta igreja e do raio das beatas.
Carlos acedeu. Quando se
iam embora, um pé sai de trás de uma outra coluna mal iluminada, fazendo tropeçar o rapaz que, ao tentar equilibrar-se,
espeta um prego no pé, que estava solto de uma tábua no chão. Carlos sentiu a
carne a rasgar dentro do sapato e gritou.
- Puta que pariu! Merda!
Felizmente, proferiu
estas indecorosas palavras em português, ao que a beata apesar de se ter
apercebido que algo se passava, não entendeu o baixíssimo vernáculo em que
foram proferidas. No entanto, ao abordar Carlos que estava sentado no chão a
verificar o ferimento, uma outra beata, anã, que entretanto saíra de trás
da coluna mal iluminada, juntou-se à primeira e proferiu:
- É castiiiigo! Foi Deus
Nosso Senhor que o castigou por ter entrado na igreja sem lenço!
- Mas quem entrou na
igreja sem lenço foi ela! Disse Carlos cheio de dores apontando para Inês.
- Paga o justo pelo
pecador é o castigo vindo do Senhor! Rimou cheia de perfídia, a harpia.
- É melhor irmos ao
hospital ou centro de saúde tratarmos desse golpe que me parece ser fundo.
Inês então, ajudou Carlos
a levantar-se e, amparando-o, saíram da igreja e dirigiram-se onde pudessem
tratar da ferida que obrigava agora Carlos a coxear.
©2013 Alexandre Rodrigues
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